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Fernando Soares Campos
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Enquanto a realidade se transforma, a verdade evolui
Por: Fernando Soares Campos




por Fernando Soares Campos


O dualismo formado pelos conceitos de "verdade" e "inverdade" só pode ser estabelecido quando o objeto apreciado possa ser contestado quanto à sua existência ou ocorrência. Pela simples apresentação do objeto e o reconhecimento incontestável, por parte de qualquer observador, de sua existência como elemento de tal espécime, assim, não se pode tratá-lo como sendo "verdade" ou "inverdade", mas tão somente como real. [Wikipédia: "Realidade (do latim realitas isto é, "coisa") significa em uso comum "tudo o que existe". Em seu sentido mais livre, o termo inclui tudo o que é, seja ou não perceptível, acessível ou entendido pela filosofia, ciência ou qualquer outro sistema de análise."]

Uma pedra, por exemplo, não comporta, concomitantemente, dois princípios opostos, referentes à verdade e à inverdade. Diante de um ou mais observadores, tal objeto não pode ser entendido como uma verdade ou uma inverdade, ele explicita tão somente o real (lembremo-nos de que o irreal não significa necessariamente uma inverdade).

As opiniões subjetivas que podem suscitar ideia de dualismo, dicotomia dos opostos, só devem ser consideradas através de um sistema de valores; portanto, descartada a possibilidade de negação do objeto como sendo verdade ou inverdade, resta-lhe simplesmente a condição de "aquilo que é", ou "aquilo que existe".

As locuções adjetivas "de verdade" e "de mentira", significando algo que é "verdadeiro" ou "falso", "legítimo" ou "ilegítimo", não têm sentidos significativos equivalentes à verdade e à inverdade objetivas. Não são sujeitos, não são objetos, tratam, em alguns casos, da boa ou má qualidade dos constituintes de um objeto; em outras acepções, referem-se ao original e à imitação de determinado objeto; em ambos os casos, dizem sobre coisas reais, falam ao que é, ao queexiste e cuja existência não pode ser negada nem confundida com outro ser.

A transformação da realidade e a evolução da verdade

Antoine-Laurent Lavoisier, reconhecido como o "pai" ou "fundador" da química moderna, pôde, através de seus trabalhos de pesquisa, enunciar uma lei que ficou conhecida como Lei da Conservação das Massas ou Lei de Lavoisier.

"Numa reação química que ocorre num sistema fechado, a massa total antes da reação é igual à massa total após a reação".

Ou,

"Numa reação química a massa se conserva porque não ocorre criação nem destruição de átomos. Os átomos são conservados, eles apenas se rearranjam. Os agregados atômicos dos reagentes são desfeitos e novos agregados atômicos são formados".

Ou ainda, sob conceito filosófico,

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma."

Daí se conclui que "nada pode surgir do nada; e nada pode transformar-se em nada".

A partir dessa constatação, entendemos que os elementos que constituem o nosso corpo material (o ente material) são eternos, indestrutíveis, eles apenas reagem entre si e se transformam (durante e após o ciclo vital). Assim sendo, considerando suas existências concretas, podemos dizer que eles encerram em si (ou simplesmente representam) a realidade.

O ente psíquico, etéreo, autoconsciente, individual, único, unido ao nosso corpo material, é igualmente eterno, indestrutível, entretanto este, à medida que aprofunda seu autoconhecimento, é capaz de criar mecanismos próprios para controlar seus desejos e impulsos afetivos e emotivos; adquire conhecimentos através de processo mental (cognição) em que aplica a percepção, atenção, associação, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem; desenvolve métodos próprios para o aprendizado de determinados sistemas e soluções de problemas; nele não ocorre a simples transformação de seus elementos, mas, sim, o progresso quantitativo e qualitativo de conhecimentos e o aperfeiçoamento do emprego de suas principais funções (cognição, volição, afeto e motivação), portanto o ente psíquico evolui, podemos também afirmar que, por ele desejar conhecer a verdade e persegui-la, esta evolui consigo.

A realidade é relativa; a verdade, não

Tomás de Aquino afirmou que "nenhum ente esgota a verdade", e isso reforça o nosso conceito de evolução da verdade.

Hegel dizia que uma uma tese sempre terá para si uma antítese, e a união dessas teorias formaria uma nova ideia, abrangendo aspectos da tese e da antítese em síntese. E a síntese se tornaria uma nova tese, e, assim, o ciclo se reinicia com a formação de sua respectiva antítese. O que vem a ser isso, senão o caráter evolutivo da verdade?

A realidade é individual, é real a forma como o indivíduo vê e sente as coisas, mesmo que as veja distorcida da verdade. Nas mesmas águas em que o indivíduo abastado realiza pesca de lazer, o pobre morador das regiões ribeirinhas pesca por necessidade de prover a sua subsistência e, geralmente, não dispõe de equipamentos tão avançados (tão evoluídos) quanto os do indivíduo abastado. O abastado vê o seu ambiente de pesca como uma área esportiva e, em muitos casos, de cenário deslumbrante; o pobre ribeirinho vê a mesma área como campo de trabalho. Porém, para ambos e para qualquer outro ser humano, aquilo não pode ser outra coisa senão um rio, habitat natural de peixes e de outros animais aquáticos, margeado por densa vegetação. Quer dizer, a realidade é relativa, varia de indivíduo para indivíduo; a verdade, não, a verdade é única, é para todos, mesmo para os que a desconhecem.



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