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Conto
 
Torrente de paixões
Por: Morena

O conto a ser lido tratar-se-á de uma mera história de traição conjugal e a encontramos em todas as ruas e ruelas da vida. Sabe-se que os contadores de histórias existem para eternizar fatos da vida real transformando-os em casos surreais. Contam os contadores da vida, histórias do cotidiano, dos bons e maus momentos vividos, histórias de anjos e demônios que transitam nas estações apaixonantes do coração.
Vamos ao conto, divaguemos no caminhar de quatro adultos que chegaram ao ápice da fragilidade mental e espiritual. Emoções febris os enlouqueceram, sentimentos torpes os confundiram, amar os desalmaram. A tirania da sentimentalidade dos seus corações os lançaram no lamaçal vergonhoso da desonra humana.

Saulo e Helenice, Helenice e Saulo. Helenice já não suportava Saulo. Saulo idolatrava Helenice.
Quando os conheci eram casados há dez anos. Saulo trazia em seu olhar a melancolia nata de um ébrio inveterado, que sonha com a abstinência amiúde, ambicionando pôr fim à estupidez da sua pobre alma que o lançou no lodaçal da dor desde a mocidade. Não era um bêbado conformado com seu destino insólito. Jamais resignar-se-ia a ser um bêbado perpétuo. Era um alcoólatra como os demais; admitia que bebia, mas que ninguém ousasse rotulá-lo tal.
Saulo lutava como um mouro contra o afã do vício, sabedor que a compulsão alcoólica o queria entregue à periculosidade das emoções lúdicas e ao caçoo dos homens sóbrios. Enraivecia-se das ondas etílicas que sobrepujavam a sua alma. Socava o peito, inflado de ira cósmica, pretendendo deter a compulsividade ladina da sua alma e manter-se com pelos menos um dos pés dentro do planeta. Odiava ser o bobo da corte que ora chora, ora ri, guardando no peito uma angústia infinita.
Por sua vez Helenice trazia em seu olhar a sobriedade da esperteza de uma mulher leviana, capaz de realizar todos os seus desejos libidos, triturando quem ousasse impedi-la. Não se podia igualá-la a uma anta selvagem, contudo um grama a mais de arrogância e imbecilidade obscurantista naquela mente opaca, torná-la-ia congênere. Saulo e Helenice; um água ardente, outro brasa incandescente. Um dia eles juraram amor eterno, desconhecedores de que tudo que é eterno acaba.
Há mulheres fortes na vida que suportam qualquer aberração em seus amados, mulheres essas que viram feras se alguém ousa criticá-los. Elas viciam-se tanto com o odor nauseabundo dos seus amados que chegam a compará-lo com o odor de exuberantes fragrâncias silvestres. Entretanto, Helenice já não suportava o cheiro acre que emanava das entranhas tóxicas do homem há quem um dia jurou fidelidade, assim como desprezava a modéstia material do marido que trazia a vida numa quase indolência miserável, com uma passividade ignorante, que não dava lugar a supérfluos. Ela almejava o mundo, Saulo só queria viver nele. Assim a distância entre os cônjuges acentuava-se gradativamente com a passagem lépida das estações.
Podendo a mulher posar de bonita, não se diria uma sereia. Aos trinta e dois anos vestia-se e comportava-se como uma colegial e, psicologicamente, sabia-se que assim seguiria décadas à frente, posto ser visível sofrer da Síndrome de Cinderela, assim com há homens que sofrem da Síndrome de Peter Pan, síndromes essas que tem como sinais e sintomas a não aceitação da vida fluindo, fazendo a mocidade virar passado.
Esguia, morena jambo, cabelos alisados com cremes baratos, a feiúra de Helenice estaria na boca esquisita, cravejada de dentes salientes. Seu corpo escultural corrigia essa pequena imperfeição, que só era feia aos olhos alheios. Ela tinha certeza de que todas as mulheres a invejavam. A sua conduta denotava uma lucidez hilária. Se se percebia em Saulo um acentuado distúrbio psíquico camuflado pelo vício, Helenice por sua vez deixava transparecer em si um abobamento astuto, deveras perigoso.
Saulo, trinta e três anos, aventalhado pelo vício, seguia a mulher como seu fiel cão de guarda. Transitando entre a sobriedade e a bebedeira, fazia malabarismos ébrios para que nada faltasse à sua sereia. Uma serviçal do lar era prioridade a qual Saulo pagava de bom grado. Não queria a sua bela esposa chorando por estragos em suas mãozinhas delicadas, de unhas bem tratadas, algo prostitutas, assim como não a queria espargindo odores acebolados. Eu confio demais na mãe da minha filhinha, minha mulher é digna de um Taj Mahal, assim apregoava o enamorado bêbado, esse pobre homem.
Encorajada pelo marido, Helenice retornou aos estudos médios, que abandonara, na mocidade. Longe da sua sentinela encantado, ela descobriu que o mundo era aromático, que possuía cheiros de homens cujas fragrâncias a estonteavam, diféreo do seu apartamentíco onde tinha que suportar os odores fétidos do estomago deteriorado do marido, impregnando tudo ao redor. Ao mesmo tempo descobriu que possuía imensas asas de águia e que elas obedeciam ao seu comando de vôo alto.
