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EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY
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O SERTÃO ou Chico e Hilda, uma epopeia de amor sertanejo.
Por: EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY

Sol a pino, capinando ligeirinho, pensava no dia de amanhã, no trazer a cabocla para a fazendola. Caprichoso, já construíra a casa de taipa e fizera os bancos rústicos, o catre onde dormiriam, a mesa onde haveria de comer com sua Hilda. Até a privada, cubículo um tanto afastado da casa, estava pronto. Preparava agora a horta onde plantaria as verduras que haveriam de prover o sustento da pequena família que formava. Não queria mais trabalhar para os outros, cansado de “vender o suor”. No dia seguinte, selaria a mulinha e passaria na casa de Nhô Florêncio, velho respeitado na região, conhecido por ser pai das donzelas mais bonitas da terra. Hilda era filha dele e ao saber do namoro, o velho resmungou: -“Mas, minha fia! Tu num tá vendo logo? Um cabra qui só tem uma “burraia piquititita”, com 4 tarefa de terra, tem lá condição de sustentá uma famia?”. Na verdade, era puro ciúme de pai amoroso. Com muito gosto, o caboclo conseguiu o seu intento porque era um trabalhador honesto que prometeu a Florêncio que iria trabalhar para si. A argumentação terminou por vencer o velho que sabia ver quando o cidadão podia constituir família.
Findo o serviço. O homem repleto de orgulho, suor e poeira contemplou a terra revirada com estrume, pronta para o plantio. Passou uma mão calosa na outra e sentindo muito cansaço, acocorou-se para pitar um cigarrinho enrolado na palha de milho. Ficou ali, matutando, fora longa a faina, todas as suas economias consumidas, mas valera a pena. Anoitecia quando tomou o caminho do riacho, pensando na cabrocha bonita e cheirosa, cabelos untados com óleo de coco, uma beleza só que haveria de ser sua. Feliz e solitário passou a falar para a vegetação, pássaros que se recolhiam e grilos que prenunciavam a noite:
- Deus haverá de mi ajudá. Vou fazê os minino mais bunito do mundo, Hirda haverá de ser uma mãe boa. Tumara qui quandi ela parir num perca o corpão qui Deus deu a ela...
Na beira do riacho, tirou as roupas surradas e, despido, deitou-se no capim a beira rio. Pensando em Hilda. As estrelas começaram a surgir no céu e ele acariciando o corpo, sensualmente, adormeceu sem tomar banho, misturado com a natureza, ser de capim e noite...
Despertou ao amanhecer e, ensolarado como o dia, tomou um banho. Em seguida, foi para a casinha. Untou os cabelos com brilhantina, impregnou-se de perfume barato, vestiu a melhor roupa, montando na mulinha. Contente, foi para a casa da eleita aonde chegou, já no meio da manhã. Apeou, deu dois dedos de prosa com o futuro sogro no alpendre, quando chegou a eleita, num vestido de chita, sandálias baratas, exalando um perfume tipo alfazema. Abençoada pelos pais, a moça montou na garupa do animal, atracando-se ao homem pelas costas, com medo de cair. Pudica, corada de vergonha, olhos baixos, partiu para o futuro. Atrás de si, o seu dote: um asno magro e preguiçoso, carregado com algumas panelas, umas poucas roupas e retalhos convertidos em panos para a nova casa. Chico, tocando os animais, vez um ligeiro aceno, encostando dois dedos na aba do chapéu como se batesse uma continência, partindo para o horizonte, havia um longo caminho a ser percorrido. Ela, fêmea buscando proteção, agarrada a seu homem e ele, o peito inflado de importância. Viajaram por cerca de duas horas, silenciosamente.
No meio do caminho, pararam na venda de Elesbão para comprar mantimentos:
- Oxente! Qui novidade é essa, home... Vosmicê por aqui uma hora dessas. Apeia, home, vamos jogá convesa fora e bater umas pedra de dominó... – e falando para dentro de casa: - “Filô, ou, Filô, pega ai um banquim promode a moça se assentá...”
- Posso, não, Lesbão. Daqui a pouco noitece e tou meio longe de casa. Fica pra outro vez... Oia, mim dá cem grama de fumo, papé Parmera, dois froscu. Quilo e mei de jabá, meiquilo de café, um pacote de açuca, um quilo de feijão, dois litro de farinha, centicinquenta grama de toicim e uma garrafa da “mardita” – virou-se para a mulher: - “E tu, Hirda, qué um frasco de água de frô?” – a cabocla, envergonhada, esfregando uma mão na outra nervosamente, olhos postados no chão, balançou a cabeça, afirmativamente. – “Entoce, Lesbão, pega aí um frasco de água de frô pra minha muié!”
