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Crônica
 
Viva o Brasil!
Por: Valdir Sodré

Hoje (09 de julho de 2014) o Brasil acordou calado. Afinal a “pátria de chuteiras” assistiu perplexa a derrota da seleção brasileira de futebol por sete gols a um pela seleção alemã, na semifinal da Copa Mundial da FIFA. Ficou evidente na grande maioria da Nação brasileira a composição de uma mistura de sentimentos, como de vergonha, de desilusão, de apatia, de raiva, de vexame, de humilhação, além de outros. O sabor da derrota emblemática e histórica trouxe um ar de ressaca e calou as vozes alienantes da imprensa brasileira, sobretudo da televisiva, que nas últimas semanas bombardeou seus noticiários e programas com matérias, quase que exclusivas, referentes à seleção brasileira de futebol e ao campeonato mundial, pondo em segundo plano notícias importantes que ocorreram intensamente nesse mesmo espaço de tempo.

Deve ficar claro que todos nós devemos torcer pelo Brasil e não tão somente pela seleção brasileira de futebol. Precisamos ecoar nosso hino nacional não tão somente nas aberturas dos jogos da seleção brasileira de futebol. Temos muitas outras manifestações e acontecimentos no cotidiano brasileiro que carecem do orgulho patriótico e nacionalista, como os demonstrados nas arenas construídas para esse evento. Aliás, vale ressaltar os bilhões de reais gastos para as construções faraônicas das doze arenas destinadas para a realização do evento competitivo. E agora, para que servirão essas arenas, além da realização de jogos dos campeonatos locais, nacionais e de amistosos da seleção brasileira de futebol? O dinheiro gasto para essas obras é proveniente do suor de todos os brasileiros e como tal devem ter o retorno com propostas sociais que contemplem tanto investimento.

Ademais, por que as dezenas de empresas que patrocinaram a Copa Mundial da FIFA com bilhões de reais e dólares não investem em obras sociais, sobretudo na Educação e na Saúde? Empresas essas que são o pano de fundo de um bilionário jogo financeiro que abrange e até determina quais jogadores devem compor cada seleção.

É impossível aceitar que um jogador de futebol, como Neymar, ganhe cerca de três milhões de dólares por mês em seu clube, enquanto o piso nacional dos professores de Educação Básica brasileira deverá ser fixado este ano em R$ 1.697,39, para uma jornada de 40 horas semanais. Mas, afinal, por que tanta valorização por um atleta de “alto nível”, que é um trabalhador como os outros? Vale ainda ressaltar, por que todos esses jogadores de futebol encerram sua carreira precocemente, antes dos seus quarenta anos, enquanto todos os trabalhadores dessa Nação precisam trabalhar trinta e cinco anos e terem a idade mínima de sessenta anos para se aposentarem? Alguma coisa está dentro da ordem mundial...

Tal brutal diferenciação justifica a resposta dada por diversos meninos brasileiros quando questionados pelo o que eles querem ser quando crescerem. Muitos respondem prontamente: “quero ser um jogador de futebol!”. Por que não respondem que, por exemplo, querem ser um professor? Tal opção é freneticamente alienante, quando na verdade esquecemo-nos de explicar-lhes que são poucos dentre milhares que conseguem o êxito profissional e financeiro nessa escolha.

Enquanto um jogador de futebol ganhar milhões por mês pelo seu trabalho e um professor ganhar pouco mais do que dois salários-mínimos e o Estado investir atualmente apenas cerca de 6% do PIB em educação (com previsão de 10% até 2024) não conseguiremos realizar a revolução tão almejada pela educação. Como afirmara Paulo Freire, a verdadeira transformação social que queremos não passa somente pela educação, mas passa necessariamente pela educação.

Não cabe aqui desmerecer o profissional jogador de futebol e muito menos o belíssimo esporte que é o futebol. O jogador de futebol é detentor de múltiplas inteligências, como a espacial, a interpessoal e a corporal-cinestésica, e como tal deve ser valorizado, mas não supervalorizado. O futebol é um esporte que valoriza a coletividade, o determinismo, a beleza, o inter-relacionamento, a disciplina e a arte. Ele é um dos esportes mais aprazíveis de praticar e de assistir. É extremamente envolvente e lógico, capaz de captar a atenção de milhões ou bilhões de pessoas em toda parte do mundo quando é competido por seleções de diferentes nações, como é ocorrido no evento da Copa Mundial da FIFA.

Mais enfaticamente ainda, não podemos esquecer-nos do maior e principal evento que ocorrerá neste ano no Brasil: as eleições políticas brasileiras. Esse evento sim determina nossos rumos, diferentemente do futebol que nada modifica em nossas vidas. Precisamos ficar atentos para escolhermos representantes que verdadeiramente lutem e construam políticas sociais que promovam uma transformação social. Precisamos lutar contra a corrupção tão instalada nos gabinetes dos poderes da Nação. O exercício democrático é o verdadeiro espaço para convivência nas diferenças. Somos uma Nação em fase de maturidade democrática, após décadas da repressão do regime militar. Enfim, espera-se que o resultado não exitoso na conquista da taça e do hexacampeonato de futebol pela seleção brasileira desperte em cada brasileiro um olhar mais crítico e refinado, deslocando sua paixão futebolística para os assuntos, fatos e compromissos que de fato determinam os rumos de nossa Nação. Fazer um gol, assim, e se tornar um vencedor se faz através da participação, do espírito democrático e do diálogo com o outro. Fazer o gol nas urnas dificilmente determinará podermos ganhar três milhões de reais por mês, mas poderá determinar reformas políticas que diminuam ou minimizem a estúpida distribuição de renda brasileira, na qual 10% da população mais rica concentram 42% da renda do país e 40% dos mais pobres concentram somente 13,3%.

O futebol da vida não é uma “caixa de surpresas”, mas exige disciplina, compromisso, senso crítico, esperança e desejos de mudança. Viva o Brasil!

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