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EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY
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FÉRIAS ou a felicidade é constituida de pequenas coisas...
Por: EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY

Vidão! Que outra palavra para definir a sensação de alegria que sentia? Era como se estivesse no Caribe ou mesmo no Havaí. Afinal, fazia turismo na mais tropical, na mais bela das capitais brasileiras, curtindo tudo – o que era melhor! – com pouco dinheiro. Agora entendia o que sua velha mãe vivia a repetir: “a felicidade é constituída de pequeninas coisas”!
Deixou o copo de cerveja sobre a mesa, deu uma beliscada no tira-gosto de pititinga e, mastigando o pequeno peixe, aproximou-se da piscina de água azul, repleta de gente. Mergulhou o corpanzil, esparramando água para todos os lados. Ficou submerso por alguns instantes, sentindo-se liberto, um ser de água e carne. Depois, quando começou a faltar fôlego, voltou à tona em câmara lenta. Foi subindo, colocando fora d´água primeiro os dedos, depois os braços, a cabeça, sem pressa, enquadrando tudo com os olhos. Alcançou a borda, subiu com a vagareza que os anos começavam a lhe legar. Sentou-se na cadeira e ficou, exposto ao sol, olhos fechados. Em volta de si, a família, todos lambuzados de filtro solar.
- Meu bem, não quer passar o bronzeador?
- Nada, mulher... Você não sabe que é proibido usar estes produtos em piscina? A borda fica toda engordurada e acaba com os filtros...
- Tá bom. Então, passa o protetor solar. Ele não tem nada de óleo. Pode usar, tranquilo... Vem.
Olhou em volta e percebeu que outras pessoas faziam o mesmo em que pese os cartazes que diziam: “Proibido usar bronzeador ou filtro solar”. De má vontade, deixou que a companheira passasse o produto em suas costas, no peito e no rosto. Pudesse ter um espelho e, certamente, veria a cara de um pele vermelha pintado para a guerra... Livre do ritual familiar, colocou os óculos escuros, pediu mais uma cerveja e deitou-se numa espreguiçadeira, relaxando ao sol. Rememorou como programara aquelas férias. Funcionário do banco, sabia que em setembro seriam inaugurados os chalés de madeira. Por isso já em abril pediu reserva e foi economizando. Finalmente, chegou o dia e ele desde cedo passou a arrumar o carro, procurando ocupar todos os espaços possíveis, tamanha a quantidade de tralhas que a mulher separara. Colocava algo no bagageiro, e dava pressa... Colocava e dava pressa... A mulher, coitado esbaforida, tendo que cuidar dos detalhes da viagem e ainda que controlar os meninos, uns capetinhas... Finalmente, tudo ficou pronto e, apertados entre sacolas, apetrechos e eletrodomésticos, tomaram a estrada. Embora sem incidentes, a viagem foi demorada, com paradas inevitáveis: um queria fazer xixi, o outro estava com sede e o caçula vomitou, tendo que parar o carro para limpeza. Ele estava achando tudo normal, fizera uma promessa a si mesmo que nada o aborreceria.
