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Conto
 
QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE... ou confiança gera confiança
Por: EDUARDO JOSÉ DE MIRANDA KRUSCHEWSKY

Emílio era o que se pode chamar de um bafejado pela sorte. Menino de família humilde, encaminhou-se na vida por um acaso... Um tio seu perdeu o emprego e, já maduro, viu-se em dificuldade para colocar-se no mercado de trabalho. O parente era solteiro morando com a irmã, viúva e com um único filho, Emílio. Percebendo que o dinheirinho da indenização poderia acabar se não pensasse numa possibilidade, teve a ideia de colocar uma pequena banca de “sulanca” (roupas geralmente de helanca de terceira, muito apreciadas pela classe pobre por imitarem as grandes marcas). Pegou o sobrinho para auxiliá-lo e ia vivendo, promovendo o sustento dos três com o produto das vendas. Mas, o tio adoeceu e, vítima de um câncer, veio falecer, ficando a banca para os dois parentes... Assim, Emílio foi tocando o negócio e, mercê de sua força de vontade, progrediu.
Aos 22 anos, tendo falecido a mãe, ele, espertamente, vendeu o barraco onde moravam, mudando-se para uma cidade maior onde pretendia expandir os negócios. Instalou-se na Pensão de uma senhora chamada Marlene, estabelecimento onde, em sua maioria, os hóspedes eram ambulantes. Alí, fez novas amizades e ouvindo as conversas dos mais experientes, foi imitando-os. Com o produto da venda do imóvel, comprou um fusca usado, uma aparelhagem de som constituída de uma boca de alto-falante, um pequeno gravador e microfone. Passou a negociar nos bairros mais populosos. Ali, montava o toldo, espalhava a mercadoria e com o auto-falante no teto do fusca, fazia suas vendas. Às sextas-feiras, ia à feira de uma cidadezinha próxima; aos sábados, mercava na feira do centro de abastecimento e aos domingos, novamente em nova cidade. Esperto, bolou uma maneira fácil de ganhar o dinheiro da gasolina e das refeições: nas cidades menores, ia engabelando os tabaréus. Ao encerrar as vendas, recolhia as mercadorias e gritava ao microfone:
- Chega, chega, minha gente, estamos falando agora diretamente com São Paulo onde estão nos ouvindo os parentes de vocês... É baratinho demais! Fale com seu parente pagando R$ 5,00. Uma penchincha... Alô, alô, São Paulo, aqui emissora do Emílio querendo notícias daí. Alô, câmbio...
Disfarçadamente, ligava o aparelho onde estava uma fita que mandara gravar, especialmente, por um locutor de rádio desempregado, e uma voz, distante, acompanhada de chiados e estáticas, se fazia ouvir:
- Alô, emissora do Emílio, aqui São Paulo diretamente para vocês. Manda o povo entrar na fila que os parentes estão todos aqui, querendo ouvir as notícias...
- Se achegue, meu senhor, se achegue, minha senhora...- bradava o espertalhão e o povo do lugarejo assombrado com os “ avanços da tecnologia” formava fila e dava até tumulto. E, aí, eram passadas as mensagens:
- Tonho, ou, Tonho, aqui é tua mãe. Oia, aqui todo mundo tá bom. Teu pai te abençoa e nós tamos esperando vosmicê pru São João...
Outro:
- Belizaro, manda notiça, home de Deus! Eu tou que num me aguento de sordade. Os minino tão na escola, a vaca da cara preta deu cria e tua tia Santa bateu as bota. Um beijo, fio...
Depois de atender toda a imensa fila, com a bolsa cheia de dinheiro dos incautos, ia embora. Havia dias em que ganhava mais com a malandragem que com as vendas...
Com o aumento dos negócios, enxergou a possibilidade não mais ir até a capital, Salvador, para fazer compras de um atacadista e passou a viajar de ônibus para São Paulo, por indicação de outro camelô, onde adquiria a mercadoria bem mais em conta. Era um sacrifício enorme, tivera que sacrificar três dias de vendas e, por conta disso, só trabalhava agora a partir da sexta feira até domingo na feira grande e nas de bairro de sua cidade. De quinze em quinze dias, pegava o ônibus “cadeira dura” e ia às compras na capital paulista. Depois de um dia e uma noite de viagem, procurava os fornecedores, despachava a mercadoria e embarcava de volta, sem descanso.