Compras feitas, retomaram o caminho. Nas cercanias da fazendola, orgulhoso e envaidecido. Ele fez questão de mostrar todo o terreno. Chegados, desarrumaram a bagagem e Chico resolveu tomar um banho. Pegou uma toalha e foi para o riacho. Tomou um banho caprichado, esfregando-se com energia, tirando o lodo para causar boa impressão, ao menos no primeiro dia. Na volta, encontrou o café fumegante, a mesa posta. Perguntou à eleita se queria tomar um banho. Ante a resposta afirmativa, apontou o caminho do riacho e serviu-se de café, indo acocora-se no alpendre. Chapéu meio levantado, coçando o queixo com a mão desocupada, o matuto pensava na nudez da cabocla. Tomando uma resolução, levantou-se, colocou a xícara sobre a mesa e, furtivo, escondendo-se atrás da vegetação, foi aproximando-se do riacho. Ansioso, trêmulo de emoção procurou um melhor ângulo de visão: lá estava ela, de costas para ele, soberba e nua, linda como a Iara, perfeita como uma deusa pagã. Sem resistir ao desejo, arrancou as roupas e, já despido, aproximou-se silencioso como uma serpente. O quase imperceptível rumor de passos na água fez com que ela se voltasse e caísse nos braços do macho que sufocou o grito de surpresa da virgem com a boca viril. Um beijo quente, mistura de fumo de corda e hálito puro, tomou o ambiente. Os dois, foram lentamente e com muita sofreguidão, deitando-se no capim da beira rio. Coxa com coxa, peito com peito, sexo com sexo, confundiam-se nas preliminares do ato carnal. Depois, um filete da virgindade da cabocla escorreu para o riacho e foi engrossar suas águas...
II
Trabalhou, com afinco, de sol a sol. A terra passou a produzir e ele vendendo, aos sábados, na feira livre, para prover o sustento da pequena família e guardar um pouco para o futuro. A mulher, crescendo a barriga, sentava-se, toda tarde, linha e agulha em punho, para costurar o enxoval do futuro filho e fazia milagres para folgas as roupas, cada dia mais apertadas. Chico chegava, sorria, ia ao riacho banhar-se e, invariavelmente, punha a mão calosa sobre o ventre da mulher:
- Vige, tu viu, mulê? Oia a força qui este danadim tem! Este bruto aí ai de ispiciá de bom na inxada.
- O qui vale pra mim, home, é qui sei qui ele há de ser iguá a tu. Basta isso promode eu sê filiz.
Os olhos dos dois, varando a imensidão, passavam a olhar as estrelas, como se ali pudesse ver o rosto do futuro filho.
Tudo estava pronto. Dava gosto ver o pequeno enxoval: uma cobertinha, alguns panos de berço, uns camisolos de segunda mão. O berço havia sido presente de Elesbão que seria o padrinho, compadre do peito: -“Berço é qui num há de fartá!” – dizia Elesbão sempre que Chico aparecia para dois dedos de prosa e uma cachacinha no caminho de volta da feira livre onde vendia as verduras que produzia.
Chico levantou-se muito cedo para ir negociar, requentou o café, colocou os caçuás repletos de hortaliças na mulinha e, sem fazer zoada, partiu. Um dor lancinante, como uma pontada, acordou Hilda. Assustada, constatou ser a cria que dava sinais para nascer. Levantou-se com dificuldade, chamando o companheiro, mas só ouvir como resposta o serestar dos grilos. Impaciente, começou a andar de um lado para o outro, as dores aumentando, sentindo que algo comprimia sua genitália. Lembrou-se, então, que o marido estava trabalhando e ela teria de resolver seu problema sozinha... Colocou uma panela com água no fogão, despiu-se e resolveu aguardar com resignação. Unidas, mulher e noite iriam parir: Hilda, seu filho amado e a noite, um novo dia...
No catre, agiu rápida. Já ajudara a mãe, parteira de mão cheia. Sentia, encharcada de suor, dores imensa, o menino com pressa de nascer. Acocorada, fez força e viu primeiro a cabeça, depois o tronco e, finalmente, o corpinho preso a ela pelo cordão umbilical. Pegou a faca usada para todos os usos e cortou com ela o único vínculo que os ligava, entregando a criança indefesa ao mundo. Fazendo da fraqueza uma alavanca, levantou-se, deu uma palmada na região glútea e a cria chorou forte, protestando, enchendo os pulmões de ar. Em seguida, limpou-o com carinho, enrolou uma faixa de pano em torno do umbigo, agasalhou o recém-nascido e, mesmo esvaindo-se em sangue, acomodou-se na cama, protegendo seu rebento.
Ao fim de um dia longo e quente, Chico voltou da feira, trazendo o embornal repleto de pequenos mimos: brincos de bijuteria, um chocalho, um bichinho de borracha e até uma paca moqueada para comerem no domingo. Descarregava o animal, quando ouviu o choro fraco. O grito, sem sair de sua boca, explodiu dentro de si, repleto de surpresa e alegria incontida: “-Meu fio, meu fio nasceu!”.Correu para a casa e foi encontrar, num leito de paz, mãe e filho, uma figura só. Ajoelhando-se do lado da cama, as lágrimas corriam fartas dando um banho de felicidade em Hilda. Uníssonos, os três chorar. Choraram o choro da inocência, o choro da felicidade, o choro do amor...