Ao chegar ao destino, confirmada a reserva, foram encaminhados ao chalé. As crianças, doidas para desprender a energia contida durante a viagem, desembargaram e saíram saltitando. Ele tratou de descarregar tud, ajudado pela mulher. Cumprido o ritual de todo viajante familiar, o desarrumar de tralhas, tomou um banho, vestiu camiseta e bermuda. Fez uma rápida vistoria no chalé para quatro pessoas, com suíte ampla, sala/cozinha com todos os apetrechos para quatro pessoas, TV e sofá-cama. Depois, foi aboletar-se na rede da varanda, aproveitando a brisa, sorvendo em pequenos goles a sensação de tranquilidade, embora, sem nenhum controle, as crianças entrassem e saíssem como verdadeiros azougues, falando alto e rindo. Considerou o chalé a coisa mais gostosa do mundo. Tudo perfeito: geladeira, fogão, TV, ar condicionado, mesa com cadeiras e até a rede de armar. Supimpa! Podia ouvir, ao longe, acordes musicais e o tradicional “alô, som!”. Com certeza, era a banda ensaiando para a festa que ocorreria à noite. Mais tarde, depois que as crianças dormissem, iria descer a ladeirinha que separava os chalés da sede social do clube e iriam aproveitar o último réveillon do século XX. Mas tarde, a mulher serviu o jantar para a família. Ele ficou ali na rede, tomando o seu Hi-Fi (mistura de vodka, gelo, limão e refrigerante de laranja). Daí a pouco, as crianças cansadíssimas foram dormir. Com custo, insistentemente chamado pela esposa, Ferreira levantou-se da rede, sentindo o efeito do álcool, os olhos vermelhos como brasa. Tomou um banho, perfumou-se, vestiu-se todo de branco: calça, camisa meia, cueca, lenço, cinturão e tênis. Meio trôpego, apoiando-se nos ombros da mulher, desceu a ladeirinha.
Chegado ao ambiente alegre, a música começou a penetrar no seu cérebro e ele foi se soltando aos poucos, para daí a pouco dançar como um menino no meio dos jovens, requebrando-se desajeitadamente ao som de um pagode. Chamava a atenção de todos por, quase aos brados, está fazendo juras de amor à mulher. Era sempre assim quando bebia, ficava apaixonado por ela. A companheira, embora lisonjeada, dizia, envergonhada:
- Ferreirinha, meu filho, se contenha... O povo tá olhando!
- Que porra nenhuma, mulher! Esse povo aí tá é com inveja porque eu estou com a mulher mais bonita da festa! Vem cá, gostosa, vem... Chega prá perto.
Meia hora depois, sentindo que o companheiro estava para “entregar os pontos”, aproveitou a paixão repentina (nessas horas ele ficava dócil como um cordeirinho) e, piscando o olho, chamou o pretenso amante latino para dormir. Ele ficou sem saber se ficava na festa ou se ia para o chalé. Optou pela segunda opção, eivado de segundas intenções. Na suíte, enquanto a mulher trocava a roupa, o romântico-apaixonado, semidespido, deitou-se e quase instantaneamente caiu num sono profundo. No dia seguinte, meio de ressaca, acordou tarde, envergonhado por ter falhado com a mulher. Reuniu a família e foi gozar das delícias de um banho de piscina.
O sol já ia alto quando retornou dos pensamentos. Abriu os olhos e tornou a fechá-los, com preguiça, as vozes parecendo ao longe. Sorvia a cerveja que apanhava na mesa, sem ver e sem erras a direção. Percebeu que o pessoal do bar de piscina estava recolhendo mesas e cadeiras vazias e um garçom veio avisá-lo que iam fechar. Pagou a conta e, na saída, tomou uma sauna. Sentindo-se leve, em paz com o mundo, arrebanhou a todos com dificuldade: os meninos teimavam em deslizar no escorregador de água; o mais velho jogava bola num campinho; a mulher papeava com novas amigas, trocando receitas e ele reclamando, dizendo que já era tarde.
-E daí, Ferreirinha, nós tamos de férias, meu bem...
Aceitou a ponderação, não queria estragar férias tão boas com briguinhas e optou por esperar, paciente. No chalé comeu a comida caseira que lhe pareceu um manjar. Levantou-se, em pressa, acendeu um cigarro e, deu um arroto alto para ouvir da mulher, em tom de mofa - “ vai pru chiqueiro, porco!” – enquanto se jogava pesadamente na rede. A porta aberta, ficou dali assistindo TV. Nem percebeu quando, enquanto expelia gases impregnados de saciamento e paz, um sono gostoso penetrava em seu cérebro. Antes de adormecer ainda pensou:
- Tou feliz... Tou de férias!

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