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Crônica
 
POR UMA ESCOLA PÚBLICA DE QUALIDADE EM TEMPOS DE DESENCANTO
Por: Valdir Sodré

Uma série de escândalos demarca o atual momento histórico da democracia brasileira, consolidando um cenário político desolador, assolado pelos males rizomáticos da corrupção, a partir das investigações desencadeadas pela operação Lava-jato. Estão envolvidos e sendo investigados dez ministros de Estado, vinte e nove senadores, quarenta e dois deputados federais, três governadores e vinte e três ex-políticos e/ou pessoas públicas, além de dois ex-presidentes e o atual presidente da res-pública brasileira.
O tema da corrupção, portanto, entra na agenda política e se associa umbilicalmente às necessidades das reformas políticas e institucionais. O povo brasileiro clama por mudanças e assistimos perplexos a avalanche diária de notícias que avolumam a tragédia política vergonhosa em que manchou a história do Brasil.
Mas afinal o que é corrupção?
De acordo com a ONG Transparência Internacional, a corrupção pode ser definida como "o abuso de poder político para fins privados". Essa é a definição mais aceita e conhecida do termo e pode ser aplicada à maior parte das notícias sobre a corrupção que vemos diariamente.
De fato História não deve ser contada, mas sim vivida. E tais fatos e acontecimentos já invadem os ambientes escolares. Torna-se uma inquietude e um questionamento intenso e profundo compreender como fica a escola, como instituição necessária e indispensável, nesse panorama desolador do cenário político-social brasileiro?
Como preconizava Paulo Freire, a transformação da sociedade que queremos não passa somente pela escola, mas passa necessariamente pela escola. A escola é um espaço permanente de conflitos e quando eles não mais existirem não precisaremos mais da escola. O lócus privilegiado da escola é o melhor espaço para pesquisar, pois ela absorve todos os problemas sociais, políticos e econômicos. Compreender o ambiente escolar é necessariamente compreender o mundo.
Nesse sentido, não há como deixar de dar importância a instituição essencial escola diante desse momento político trágico em que vive o Brasil.
Para melhor apontar os ditames necessários para uma gestão exitosa de uma escola que suspira transformação enquanto é transformada, cabe ressaltar vários problemas latentes que desde antes dos atuais escândalos já existiam no seio dos ambientes escolares.
Indubitavelmente, de forma macro, o maior problema da educação brasileira é investimento, com aplicação de recursos de uma maior fatia do Produto Interno Bruto (PIB). De forma micro, o problema mais latente é gestão, desde àquela desenvolvida na sala de aula pelo docente à administração escolar da instituição conduzida pelas políticas públicas de educação.
Segundo dados do IBGE/Pnad, de cada 100 brasileiras e brasileiros 8 são analfabetos. Apenas 47% das escolas brasileiras têm rede de esgoto. Trinta e seis por cento têm biblioteca. Trinta e dois por cento têm quadra de esportes. E, além de outros dados, 74% têm coleta de lixo. São dados alarmantes, que conjugados com os escândalos da corrupção se potencializam ao compreender que subjacentemente a escola de forma mais profunda e perversa fica esquecida e recoberta por ações políticas que priorizam as defesas e a crise política instalada.
Segundo Nora Krawczyk, as condições da escola brasileira estão balizadas numa estrutura sistêmica precária e sob uma cultura escolar incipiente no atendimento dos jovens das camadas mais pobres da população brasileira. Para pensar numa escola transformadora e de qualidade, exige-se ousadia e amplitude de ideias, de ações, de mudanças, de formação e de orçamento. A construção da escola ideal brasileira necessariamente passa pela adoção de políticas que visam reverter o quadro de desigualdade educacional e que consolidem projetos que atendam, por exemplos, as educações do campo, para jovens e adultos e para o ensino noturno. Exige-se um comprometimento com a comunidade escolar e um enfrentamento da realidade complexa e controvertida que nos apresenta.
Assim sendo, é imperativo a defesa de uma escola pública de qualidade, democrática e transformadora. É na sua consolidação que seremos capazes de enfrentar as incertezas e de inaugurar novas formas de mediação do conhecimento, num exercício permanente de reflexão e ação e de reflexão na ação, no processo contínuo de construção do conhecimento e de análise das reais condições da trama educativa, diante da solução de problemas, da tomada de decisões e da correção no rumo das ações.
Segundo Vygotsky, a escola deve ser capaz de desenvolver nos educandos capacidades, habilidades e competências intelectuais que lhes permitam assimilar plenamente os conhecimentos acumulados. Ela deve ensinar o aluno a pensar, ensinar formas de acesso e apropriação do conhecimento elaborado, de modo que o mesmo possa praticar autonomamente ao longo de sua vida. Essa é, segundo Vygotsky, a principal tarefa da escola contemporânea frente às exigências das sociedades modernas.
O ambiente de sala de aula se constituí muito mais além de um ambiente físico de mesas e quadros. É um ambiente que transmite mensagens sutis àquilo que é valorizado na aprendizagem e no fazer pedagógico. É aquele ambiente que proporciona aos educandos a aprenderem a formular conjecturas, a buscar uma variabilidade de formas de resolução de problemas e a construir argumentos e contra-argumentos.
Considerando que educar é um movimento de dentro para fora e que é um ato político em ajudar o outro a pensar, nesses tempos atuais de desencanto, a escola deve oportunizar, conforme Freire, o exercício da leitura do mundo, na sutileza, na amorosidade e na “boniteza” do gesto singelo de aprender e de ensinar. Pois, afinal, conforme entoa Chico Buarque, “a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá”. Sabendo que sonho que se sonha junto é realidade e entre o eu e o outro que é possível impulsionar a grande roda da História, podemos alimentar a ousadia na esperança, a força na fé, a certeza na coragem, a virtude no amor e a mudança na sede de viver, sem medo de ser feliz.



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