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João Márcio F. Cruz
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Crônica
 
A Infelicidade do aluno nota 10
Por: João Márcio F. Cruz

A INFELICIDADE DO ALUNO NOTA 10

Eu fui um daqueles alunos que nunca me conformei em ser o segundo da sala.
Todos os anos, colecionava prêmios e estrelas como reconhecimento pelo meu esforço, empenho e excelentes resultados.

Meu boletim escolar enchia de orgulho meus pais que sempre faziam questão de exibi-los para os familiares e amigos.
Que alegria ver meus pais felizes com minha carreira estudantil.
Nunca faltei aula para um encontro amoroso, simplesmente porque não tive amores de adolescentes, porém, várias vezes renunciei a finais de semana para estudar para uma prova. Nos dias mais tensos, eu abdicava dos intervalos, deixando de divertir-se com os colegas de classe, perdendo a oportunidade de fazer novos amigos e ficava dentro de sala estudando, pesquisando e me preparando para meu nota 10.
Quando a professora, em alto e bom som, dizia as notas, eu me sentia rei, monarca, imperador porque sempre estava acima deles.
Quando eu via algum fazer uma bagunça, uma brincadeira, eu me sentia tão superior, maduro e quase sempre ficava torcendo que a professora descobrisse-os e aplicasse-os alguma reprimenda.
Ser um aluno nota 10 era a finalidade de ser estudante.
Porém...
Isso me custou um preço...
Pulei etapas da vida e nunca participei daquela saudável irresponsabilidade dos adolescentes. Sempre muito correto e organizado, expulsei o caos de minha vida e junto dele, todas as experiências maravilhosas que um ser humano tem direito.

Eu não sabia, na época, mas lançar um aviãozinho de papel, paquerar com a colega ao lado, jogar futebol transformando as cadeiras em traves, na ausência da professora, não tirava a dignidade de ninguém.
Fui muito severo comigo mesmo.
Não me permiti os erros etários de uma juventude alegre.
Eu olhava com desdém o colega ao lado que sempre tinha um bombom, uma caneta da sua namorada da sala vizinha. Eu achava isso inadmissível porque atrapalharia os estudos. Afinal, a nota 10 era mais importante do que tudo.
No fundo, era inveja...
ele tinha alguém, eu só tinha os livros.

No final do ano, atingi meus objetivos.
Nota 10 em “todas” as disciplinas, mas a que preço...
Foi alto o preço que paguei por ser um aluno exemplar.
Ainda hoje, se pudesse voltar atrás, sei que um 8,0 seria suficiente pra ser feliz e ser aprovado.
O tempo passou...

Hoje, escrevi livros, dou palestras, fiz faculdade, porém, aquele adolescente “exemplar” sacrificou muitas coisas nobres dentro de mim.
Ficou no coração das professoras, a memória daquele excelente aluno que nunca ficou reprovado, nunca fez recuperação, tampouco incomodou-as com queixas e lamúrias, tipicas de alunos negligentes, porém, o que elas nem imaginam, tampouco meus pais que até hoje falam com orgulho das minhas notas, é que, naquela escola, talvez aquele aluno tenha sido o mais infeliz dentre todos no colégio e até hoje ressente-se das boas notas que deu tanto orgulho aos outros.

J. Márcio

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