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Crônica
 
DA SAUDADE DA SIMPLICIDADE DE MANOEL DE BARROS AO RECONHECIMENTO DE FERREIRA GULLAR
Por: Valdir Sodré

Curto tempo... Depende de que ótica se vê! Tantos sonhos eternizados em apenas pouco menos de um mês entrecortado entre 13 de novembro e 05 de dezembro de 2014. Tempo que conjuga eternidade nas entrelinhas de dois poetas. Da saudade da simplicidade de Manoel de Barros ao reconhecimento de Ferreira Gullar...
Para um bom começo, recorremos às frágeis e sutis palavras de Barros, ao solfejar:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz:
Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio.

Talvez, em 1930, Ferreira Gullar antecipasse o destino, abraçando em despedida a ausência profunda de quem eterniza o ato de inspiração poética, num tempo desconhecido, porém aberto aos deslizes de quem se surpreende em coincidentes profecias:
Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.
De fato,
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tarde e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique.
Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

Para não entender a força da despedida em contrapartida de um merecido reconhecimento de imortal, basta cruzar as entrelinhas desses dois eternos poetas, que suavizam as palavras numa docilidade de quem sorri ao acordar.
Basta oportunizar-se ao permitir que a brisa de toda inspiração contida e inconsciente invada o cotidiano e alimente os desejos por sonhos de felicidade e pureza d’alma.
Não é preciso amordaçar-se nas prisões de um mundo contemporâneo que nega as emoções e individualiza o presente, sem contar com a presença da flor que fura o asfalto, parafraseando Drummond, e com o pôr-do-Sol que anuncia mais uma noite, quando a luz dá a alma para a escuridão que vem.
Hoje podemos contar com “apenas” 97 anos de vida de Manoel de Barros, porém, feliz da vida, aos 84 anos, Ferreira Gullar começa uma nova aventura e se esbarra nos ideais da Academia Brasileira de Letras, que historicamente cometeu tantos erros quanto ao passado assombroso dos bastidores da ditadura militar, que foi fonte de inspiração poética a esse brasileiro militante.
Manoel de Barros retroalimenta essa perspectiva ao mais uma vez solfejar:
Poderoso pra mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.

Uma imensidão pode nos invadir subitamente. E como uma tempestade de emoções em pânico, de repente funde-se no tempo mais uma vez o abismo que existe entre a luz e a escuridão. Gullar não nos deixa em branco esse delírio ofegante e surpreendente, ao pronunciar:

De noite, como
a luz é pouca,
a gente tem impressão
de que o tempo não passa
ou pelo menos não escorre
como escorre de dia.

Nesse pequeno e breve espaço de tempo, assim como as entrelinhas desse pretensioso texto, parece que muito tempo se passou, como se um ano coubesse em menos de um mês.
Não importa as sutilezas. Vale ressaltar a beleza do gesto e a surpresa de quem nos abraça sem nos conhecer de forma singelamente marcante. Entre a vida e a morte existe uma força estranha que nos move para frente, mesmo que saibamos qual é o fim de todo o mundo.

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