De início ela pimponeava de mulher fatal entre os jovens colegas de classe, aceitava convites aos barzinhos, reagia feliz às cantadas empolgadas. de jovens ainda imberbes, enfim regrediu estapafúrdia às primaveras juvenis, pouco ou nada preocupada com um vírus de nome HIV, que principiava a assolar a humanidade, trazendo consigo a sombra fria e letal da morte.
Num belo dia consumou-se enfim a tragédia maior da vida de Saulo; Helenice, a sua sereia, a sua idolatrada, a sua deusa, a sua Arjumante Banu, apaixonou-se perdida e irremediavelmente por seu professor de geografia, um homem de postura doutoral e que, hábil ironia do destino, também se chamava Saulo.
Dois Saulos: um bêbado e palhaço humano, o outro sóbrio e incapaz de resistir aos avanços de uma mulher que não titubeia ante nada.
Doravante, para que não se confunda os Saulos no enredo do conto, o marido será Saulo I e o amante Saulo II.
Louca por Saulo II, Helenice expunha às comadres as suas traquinagens alcovitas num motel do bairro bem próximo do seu sagrado lar, sem uma nesga de pudor.
Não havia quem não soubesse da traição conjugal, conquanto Saulo I, entorpecido pelo vício, permanecendo bêbado nas horas sóbrias e sóbrio nas horas bêbadas, não enxergava um palmo além do que os seus olhos azonzados viam. Ele era o mais feliz dos homens e tinha como senhora a mais feliz das mulheres, mulher que ele desconhecia ser frequentadora de magia negra na intenção de fazer Saulo II abandonar a família para viver com ela. Tão logo conseguisse tal proeza ela abandonaria Saulo I. Loucuras de paixão.
Sou capaz de matar pela Helenice, explicava assim a sua paixão pela mulher o inebriado Saulo I, isto enquanto Saulo II traçava vales, rios e mares em Helenice. Quem ousaria inflar-se de coragem diante de tanto ardor amoroso do pobre traído e contar-lhe o que ocorria praticamente às suas fuças? A comédia pastelão poderia acabar em tragédia grega e havia em jogo as vidas de quatro crianças que foram colocadas em cena devassa, sem a devida licença dos seus corações; uma filha de Saulo I e três de Saulo II. Se havia quem afiasse a língua para contar tudo ao infeliz homem, certamente recuava ao pensar nas inocentes crianças que não tinham idade para entender o tamanho da descompostura dos seus pais. Entretanto há pessoas ávidas por ver um circo pegando fogo, desde que não esteja dentro dele, obviamente. Um dia, nunca se soube por quem, Saulo I soube da perfídia ultrajante da mulher. Inquiriu-a, e ela, irada e altaneira, confirmou tudo. Saulo I chorou horas a fio, refugiou-se em casa de um amigo que o consolou, escondendo o sorriso caçoador, seguidamente espalhando tudo para a humanidade e adjacências, na certeza que lança no coração de um amigo é analgésico.
Após, Saulo I embebedou-se até insuflar-se de fúria animalesca e de posse de uma enorme arma branca disparou desvairado a correr entontecido no anseio louco de surpreender a afoiteza dos amantes, podendo então matá-los sem que fosse necessário guardar remorso. Não os encontrando bebeu mais ainda, ficou sóbrio, bebeu de novo e nesse rodamoinho de loucura seguiu por semanas, até compreender finalmente que perdera para sempre a sua Nabu. O outrora encantado deus de uma deusa que jamais ousara insultá-la, não poupou impropérios e ameaças, oriundos de um furor selvático nascente no breu d’alma que até então se desconhecia, que fez Helenice esconder-se apavorada em casa de parentes.
Na casa de Paulo a tragicomédia shakesperiana não foi menor. A sua senhora, Estela, a quem ele jurara amor eterno frente ao altar, transformou o seu outrora lar feliz em campo de guerra. Ao saber da traição do santo que ela carregava terna e prazerosamente em andor pesado, reboou o seu ódio e sua angústia pelas fendas do mundo. Ensandecida de dor aguda, tresloucada, doidivanas, desativada das emoções puras que fazem uma pessoa parecer humana, seminua, ela alcançou a rua, pretendendo chamar à atenção de todos à sua dor. "Ai, Senhor, acaba comigo agora, tira a minha vida, me mata, me manda pro inferno, mas me livra disso, arranca isso de mim, por favor... Ai, dói muito!" Doloroso assim exclamava a atormentada mulher. Quem viu aplaudiu o espetáculo. Carne de segunda à vista! exclamou divertido um adorador de tragédia humana. Alucinada, Estela tentou implodir o seu santo, tentou matar-se, tentou matar Helenice, usou as três pequeninas filhas contra o pai, implorou, urrou ofensas que ela própria desconhecia, humilhou-se ajoelhada, blasfemou, buscou socorro na magia negra, tudo vã. O outrora bom chefe de família, não dado a vícios, possuidor de um caráter inatacável, funcionário de uma multinacional e a noite dando aulas para complementar o orçamento e suster com dignidade os seus entes queridíssimos, deveras que não resistiu aos assediadores cruzares das longas pernas da sua pupilona em sala de aula.
Leiam-se trechos de cartas dos quatro adultos, carta essas que em mãos de Helenice caíram em domínio publica.

