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Crônica
 
O poder encantatório do diálogo
Por: Valdir Sodré

O PODER ENCANTATÓRIO DO DIÁLOGO
Valdir Sodré

Dedicada à Zélia
Mendonça Chamusca

Desde a Grécia Antiga, o diálogo se consolidou como a força motriz do encontro e da interação entre os seres humanos. Através do diálogo nos descobrimos e descobrimos os outros. Tanto as palavras como as falas desvendam e descortinam as subjetividades de cada sujeito, que, assim, expõe-se numa posição em evidência, como se fosse um pássaro em pleno vôo na mira de um caçador. De fato ao dialogarmos nos expomos. Porém isso não significa ser algo ruim, mas sim necessário.
Angélica Sátiro e Ana Miriam Wuensch, no texto O diálogo como forma amorosa de comunicação, afirmam que

Platão acreditava que a linguagem fosse uma espécie de pharmakon, palavra grega que significa, ao mesmo tempo, remédio, veneno e cosmético. Seria medicamento na medida em que, pelo diálogo, desvelássemos nossa própria ignorância e aprendêssemos com os demais. Seria veneno se nos deixássemos seduzir por ela, sem indagar sobre a falsidade ou a veracidade do que nos foi dito. Seria cosmético se mascarássemos, dissimulássemos e / ou ocultássemos a verdade sob as palavras.

Conforme o pensamento de Paulo Freire, em seu livro clássico A pedagogia da autonomia, evidencia-se que

o sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na história.

Dialogar é o exercício da busca incansável da verdade, tendo em vista a consolidação de um mundo ao mesmo tempo dialógico, ecumênico, multicultural e plural. É pronunciar o mundo em permanente transformação, transformando-se. É arriscar-se na busca de experiência, maturidade, alteridade, harmonia, paz, fraternidade e amorosidade.

Afinal o diálogo não é uma forma de amar? O apóstolo Paulo, na Primeira carta aos Coríntios, nos versículos 12 e 13, profetiza que: “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor”.

Sátiro e Wuensch ainda ressaltam que

a palavra tem poder encantatório, reúne o sagrado e o profano. Esta é a razão pela qual quase todas as religiões apresentam as figuras do oráculo e o profeta – meios escolhidos pelo divino para dialogar com os humanos. Esse poder mágico e religioso da palavra aparece também no contexto jurídico. Jurar dizer a verdade e não fazê-lo é considerado crime. Quando se dá a própria palavra, está se dando a própria vida, a honra, a consciência.

Como pode ser percebido, o diálogo ultrapassa a dimensão da palavra falada e se redimensiona na esfera textual. Nesse ínterim há de acentuar as dimensões comunicativas da contextualidade e da hipertextualidade. As novas tecnologias ampliaram o horizonte da dialogicidade, fazendo com que possamos nos comunicar velozmente e em tempo real.

Ole Skovsmose, educador matemático, em seu livro Diálogo e aprendizagem em educação matemática, acentua essa perspectiva ao afirmar que

nós não apenas falamos através de palavras e frases, mas agimos também. Participar de um diálogo é também uma forma de ação e produção de significado mediante o uso da linguagem. Dialogar significa agir em cooperação. Pode-se fazer coisas dialogando.

De forma particular, ao escrever e publicar meus textos no espaço comunicativo da web estabeleço diversas e diferentes formas dialógicas. A publicação/exposição de meus textos implica envolver-me numa teia de diversidade de interlocutores, que transformam tais produções textuais numa perspectiva a-didática. Recebo diversos comentários que valorizam minha propriedade comunicativa textual e hipertextual. Criam-se diálogos que dão a impressão de que eu e os oportunos interlocutores nos conhecemos pessoalmente e há muito tempo, sem que isso de fato acontecesse. Essa percepção justifica o que Sátiro e Wuensch ressaltam quando se valoriza a palavra, indicando que “é como se nesse movimento fosse sendo tecida uma fina teia de pensamentos e relações”.

Zélia Mendonça Chamusca, uma das minhas fiéis interlocutoras, decodifica tal perspectiva nos versos de O pensamento voando como o vento... ao realçar que

Em permanente diálogo
Me deixo voar
E levar
Com o pensamento
Voando como o vento…
Percorro o caminho
Do sonho,
Da fantasia
E da magia,
Da realidade
E da saudade,
Do encanto,
E desencanto,
Da ternura
E da frescura,
Com o pensamento
Voando como o vento…

De fato a ação de um permanente diálogo nos faz percorrer por caminhos que atravessam grandes distâncias, voando como o vento e ancorando o encanto com a força maestral do pensamento. Definitivamente não existe mais entre mim e Zélia uma distância geográfica traçada entre Portugal e Brasil. Suspiramos, transpiramos e exercitamos o poder encantatório do diálogo nas entrelinhas de construtos poéticos e textuais expostos na mídia, numa cumplicidade fraterna acreditando na força extraordinária e na crença infinita de transformação de si próprio e do mundo. Sonhamos juntos e coparticipamos da dinâmica incomensurável de mecanismos comunicativos que extrapolam nossa capacidade de pronunciar o mundo.

Enfim, conforme preconiza Carlos Drummond de Andrade, “dialogar é dizer o que pensamos e suportar o que os outros pensam”. Urge na contemporaneidade um tempo em que não haja carência de diálogo e que o mesmo não seja entoado unissonamente. O poder encantatório do diálogo sustenta-se na capacidade humana de refletir e de conscientizar-se, descrevendo a si próprio e construindo símbolos (aquilo que nos une) e significados, a partir de um processo fundamental de interação. O mundo é sempre construído com os outros, sob a ótica de um ato coletivo de sinergia e de amor entre o eu e o outro. O eu-sentindo, o eu-falando, o eu-ouvindo, o eu-dialogando sempre será o eu-agindo na tarefa essencial de interlocução com os pares.


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