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Crônica
 
2016: O ANO QUE NÃO TERMINOU
Por: Valdir Sodré

Aludindo e parafraseando Zuenir Ventura em sua obra literária intitulada “1968, o ano que não terminou”, busca-se nas entrelinhas desse texto fazer uma alusão, uma referência implícita de comparação e de auxílio reflexivo aos dias e meses vivenciados no turbulento ano de 2016.

Em seu best seller, Ventura descreve as contradições, o radicalismo e a polarização ideológica da história sócio-político-cultural de 1968 em todo o mundo. No Brasil vivia-se a ditadura militar, momento que incitou os estudantes irem às ruas como forma de resistência, protesto e enfrentamento com a polícia. Zuenir foi testemunha e partícipe desses momentos e sua obra vai além dos registros jornalísticos em seu romance sem ficção. Dentro de tantos acontecimentos marcantes do ano, talvez a lendária passeata dos 100 mil fora o principal marco simbólico da força estudantil. Naquele ano a ditadura endurecia, quando o então presidente Costa e Silva assinara o Ato Institucional nº 5 em 13 de dezembro, que anulou os direitos civis dos cidadãos brasileiros e concentrou todo o poder ao Executivo.

Notoriamente a atmosfera fervorosa descrita por Ventura nos remete aos fatos e acontecimentos marcantes de 2016 no Brasil e no mundo, salientando que o curso da temporalidade se encontra aberto, obscuro e inconcluso a partir da observação da realidade sócio-político-cultural profundamente agredida nos direitos dos cidadãos.

Nesse sentido, 2016 foi e ainda é o ano da busca da consciência reflexiva, que é a capacidade de focalizar, discernir e orientar o próprio pensamento. Assim, desenvolvemos a capacidade de pensar por conta própria. Tal necessária atitude comportamental se apresenta como atributo indispensável para todo cidadão situar-se no movimento em espiral da história que intensamente vivemos, vivenciamos e construímos no exercício primordial e sagrado da democracia.

Na esfera mundial, já no mês de janeiro de 2016, o mundo ficou perplexo pela barbárie do atentado terrorista ao jornal satírico "Charlie Hebdo", em que matou 12 pessoas e feriu outras cinco. O ataque foi em represália a charges ironizando o profeta Maomé. Outras cinco pessoas foram mortas naquela semana em ataques coordenados. O massacre traumatizou a França.

O radicalismo etnocêntrico dos grupos terroristas ainda foi palco dos atentados em Bruxelas, capital da Bélgica, em março. A perplexidade do mundo pode acompanhar, na ocasião, uma série de explosões que atingiu pontos estratégicos da cidade como o Aeroporto de Zavantem e a estação de metrô Maalbek, deixando um saldo de ao menos 30 mortos e 300 feridos. Poucas horas depois, o grupo extremista Estado Islâmico reivindicou a autoria dos ataques.

Numa madrugada de um domingo de junho, mais uma vez o mundo se chocou com o massacre de 49 pessoas na boate gay Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos. O atirador Omar Mateen entrou no local e fez disparos durante mais de duas horas antes de ser morto. O caso reacendeu a discussão federal intensa sobre o endurecimento ao controle de armas.

Cabe aqui fazer um parêntese hipertextual ao ressaltar que o mundo gasta US$ 1,7 trilhão com armamentos bélicos. Os Estados Unidos gastam US$ 596 bilhões com investimento bélico, assumindo o topo das nações com maior poder de armamento, enquanto o Brasil investe com um orçamento militar estimado em mais de US$ 24 bilhões, que corresponde a 1,4% do PIB. Por que esse dinheiro não tem outro destino, matando a fome do mundo e investindo mais nas áreas sociais como Saúde e Educação?

Conforme os versos da música A Canção do Senhor da Guerra, composta por Renato Russo, “o senhor da guerra não gosta de crianças”.

Dentre outras tragédias, na noite do dia 19 de dezembro, o embaixador russo na Turquia, Andrey Karlov, foi morto a tiros durante a abertura de uma exposição de fotos em Ancara, abalando ainda mais as relações entre a Rússia e a Turquia. O assassino, ex-funcionário do batalhão de choque da polícia de Ancara, lançou gritos sobre Aleppo e Síria após o ataque, em alusão à intervenção militar russa no país árabe.

Essa tragédia traz à tona talvez o maior incidente diplomático e de conflito no mundo: a guerra da Síria atenuada pelos milhões de refugiados espalhados pelo mundo, sobretudo na Europa. A Síria está em guerra civil desde 2011. Por causa da violência, milhares de pessoas têm deixado o país todos os dias. Como se não bastasse isso, o grupo terrorista Estado Islâmico está invadindo cidades no país. Com medo de serem presas e mortas pelo EI, as pessoas têm fugido.

O domínio radical do Estado Islâmico, da Al-Qaeda e de diversos grupos rebeldes na Síria e em parte do Iraque progressivamente tem consolidado uma possível terceira guerra mundial. A “guerra contra o terror” é uma forma implícita de um conflito eminente, visto que as nações poderosas da Rússia e dos Estados Unidos não conseguem entrar em acordo sobre a atuação na Síria.