De Saulo II para Helenice:
Não podemos levar adiante o nosso caso. Temos filhos de pessoas diferentes, somos adultos e assim devemos nos comportar. Eu não posso destruir a minha família nem você a sua. Esqueça-me, não posso...

De Estela para Saulo II:
Custa-me acreditar que o menino puro com qual eu me casei, que o pai das minhas filhinhas queridas tenha se transformado num canalha, num...

De Helenice para Saulo Segundo:
Meu amor, por você eu sou capaz de morrer. Você tem que deixar a Estela. Só eu posso te fazer o mais feliz dos homens, só eu posso te amar loucamente...

De Saulo I para Helenice:
Por favor, querida, posso entender que tenhas caído em tentação, mas sou eu, o seu devotado marido, o pai da nossa linda filhinha, quem pede que reflitas e que...

Se nessa história passional, não rara de acontecer, a tragédia não se consumou, em cena quatro crianças sofriam inocentes pela infantibilidade de quatro adultos que foram capazes de transformar o céu bonito que as cobria em nuvens escuras para sempre. Quatro crianças centradas no delírio de olhos zombeteiros diante da desgraça alheia e línguas que não hesitam em lançar inocentes na parte lodosa e fétida de uma história negra, cujos personagens principais tresandam na mais expressiva das loucuras.
Realçando essa história real, cujos nomes dos personagens são fictícios, mas bem próximo dos verdadeiros, Helenice conseguiu fazer com que Saulo I retornasse à casa dos pais, antes de ser morta por ele. Saulo II saiu de casa antes de ser morto pela mulher, posto que a loucura de ela era tanta que parecia vir das profundezas. Estela não aguentaria mesmo vê-lo dormindo, entregue a sonhos libidinosos com a sua oponente, sem dar fim em tanta humilhação e vergonha com uma tragéda. Emoções antagônicas a impeliam a matar e a morrer. Saulo II buscou refúgio no apê de Helenice, para triunfo desta, deixando a pobre esposa a ver navios atracados em porto nebuloso por gélidos invernos. Confirmou-se não ser Estela páreo para o aplomb de Helenice.
Desesperançada que o grande amor de sua vida retornaria aos seus braços e a casa onde outrora morara a felicidade entre risos e cantares, Estela desprendeu-se do pouco juízo que lhe restou ileso, conduzindo-se doidivanas à frente, carregando ódio centuplicado no espírito, sem importar-se em manter a dignidade em prol do futuro das filhas. Quando censuravam o seu comportamento vergonhoso ela esbravejava ferina. Não familiarizada com sofrimentos incomensuráveis e ultrajantes desde a sua concepção, posto que seguiu do lar feliz dos seu pais às suas núpcias, o fim do seu casamento treze anos depois necrosou-lhe a dignidade. Ela jamais recuperou a sanidade mental. Também não conseguiu que o marido retornasse ao lar mesmo frequentando a magia negra. A partir da separação viveu aos tropeços, jamais se conformando com a tormenta avassaladora que varreu a felicidade de dentro do seu coração.