III
Quinze dias já haviam passado e ela com hemorragia. De tão fraca, mal podia amamentar a criança. Chico, aflito, abandonara o cultivo, não ia mais à cidade e prostava no mei do terreiro, acocorado, caboclo perdendo a esperança. Já mandara um recado para a sogra: que viesse, urgente, Hilda precisando de cuidados. Fixou os olhos no horizonte e enxergou, ao longe, duas pessoas que caminhavam apressadas. Eram elas! A sogra e a cunhada que chegavam para cuidar da doente.
A velha mal cumprimentou o genro, foi entrando e já cuidando de tudo. O caboclo ficou do lado de fora, a própria imagem da aflição.
- Ou, seu Chico, mi faça o favor de pegá ali no mato umas folha qui eu vou banhá Hirda pra fazer um descarrego e afastar o mal olhado. Oia, traz lá uma erva cidreira prela tomá um chá.
Ele saiu, lépido, em busca das folhas salvadoras e catou vassourinha, mastruz, fedegoso, o que foi encontrando, sem saber ao certo o que a sogra queria. Encheu os braços de ervas e foi depositá-las ao lado do fogão, voltando para o lado de fora, ali ficando nervoso e silente.
Hilda parecia que aguardava a chegada das parentas para entrar em agonia. Percebendo que a mãe tinha certa animosidade contra seu homem, doente, debilmente, disse:
-Mãe, eu to é ruim! Num queira má a Chico, não. Oia, ele é um home bão, Magina qui inquanti a sinhora num vinha, ele num arredou pé de dijunto deu. Mãe, oia, mãe, num separa Chico de Bastião de Chico, não. Ele cria ele... Chama Chico aí, mãe...
- Fala, não, minha fia. E chamo mas tu diviria de tê me chamado pra fazer teu parto. Eu achava qui inda ia demorá, já tava certo que eu vinha na outra semana. Onde já viu, muié? Pari que nem bicho, sozinha e no meio do mato...
Chamado, o caboclo achegou-se:
- Tô aqui, meu passarim. Fica assim, nervosa, não. Pensa no nosso fio.
Ela sentindo a vida pendurada nos caibos da casa, fazendo força para sair de si, segurou na mão forte do seu companheiro bom e rude:
- Chico, eu sei qui vou te deixá. Promete qui tu vai cuidá de Bastião, promete? Num casa de novo, home, promode ninhuma mulé não venha m,altratá nosso fio...
- Pelo amor de Deus, fica carma, meu passarim... Tu vai vivê mutcho prá cuidá dele, com fé em meu padim Pade Ciço.
- Mãe, me dá meu fio, deixa eu beijá ele.
Os olhos turvos, os lábios trêmulos, aninhou a criança no peito, amamentando-a. O peito subia e descia devido à dificuldade de respiração. Olhou para seu homem e pediu um beijo. Um beijo como o primeiro que acontecera na beira rio. Colando os lábios nos do seu companheiro, a cabocla sentiu a existência lhe fugindo, indo para a boca que cheirava a fumo de corda...
IV
- Pai, mãe era bunita?
- Oxente, meu fio, qui pergunta mais besta! Tua mãe era a cabrocha mais linda dessa terra. Oia, Deus fez ela e jogou a forma fora. Vem cá, Bastião, vamos ali dibaixo do pé de jaca pra nois fazer uma prece pra ela. É lá qui ela tá dormino o sono dos justo... – e diante do espanto do menino: - É, meu fio, dormino mermo... as pessoa boa num morre naum fica dormino um sono qui num desperta mais...
Ao pé da sepultura, inquirido pelo filho, o velho homem contou como ele nascera, a agonia da mãe, tudo que ocorrera. As lágrimas dos dois como que penetravam na terra à procura o rosto amado para um beijo de agradecimento.
Sebastião nunca mais se esqueceu do que o pai lhe contou. Um dia, o velho Chico morreu e ele o enterrou junto à jaqueira, na mesma cova rasa onde repousavam os restos mortais da mãe, a cabocla Hilda. Solidário, passou a cuidar da terra, plantando e, aos sábados, indo vender na feira livre. Até que um dia aconteceu em sua vida uma cabocla cheirosa a óleo de coco e lá se foi ele para o riacho tomar um banho caprichado. Depois, os cabelos repletos de brilhantina, vestiu sua melhor roupa e, montado em sua mulinha, trotou para o horizonte, indo buscar a eleita.
Afiná – pensava, enquanto pitava o cigarrinho de fumo de corda – no sertão, home qui trabaia tem qui tê mulé pra cuidá de si...

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