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EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY
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Conto
 
O RIO MOLDÁVIA ou as águas do Rio Jacuipe
Por: EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY

Era uma terrível batalha, o tentar superar o trauma, o abalo sofrido. No princípio, se entregou ao álcool e, por vezes, faltava ao trabalho ou chegava atrasado, apresentando as mesmas desculpas esfarrapadas. Na verdade, percera o interesse pelas coisas... Seguindo a terapia recomendada por Dr. Remilson, poderia superar a crise existencial muito forte que atravessava, mas se considerava injustiçado, punido injustamente: o Senhor de todas as coisas houvera sido muito cruel com ele... Num domingo luminoso, em pleno convescote familiar, na praia de Bom Jesus dos Pobres, o filho morrera. O homem, deitado no chão da sala completamente escura, ouvia “O Rio Moldávia”, de Smetana, as lembranças chegando fortes empurradas pelas águas do rio fictício, espumando de recordações. Pareciam estar afogando suas mágoas. Sentiq-se muito bem assim: deitava no escuro, completamente nu, liberto de qualquer amarra, escutava música clássica, sem procurar pensar em nada. Mas, era muito difícil ficar com a mente limpa, entrelaçada nas notas musicais: A lembrança do filho, Viriato Júnior. Viriatinho, coitado, ficava ali, forte, confundindo seus pensamentos...
Parece ter acontecido há alguns instantes atrás: Na praia, o menino deixou pá e baldinho com os quais fazia o castelo e pediu para ir até o mar, lavar o corpo cheio de grãos de areia, dizendo: “Pai, vou me molhar. Volto agorinha mesmo!...”. Sentado na cadeira de praia, folheando o jornal fez um aceno qualquer concedendo, já mergulhado na leitura. Saiu da sua absorção ao ouvir gritos desesperados da esposa chorando muito, procurando o Viriatinho que sumira. Atordoado, o homem levantou-se de um salto, o bronzeamento dando lugar a uma palidez terrível, o corpo recebendo uma descarga gelada, seguida de arrepios. A mulher não dizia coisa com coisa, babando histérica e ele a sacudia, sem resultado, perguntando o que acontecera. Empurrou-a, ela caiu sentada na areia. Ele saiu andando pela praia, procurando pela criança. Adiante, havia uma aglomeração. Ao se aproximar, viu, por entre as pernas, no meio de um círculo de pessoas, o salva-vidas depositando na praia o corpo sem vida do seu filho... Desmaiou.
Nunca perdoou a Helena. Descarregou toda a culpa na pobre mulher pois, na sua ótica, ela, em vez de cuidar do filho, na hora da tragédia estava trocando experiências culinárias com uma amiga, as duas sentadas à beira mar. Ele dizia sempre que não tivera culpa e que, além do mais, o papel de mãe é cuidar de filho. Ele, apenas, estava lendo o jornal na praia, o que era uma prática salutar e tarefa de homem! Jamais admitiu a própria culpa procurando descartar a lembrança viva da criança ao lado dele e não da mãe... . Só havia uma explicação para a tragédia: a mulher era culpada, quase assassina do filho, a infeliz! Depois da fatalidade, começou a beber e sendo bom executivo, a empresa arranjou-lhe um psiquiatra de nome. Mesmo fazendo terapia, não dirigia a palavra à mulher por quem nutria, desde aquele domingo, um ódio terrível, só a suportando porque havia a Nádia, a filha portadora de Sindrome de Down, coitadinha. Nos horários de refeições era possível ouvir o zunido de uma mosca. Não fossem os sons da Nádia e pareceria que naquela casa não morava ninguém.
O homem chegava, tirava a gravata, apanhava o copo, enchia de bebida, abria o jornal e se trancava no seu mundo. Ela, depois de colocar a filha para dormir, deitava-se na cama fria, chorava a saudade do filho e a viuvez de marido vivo. Mais tarde, ele, deliberadamente, arrastava a cadeira como a fazer um sinal de que queria comer e acomodava-se junto à mesa de refeições. Ela corria, solícita, para a cozinha, colocava o seu jantar e sentava-se defronte à televisão. Quando o homem levantava, arrastava a cadeira indicando que terminara de comer. Helena, atenta, desligava a TV, tirava os pratos da mesa e sozinha fazia a sua refeição, para depois lavar a louça . Demonstrando querer ficar só, Viriato fechava a porta da sala. Ligava a vitrola e como um ritual cumpria as determinações médicas. Não usava antidepressivos ou qualquer tipo de medicamento porque o doutor Remilson, psiquiatra de renome, adepto dos métodos naturais para a cura, lhe dissera: “Tire a roupa, ligue a vitrola, coloque um long-play de música clássica, apague a luz, deite no chão e não pense em mais nada, a não ser na música. Deixe as notas musicais lhe envolverem, procure penetrar na melodia!... Garanto que, com o passar dos dias, suas lembranças serão mais suaves. Decorrido algum tempo, você vai perdoar sua mulher e - garanto! - seu filho vai ser uma lembrança gostosa, como uma coisa maravilhosa que passou em sua vida!...”.
Ouviu toda a musica, levantou-se sereno como se as águas do Rio Moldávia houvessem varrido todas as mágoas. Lembrou-se das palavras do doutor, sorriu baixinho e tornou a vestir a roupa. Foi ao quarto, pegou a gravata e na cozinha, chegando por trás e de surpresa, enforcou a mulher. Ela parecia já esperar por aquilo, não resistiu. Apenas debateu-se um pouco. Por fim, quietou os olhos esbugalhados com um sorriso nos lábios e o estômago liberado suja o chão com excrementos. Sentindo que pagara uma dívida com o filho, o homem largou o corpo inerte e sem vida que, como um marionete, desabou com barulho, a língua de fora. Com calma, o homem recolocou a gravata no pescoço, ajeitou-se com esmero como se fosse sair para uma festa e foi para a garagem. Dirigiu o carro, resoluto. Na ponte da saída da cidade, acelerou rebentando uma parte da balaustrada . O carro deu um vôo em direção às águas escuras do Rio Jacuipe. Bateu com estrondo na superfície d´água e adernou para frente, levado pelo peso do motor. Viriato começou a afundar, segurando o volante como uma tábua de salvação. Parecia ouvir notas musicais como que retidas na superfície, a correnteza forte do rio arrastando sua história de vida. Olhos fechados, sentiu uma ânsia terrível e ficou confundindo imagens; num “flash-back”, viu o filho retornando ao baldinho e a pá, dizendo: “Pronto, painho, já passei água no corpo!”
O carro mergulhou nas águas escuras e caudalosas e quando os pneus tocaram o leito lamacento, tentou abrir a porta, mas era tarde! Como num quadro negro foi passada uma esponja no que ocorreu depois da ida do filho ao mar. Agora, iluminado pelos faróis de luzes vacilantes, podia vê-lo, quase sentí-lo na frente do carro, a poucos metros. Conseguiu com esforço, abrir o vidro da janela para ir ao encontro de Viriatinho, mas era impossível! Como o Rio Moldávia, o Jacuipe numa melodia de águas, penetrou no interior do veículo. Sem saber nadar, prendeu a respiração até que lhe doeu o peito. Vagarosamente, os movimentos do corpo foram transformando-se em esparmos e entre estertores, pouco a pouco, parou de debater-se, os olhos arregalados de medo e agonia.
Tudo quietou, o rio voltou a ter águas serenas. Era a paz que buscava...

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