Saulo I perdeu o seu grande amor, mas teve direito a um segundo amor. Um amor mediano é verdade, se não digno de um Taj Mahal, digno de uma maquete fidedigna. Aquele seu jeito arrogante de alardear que tinha um colosso de mulher cedeu lugar a uma humildade vergonhosa. Para endossar a sua meia felicidade, a sua nova mulher possuía estomago de aço, se contentava com pouco, além de defendê-lo contra tudo e contra todos. Tiveram um filho.
Helenice uniu o útil ao agradável, pois enrustido em todo seu amor por Paulo II, havia a invidia que sentiu da boa vida que ele proporcionava à primeira mulher e filhas. Separados os bens do divórcio de Saulo II, este cedeu a sua confortável casa à ex-mulher e filhas, ficando com o esplendoroso sítio que possuía e os dois carros. Helenice, agora portando aparelho nos dentes, era vista dirigindo o carro de Estela. Não demorou em ser vista com um carro do ano. Cosméticos, perfumes, jóias e roupas caras eram o deslumbre do seu novo casamento.
Saulo II abandonou mesmo e para sempre a sua bonita família a quem jurou amar e proteger por toda a vida. Segundo rumores sabia-se não ser ele fidelíssimo à Helenice, posto que não mais conseguiu manter cativa a tara por suas pupilas afoitas como Helenice. Tara, quando liberta do cativeiro negro d’alma, ondeia por sobre as vagas fomentando a fúria dos deuses em prol de assistir uma grande devastação.
Por sua vez, Helenice, cega de amor e bens, jamais soube que o seu grande amor apreciava mapear vales, rios e mares desconhecidos. Também ela não deixou de frequentar a magia negra, receosa da visão incomoda de vir Saulo II retornando à primeira família ou simplesmente deixando-a por outra pupila afoita.
Saulo, Helenice e Saulo... bem, até onde se sabe eles foram presenteados pelo destino com muita sorte, uma montanha de sorte: escaparam ilesos do vírus HIV. Sorte para uns, fatalidade para outros. Estela morreu de AIDS por volta de 2000. Ela teve um filho à revelia. A criança nasceu portadora do vírus, morrendo alguns anos depois. Àqueles dias do início desse conto, veiculavam-se notícias estarrecedoras sobre a mortífera patologia. Um dos casos mais tristes noticiados foi sobre o homem que contraiu o vírus fora do casamento e num ato de desespero matou a esposa e três filhos jovens, julgando ter transmitido à doença letal para a família, em época que havia pouca informação sobre a forma de transmissão do vírus HIV.
Será profético terminar o conto, escrevendo que um dia os personagens dessa história verídica tranformar-se-ão apenas num resquício lendário na lembrança de quem os conheceu. Dia chegará a que a traição que alucinou mentes e corações esvaecerá nas dobras do tempo.
Distorções da vida, sordidez máxima dos corações ensandecicos, temas disformes dos pensamentos que liberam emoções desvirtuosas. Amiúde assim é ela, a vida. Assim é ele, o amor. Grotesca forma de amar o amor. Ações e reações tensas, intensas e extasiantes que assolam o espírito humano. Homens e mulheres capazes de transformar dias ensolarados e auspiciosos em noites tempestuosas e terríficas. Sim, seres capazes de tudo, brincando de felicidade.
O primor da tragicomédia humana é um espetáculo grandioso.

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