O terror exacerbado alimenta a dor, o sofrimento e o massacre de milhões de inocentes, entre os quais crianças. De fato, “o senhor da guerra não gosta de crianças”. E como Yves Lacoste intitulou seu livro Best seller: “Geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer guerra”.

A eleição do republicano, bilionário e conservador Donald Trump, derrotando Hillary Clinton nas eleições de 8 de novembro nos Estados Unidos consolida um quadro duvidoso, que não inspira confiança na busca de paz. Seu perfil xenófobo, sexista e racista preocupa todos aqueles que buscam uma sociedade mais fraterna, igualitária, justa e pacífica.

No cenário sócio-político-cultural brasileiro, perplexamente o povo brasileiro presenciou fatos históricos descomedidos num tempo que demarca novos rumos sociais e políticos sob o descontentamento da sociedade que conclama por mudanças. O Brasil, assim como todo mundo, vivencia um tempo de inauguração necessária de uma nova proposta de mundo, que nem o capitalismo e nem o socialismo poderão responder satisfatória e substancialmente aos anseios por uma sociedade justa, fraterna, democrática, solidária, igualitária e pacífica. Chegou-se o tempo de construir um novo horizonte solidário nas relações humanas na contemporaneidade.

Em agosto, a presidente Dilma Rousseff, primeira mulher eleita para a presidência do país, foi destituída do cargo. O pedido de impeachment foi aceito pela Câmara dos Deputados em 17 de abril e afastada provisoriamente pelo Senado em 12 de maio de 2016. O impeachment foi o segundo da história do país. Esse processo político radical foi fruto de enormes escândalos desvelados e alimentados por veementes espúrios de corrupção retratados no cenário político das esferas dos poderes da res-pública brasileira.

Por conta do turbulento momento político vivido pelo país, as manifestações de diversas classes e setores tomaram conta das ruas das capitais e cidades menores. Muitos outros protestos ainda têm sido organizados, atos que extrapolam o limite do tempo cronológico e que simbolizam o pensamento lógico de que de fato 2016 ainda não terminou.

Sem sombras de dúvidas, o maior destaque ocorrido em 2016 foi a Operação Lava Jato, que é a maior investigação sobre corrupção conduzida até hoje no Brasil. Ela começou investigando uma rede de doleiros que atuavam em vários Estados e descobriu a existência de um vasto esquema de corrupção na Petrobras, envolvendo políticos de vários partidos e as maiores empreiteiras do país. A operação já está na 38º fase, apontando que os trabalhos judiciais vão além de 2016. A operação Lava-Jato teve em 2016 o seu recorde de fases deflagradas, um total de 15, com prisões simbólicas. Além de Eduardo Cunha, João Santana, Gim Argello, Paulo Bernardo, Guido Mantega e Antonio Palocci, muitos políticos foram condenados. Marcelo Odebrecht, José Dirceu e José Carlos Bumlai são alguns nomes.

Em agosto de 2016, o Rio de Janeiro foi a sede das Olimpíadas e o país recebeu diversos países para as disputas esportivas. O evento movimentou gastos extremamente excessivos e em algumas construções de arenas e de espaços esportivos são focos de investigações de recebimento de propinas. Por exemplo, o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, do PMDB, é suspeito de comandar uma organização criminosa que recebeu mais de R$ 220 milhões em propinas. Duzentos e trinta policiais federais cumpriram 38 mandados de busca e apreensão, 10 mandados de prisão e 14 de condução coercitiva, quando a pessoa é obrigada a acompanhar a polícia para prestar depoimento. Apesar dos pesares, o lastro de corrupção não obscureceu as vitórias dos atletas brasileiros e o esplendor da magnitude do maior evento esportivo da Terra.

Várias personalidades, dentre as quais elencamos alguns escritores, nos deixaram em 2016 com intensa saudade. São algumas delas: David Bowie, Umberto Eco, Prince, Cauby Peixoto, Muhammad Ali, Guilherme Karam, Héctor Babenco, Elke Maravilha, Domingos Montagner, Carlos Alberto Torres, Fidel Castro, Ferreira Gullar, Dom Frei Paulo Evaristo Arns, George Michael, Tereza Rachel, Geneton Moraes Neto, dentre outras, sem esquecer o desastre fatal do avião que transportava a delegação de futebol da Chapecoense e de diversos jornalistas.

Como afago à alma, recorro aos versos do poema Os Mortos de Ferreira Gullar:

Os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos
eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça

Enfim, sem a pretensão de ser trágico ou depressivo, o objetivo verdadeiro contido nas entrelinhas desse texto foi acentuar que os momentos difíceis sobressaíram diante da beleza dos momentos felizes. Isso não quer dizer que 2016 foi de todo um ano ruim. Fica clara a mensagem de que precisamos ser resilientes, esperançosos e sonhadores. Resilientes para tirar das ocasiões difíceis algo de bom, buscando o equilíbrio que a vida necessita. Esperançosos para alimentar a fé e a certeza da vinda de dias melhores. Sonhadores para que os sonhos que se sonham juntos tornem-se realidade e força para acreditar e pensar serenamente sob a égide transformadora de uma consciência reflexiva que alimente o tempo existente para cada etapa, mesmo que o próprio tempo nos indique que ainda não chegou o fim.

Feliz 2017!

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