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Humberto Pinho da Silva
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Crônica
 
DESABAFO DE UM ARTISTA
Por: Humberto Pinho da Silva




Tenho um amigo que é escritor. Bem: não é propriamente escritor, mas cronista. Rabisca artigos no jornal da terra onde nasceu. É homem simples, humilde, mas de grande valor. Escreve com graça e a prosa é de leveza encantadora.
Todos o gabam. Quando visita a cidade natal é recebido com efusivos abraços. Batem-lhe nas costas com entusiasmo e dizem alegremente: - “És um grande jornalista! Não sei onde vais buscar tantas coisas! …
Meu amigo alegra-se com tantos elogios. É o médico, o jurista, o professor…até o doutor juiz gaba-lhe o talento…
Uma tarde de Maio, já o Sol escondia-se no horizonte, ensanguentando o mar azul, encontrei-o à beira-mar lendo livro de capa negra e folhas doiradas. Era uma Bíblia…
Sentei-me a seu lado. Depôs o livro na mesa da cafetaria, e enquanto louvava-lhe os curiosos artigos, o Alfredo (assim se chama o meu amigo,) declarou-me:
- Sou um escrevedor! Escrevo para entreter. Nada me dá mais prazer do que passar para o papel branco o que penso…
Como lhe recordasse o interessante e erudito artigo sobre Molière, respondeu-me de olhos baixos e ar tristonho:
- O que me desgosta é o facto de minha mulher não me apoiar. Já não digo incentivar. Nunca lê o que escrevo e a cada passo diz: “ Estás sempre de esferográfica na mão! … Ainda se te pagassem…” E meus filhos fazem o mesmo…
Como lhe dissesse, para animar, que não é por mal. São jovens… Não compreendem…
Vagueou os olhos pela praia deserta, e prosseguiu:
- Outro dia, artigo que publiquei, foi transcrito por matutino da Capital. Fiquei como um cuco. Logo mostrei a minha mulher e aos filhos. Ela olhou e disse: “ Está bem…” e continuou no maneio da casa; meus filhos voltando-se para mim, disseram com indiferença: “ Parabéns! …” e saíram discutindo o último jogo da “Seleção”…
Ao retirar-me, avizinharam-se uns homens, que o cumprimentaram cordialmente, convidando-o para passeio higiénico na praia.
- Homem, deixa-te de livros! …Letras são tretas! Vive! Passeia! Diverte-te! A vida são dois dias…e este já está na conta! Isso até te faz mal à vista! …Vem viver! …
Como o Alfredo, muitos escritores de valor, lamentam-se que os piores leitores e ouvintes, são os familiares e amigos – os que repartem a mesma sala, o mesmo quarto de banho, a mesma casa…

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