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João Márcio F. Cruz
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Crônica
 
Libertem Machado de Assis da ACADEMIA = ABL
Por: João Márcio F. Cruz

LIBERTEM MACHADO DE ASSIS DA ACADEMIA

A pior coisa que pode acontecer com um pássaro é ser engaiolado;
A pior coisa que pode acontecer com um gênio é ser enclausurado na cátedra;

Na biografia de Machado de Assis, talvez a pior coisa que pode ter acontecido foi ele ter sido escolhido como “presidente da academia brasileira de letras”. Aquilo foi uma cilada. Na medida que oferecem uma gaiola de ouro, formalidade e solenidade, também calaram seu canto, tolheram seu voo e “mataram” a essência do pássaro.

Pássaros mudos, sem asas, acostumados a ciscar no galinheiro do mausoléu dos anacronismos de seus coloquios “lúgubres”, enquadraram Machado em duas categorias – romantismo e realismo – tentando compreender seus “voos” literários. Não conseguiram...

Machado de Assis não se enquadra em nenhuma escola literaria brasileira, embora transite, como o passaro livre que era, pelo realismo sórdido, pelo cruel e ilusório romantismo, pela metafisica, pelo simbolismo e pela prosaica sobrenaturalidade da mente e pelo lírico cotidiano das almas comuns.

Um verdadeiro cientista da alma, um mistico do simples e ordinário, um pensador da sociedade, um filosofo das madrugadas e psicologo dos bastidores psiquicos, Machado de Assis mesca Kafka e Dostoievsky, Shakespeare e Schopenhauer. Em seu estilo único, encontramos o filosofo Hamlet, a loucura amável do idiota, o pessimismo existencial de Sarte e Schopenhauer, o surrealismo de metamorfose e as lúdicas relações dos contos de Oscar Wilde.

A cátedra, tenta trazer um pouco de vitalidade para seus ossos carcomidos, engessaram o genio e impediram que sua espontaneidade e naturalidade, circulassem pelas ruas e mercados do século XXI, mantendo-o preso em formalidade com odor de naftalina.

A academia, com exceção dos enterrados vivos, está tomada de fósseis imperosos, soberbos, sentindo-se senhores da lingua e da cultura e num ambiente tão inóspito, não existe lugar pior para um Machado de Assis sobreviver.

Logo ele, sublime neto de escravos, tendo como pai um pintor de paredes, logo ele um ser humano em contato com a realidade, sem perder-se ao seu imediatismo materialista, senhor de uma visão tão profunda que rasga qualquer categoria ou rótulo, dificilmente conseguiria respirar na casa/coveira da língua.

“A forma sempre deforma...” Krishnamurt certa vez disse que “sem rótulos, não conseguimos compreender uns aos outros, com exceção dos sábios...” Isso aplica-se a Machado de Assis. Quanto mais a academia tenta enquadra-lo num estilo, mais perde sua essência e mais dificil torna-se compreender seus escritos.

A faculdade me fez odiar Machado de Assis. Pinturam sua biografia e obras com cores semelhantes a de um Castro Alves, Jose de Alencar e Raquel de Queiroz. Grandes escritores, porém, todos eles merecem um lugar dentro dos estilos canônicos, Machado não...ele criou seu proprio estilo.

Obras como “o enfermeiro, o espelho, alienista, o ultimo capitulo, a causa secreta...” abordam temas que os séculos vindouros veria nos escritos de Zygmunt Bauman, Pascal Bruckner, Goffman, Peter Berger, Ernest Becker, Heidegger, Carl Jung, e outros. O machadianismo é algo que transcende as categorias. Semelhante ao DSM – Manual de diagnostico e estatistico de transtornos mentais – que enquadra qualquer pessoa “diferente” dentro de uma categoria psiquiatrica, a cátedra fez o mesmo com Machado solapando sua singularidade e jeito sui generis de ver o mundo.
O século XXI tem o direito de dialogar com Machado de Assis, porém, para isso, precisamos liberta-lo da cadeira solene dos imortais, retira-los das grades imorredouras da academia, ressuscitar sua obra dos escombros do trono dos que não morrem e deixa-lo voltar a transitar pelo mundo, conversar com as viuvas, escutar os loucos, desmascaras os sem rostos, acordar os normopatas e ensinar os segredos da alma humana ao debruçar-se sobre os misterios da vida.

Deixem que o pássaro voe. Não capturem seu canto, nem eclipsem sua arte atemporal. A gaiola, confortável a múmias, é sufocante para aqueles que almejam o céu enquanto pousam na terra para nos contar histórias de uma vida além das aparências e da superficialidade.

Como eu poderia gostar de Machado de Assis se na faculdade me falaram de um pássaro “canônico” preso numa sublime gaiola de etiqueta e artificialidades? Diante de uma ave presa, sentimos, apenas, pena...

Apenas diante de pássaros livres, tem-se admiração...
Talvez...
Seja por isso que os acadêmicos não o entendam e queiram vender uma ave empalhada, espantalho de artista, rascunho aurífero de um escritor sem vida. Se todos eles nasceram e se “de-formaram” nos bancos das faculdades (jornalismo, direito, letras, filosofia...) Machado de Assis nunca fez uma faculdade, jamais sentou-se num banco de cátedra universitária, e quiçá, seja essa a característica mor de um sábio, gênio, profeta.

“Escola instrui, não educa.
Todos os dias, saem diplomados das faculdades
mas poucos, educados...
Instrução leva ao conhecimento;
Educação leva ao autoconhecimento”
J. Márcio

Como esperar que pássaros engaiolados, desde a origem (formação) compreendam sobre voos e cantos de uma ave livre ? Melhor engaiola-lo (rotula-lo, classifica-lo) para tentar entende-lo.

Machado de Assis pode ter tido sua “alma de fora” aprisionada e solenizada, mas sua “alma de dentro” continua viva e dialogando com o muro dos vivos, narrando a vida em seus recantos escuros, dobradiças ensolaradas meio a seres humanos que buscam saber “quem somos? Onde estamos? Para onde vamos ?” perguntas que somente os “livres” se fazem.

Existe vida para além das cátedras.

Machado de Assis merece ser alforriado, depois de décadas refém de uma cadeira anacrônica.
Se lá dentro, eles imortalizam os fósseis, é do lado de fora que as sementes vicejam, quando ressuscitam-se obras e a sabedoria dos que jamais trocaria a liberdade do pensar pelo conformismo das formalidades.

João Márcio , escritor, poeta
Os quatro pilares da educação
Ensaios da vida cotidiana
Espelhos da vida

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