Na pensão, fez amizade com um hóspede que ali apareceu. Num bate papo, disse-lhe o novo amigo:
- Olha eu vendo uma muambazinha... Vou deixar com você umas calças Lee, uns perfumes, cigarros importados, toda a mercadoria de primeira. Vou lhe passar por um precinho especial e você só precisa me pagar quando eu voltar, no próximo mês.
Encantado com a demonstração de confiabilidade, colocou a mercadoria á venda. A notícia de que ele estava vendendo coisa importada de primeira correu pela cidade e quase não tinha tempo de cuidar do seu negócio de confecções devido ao entra e sai do seu quarto. Os filhinhos de papai e as patricinhas tornaram-se seus melhores clientes e faziam encomendas e encomendas. Em menos de quinze dias, o estoque zerou. Pensou em fazer novo pedido, mas não tinha endereço, telefone ou qualquer referência do muambeiro. Na segunda viagem, pagou a primeira e dobrou o pedido. Vendeu rapidamente, também. Aquilo era uma mina de ouro, o povo ávido por novidades. Considerou que, dentro em pouco, poderia abandonar a banca de confecções.
Dois dias antes da data prevista da chegada do fornecedor, eis que o João “ Muamba” (este o nome do contrabandista) aparece na pensão e, excitado e aparentemente chateado, comentou:
- Emílio, tou perdendo uma oportunidade de ouro. O meu fornecedor tá com a corda no pescoço e me propôs comprar um grande lote de muamba, mas só pode ser à vista. E, rapaz, ele me pegou com as calças na mão, apliquei minha grana num outro negócio...
- Oxente, e quando é que ele quer pela mercadoria?
Dito a valor, Emilio afirmou que compraria tudo, bastando apenas ter uns dias para providenciar o dinheiro. Que João acertasse tudo e voltasse no dia aprazado para irem juntos... Consciente de que aquela seria a grande jogada, estava rico de vez, o camelô vendeu o fusca, a aparelhagem e a mercadoria que tinha por um preço mais em conta e encheu uma sacola com o dinheiro. No dia acertado, alugou um caminhão de frete e, ao lado de João, foi para Salvador. Lá, resolveram esperar à beira mar, para matar o tempo, já que a transação se daria á noite, para não despertar curiosidades.
Ao anoitecer, orientados pelo muambeiro, subiram um morro de onde se via uma rua movimentada, o motor do carro foi desligado, as luzes apagadas, e o novo amigo apontou:
- Tá vendo ali? É onde fica o depósito. Mas, olha, Emílio, o homem é desconfiado que só!...Faz o seguinte: Me dê aí a sacola do dinheiro, eu vou, separo a mercadoria, pago, preparo o terreno pra vocês irem e, depois, faço sinal da porta. Vocês descem o morro e pegam tudo...
- Tá legal, amigão. Olha, vê se não demora muito que nós vamos voltar ainda hoje para casa – e, confiante no amigo que confiara nele e lhe vendera fiado, entregou o dinheiro.
- Deixa comigo. É vapt-vupt! – disse o malandro já descendo a ladeira íngreme.
O comprador olhou o relógio, eram 19 horas, e ficou de papo com o chofer. Daí a pouco, estava impaciente: Viu dar 20, 21, 2 horas e nada de João. Preocupado, autorizou ao motorista que descesse com o carro, assim mesmo, sem esperar o retorno do amigo. Pararam o caminhão defronte ao imóvel e ele, pensando na recomendação de que “o homem é desconfiado que só!”, bateu à porta, timidamente.
- Quem é? Entra, a porta tá aberta...
Quando penetrou no recinto, ficou gélido. A casa era um grande vão contendo, apenas, um velho fogão, uma mesa, duas cadeiras e, ao fundo, um colchão imundo onde estava um homem, iluminado, apenas, pela luz que vinha da rua. Este, um cego, assustou-se com o ruído dos passos de Emílio que, apressado, se dirigiam á porta dos fundos. Com o coração em disparada, o “novo rico”, ao sair, deu de cara com uma rua movimentada. Sentou-se na calçada sentindo-se aniquilado, roubado, falido mesmo... Estava começando a chorar de desespero quando ouviu, ainda, o cego dizer:
- Que desgraça! Será que todo mundo hoje resolveu fazer minha casa de passagem?


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