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EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY
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Conto
 
UM DIA EM DUAS VIDAS
Por: EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY

Na Avenida do Canal, caíram de surpresa em cima da vítima. Estático, o homem sentiu o objeto pontiagudo encostado na barriga, suando frio. Os assaltantes eram dois pivetes. Parecia mentira, duas crianças como aquelas roubando! O menorzinho, aparentando dez, doze anos, afastou-se um pouco, portando uma pedra de tamanho razoável e dividiu a atenção entre vigiá-lo e ver se não vinha alguém. O maior, já taludo, imberbe, com o rosto cheio de espinhas, era quem o ameaçava, portando a faca e exigindo o esvaziamento dos bolsos. O transeunte analisou os prós e os contras de uma reação e preferiu aceitar o assalto passivamente. Afinal, se escapulisse da faca, poderia levar uma pedrada. Sentindo-se impotente, foi pilhado:
- Deita no chão e num levanta a cara ou a gente lhe fura!
Ouviu pés afastando-se em correria e quando o barulho sumiu, agradeceu a Deus não ter acontecido nada. Mesmo assim, ao ver a antiga Olimpio Vital toda iluminada, em vez de subir para o bairro da Rua Nova onde morava, resolveu prestar queixa no Modulo Policial da Prefeitura. Era primo do sargento que, sabia, estava de plantão naquele noite.
Os pivetes, por sua vez, tomaram direção oposta, subiram a ladeira, diminuindo o passo na porta do Clube Ali-Babá onde acontecia uma festa, era um clube bem popular e, junto a um carrinho onde se vendia cachorros quentes, resolveram lanchar. Adiante, tomaram à esquerda, parando na porta do antigo Palácio do Menor, prédio abandonado. Sem parentes, fugidos do reformatório, era ali o seu “quartel-general”, o casarão usado para refúgio entre os assaltos. No prédio em ruínas, escondiam furtos, cheiravam cola e fumavam crack. Observando não passar viva alma na rua, entraram no sobrado abandonado e, na escuridão, demonstrando conhecimento detalhado do local, caminharam com firmeza até um compartimento nos fundos do imóvel. Lá, o mais velho levantou alguns pedaços de madeira amontoados a um canto. Dalí apanhou a lata de cola de sapateiro. Sentaram-se, as costas contra a parede e abriram a lata. Começaram a cheirar o conteúdo com voracidade, passando de um para outro. Em meio aos devaneios que a cola provocava, perderam a consciência e a lata ficou esquecida a um canto...
Badunga, o mais velho, acordou no meio da madrugada, com fome. Apalpou o bolso, sentindo na ponta dos dedos as notas conseguidas no último assalto. Sacudiu Minguinho, o pequeno comparsa, e este resmungou alguma coisa. Insistiu:
- Minguinho, Minguinho... vamo rangá!
- Vou, não, cara! Tô alombrado. A cabeça tá doendo, bicho!
- Pó, tu é frouxo, moleque!
Badunga levantou-se e deixou o parceiro com o corpo largado no chão, entregue ao seu abandono de drogado. Chegou do lado de fora do prédio, passou a mão nos molambos e nos cabelos, a cabeça ainda entorpecida pela droga. Ajeitou a faca na cintura e saiu andando. A noite estava muito fria, a friagem fazendo com que recuperasse a lucidez. Passou por trás da Igreja Matriz, na esperança de encontrar alguma birosca aberta no Feiraguai, mas não viu viva alma. De calças curtas, as pernas pareciam dois palitos de picolé. Sentia dormência na sola dos pés desprotegidos, enfiados em tênis surrado e furado de tanto uso, roubado há um bom tempo, de um “filhinho de papai”. Tentou entrar na lanchonete do posto de gasolina, mas o segurança barrou seus passos:
- Aonde vai, pivete? Aqui não... Cai fora, vai...
- Qualé, meu! Só tô querendo uns jornal velho e uma caixa de papelão pra colocá no meu pisante. Oia aqui, oia! Tá furado e tá fazendo um frio retado!
- Fica ai fora que eu vou providenciar...
O homem entrou na lanchonete e, daí a pouco, voltou com um pedaço de papelão e um jornal velho. O menino caminhou até o canto onde estava o calibrador de pneus e sentou-se. Tirou o par de calçados, bateu no chão e, recortando o papelão, fez palmilhas. Depois, enrolou os pés nos jornais e calçou o tênis. Acenando para o segurança, seguiu caminho, procurando os esconsos das edificações por onde passava com medo da “cana”. Se a Civil passasse àquela hora e o visse, iria parar no Juizado. De lá, voltaria de novo para a Escola de Menores Melo Matos. Resolveu encurtar caminho, indo pela Conselheiro Franco, rua de comércio menos vigiada pela polícia. Na esquina do Beco da Energia, encontrou outros menores fumando “crack”. Sendo seus conhecidos, misturou-se com os outros e lhe foi passado o cachimbo com a droga. Optou por dar, apenas, uma baforada e seguir adiante sentindo muita fome. Afora o cachorro quente antes de dormir, não se alimentava desde a manhã, quando comeu um pão e tomou uma média no boteco do Joaquim. Caminhando, alcançou a Praça da Bandeira, depois a esquina da Senhor dos Passos com a Getúlio Vargas. Passou, desconfiado, pelo modulo policial e estranhou não ter visto a viatura. Lá dentro, só um policia via televisão, de costas. Naturalmente, o carro deveria ter saído para alguma batida... Finalmente, chegou à Praça de Alimentação onde encontrou alguns quiosques abertos e pessoas lanchando. Ao lado, embora frio e madrugada, alguns rapazes, corajosamente, praticavam na pista de “skate”. Pediu um lanche e um refresco. O dono da lanchonete exigiu pagamento adiantado e ele atendeu, achando aquilo normal. Com um pastel em uma mão e o copo descartável com refresco na outra, sentou ao lado da pista para ficar apreciando os praticantes. Um rapazote saiu da rampa em velocidade e perdeu o equilíbrio, caindo em cima dele. O lanche esbagaçou-se ao cair no chão e o refresco derramou, quebrando-se, com ruído, o copo descartável. Mal se recuperou do susto, levantou ligeiro, irado, e puxou a faca:
- Tá louco, cara! Que zorra é essa, mermão?
- Desculpa, foi sem querer.
- Sem querer um katis! Vai pagá a merda do lanche! Senão, vai tê bucho furado! Tô falando, cara! Vambora... Compra logo ali outro...
Antes de qualquer reação do ameaçado, um outro moleque chegou correndo. Conhecendo Badunga, parou nervoso e agitado:
- Cara, a “cana” tá grossa! Assaltaram um na Avenida do Canal e parece qui o home qui robaram é parente do sajento! Os samango tão rodando a cidade, com o home no carro, atrás de dois pivete. Vai sobrá pra um! Vamo si picá!
O informante continuou a correr e Badunga chegou à beira do passeio, esquecido do prejuízo sofrido. Confirmando a informação, uma viatura policial dobrava a esquina da Prefeitura, dando uma rápida parada no modulo para depois seguir em frente, aproximando-se. De imediato, Badunga fugiu pela rua que leva ao SAC Municipal. Para evitar o carro que se aproximava, dobrou à direita, na direção do Beco de Miguel das Ervas. Embora com a mente maio embotada pelo “crack”, lembrou ser perigoso sair na J.J.Seabra, em frente ao Banco do Brasil, porque a viatura poderia surpreendê-lo. Estancou a carreira e entrou na ruela que fica nos fundos da loja de bicicletas, na entrada do beco. Coração disparado, encostou - se numa porta, escondendo - se no vão de entrada. Ficou ali durante cerca de dez minutos, ouvindo a própria taquicardia, o ruído acelerado sobrepujando os ruídos da noite. Quando sentiu passar o perigo, voltou e entrou na Rua dos Contabilistas, saindo na Avenida Sampaio, sempre atento. Tomando a esquerda, caminhou em direção à Rodoviária. Quando chegou à subida da rampa, perto do desembarque, onde ficavam os taxistas, viu a mulher vendendo mingau. Aproximou-se, tomou a beberagem quente acompanhada de um pedaço de bolo de puba. Alimentado, sentiu moleza. Ficou por ali, perambulando, escutando as estórias dos taxistas. Com muito sono, a escada para a rua que separava a rodoviária do supermercado. Dentro do pátio, lado direito, meteu-se embaixo do vão da escada, protegido pela sombra de algumas árvores. Ali estavam dormindo, espremidos uns contra os outros, por causa da baixa temperatura, alguns meninos de rua. Sem cerimônia, alojou-se como pode e daí a pouco dormia...
De manhã, bem cedo, acordou com o barulho de gente subindo e descendo a escada de metal. Impossível continuar dormindo... Levantou-se bocejando e espreguiçando-se, espreguiçando-se para deixar o esconderijo. No bar da esquina, pediu uma média de café com leite, comeu um pão com margarina. Desperto de vez, tomou o caminho de volta para o sobrado abandonado, descendo a Avenida Presidente Dutra. Sem pressa, parou na porta do Pronto-Socorro e vê, sendo descarregada de uma ambulância, uma mulher gritando de dor, o rosto ensanguentado. Pergunta o que ocorreu, não lhe dão atenção e ele, arteiro, fica ali analisando a possibilidade de um descuido de alguém. Pensa: “-Se um otário desse bobiá vou leva mais uma grana pra casa!”. Mas , não teve chance.Quando colocaram a mulher de volta na ambulância por falta de médico especialista e o veículo partiu, de sirene ligada, lembrou estar sendo caçado. Resolveu ir embora e o fez, apertando o passo. Quando estava perto do esconderijo, na altura da Igreja Matriz, olhou para trás e vislumbrou luzes girando. A viatura policial! Correndo em disparada, atravessou a Praça Padre Ovídio na diagonal, alcançando o Palácio do Menor, a viatura cada vez mais perto. Esbaforido, atrás do muro atira-se no chão, justo no momento da passagem da viatura... Fica ali algum tempo, ofegante. No silêncio do início do dia, ouve o barulho do carro se distanciando. Levanta com um leve e maroto sorriso nos lábios. Agora, está calmo: amanhecia, havia terminado o plantão dos policiais e, naturalmente, como o dinheiro roubado do otário fora pouco, a polícia iria deixar para lá o episódio... Lá dentro, Minguinho ainda dormia. Badunga aproxima-se do parceiro adormecido e dá um chute no seu traseiro, dizendo:
- Levanta, seu merdinha! Tô de volta!
- Pô, Badunga! Tou cansado, vêio... – reclama a criança sonolenta.
- Vambora, cara! Trabaiá, rapaz!... – insiste o outro, tornando a chutá-lo.
Vencido pela insistência do amigo, Minguinho levanta-se e, de má vontade, acompanha – o. Os meninos apanham os bastões enrolados de “ximbica” colorida e vão para a sinaleira.
Quando o sinal fecha, no meio da rua, Minguinho exibe o riso mais simpático, revelando-se magistral na arte de fazer piruetas com os bastões. Cumprindo sua parte, ator formado no teatro da vida, Badunga faz cara de abandono e falta de proteção. Humildemente, estende a mão em súplica para recolher uns trocados de penalizados motoristas...

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