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Conto
 
FIM DE TARDE
Por: Suely Braga


FIM DE TARDE
SUELY BRAGA
Sentada com uma perna sobre a outra ereta, com um leve sorriso nos lábios finos, ela permanecia imóvel. Enquanto Roberto traçava, com perícia e rapidez, a figura na tela branca. Depois de um longo tempo que se escoou indefinido ele falou com um contentamento na voz:
_ Podes ir. Volta amanhã no mesmo horário para continuarmos o trabalho.
Ela ergueu-se, vestiu-se e com passos lentos caminhou em direção à porta.
Roberto respirou fundo, largou o pincel, olhou o quadro distraído. Seu pensamento voou distante, reportando-o para aquela noite fatídica da tragédia. Um arrepio percorreu lhe o corpo e sentiu uma fisgada na cabeça provocada pelas lembranças dolorosas.
Saiu da festa com Marina bastante alcoolizado. Dirigindo com velocidade desenfreada avançou o sinal fechado, sem ver o carro em direção contrária. Depois do estrondo, do choque violento, não viu mais nada. Só acordou após um mês em coma no hospital. Foram meses de internação, anos de sofrimento, fisioterapia, muita paciência e dedicação da mãe. Sua vida tomou um novo rumo, seus planos e sonhos da juventude ruíram e com eles o casamento.
Apesar da solidão e o silêncio que o acompanham no vazio da tarde que finda, sente-se feliz por estar vivo. Tem consciência de que superou o trauma que o abalou. Existe algo muito importante para impulsioná-lo: a capacidade de pensar e a habilidade que não foi afetada, habilidade de pintar. A pintura é sua vocação desde menino. Pode praticá-la, aperfeiçoar seu talento. “Nunca é tarde, quando se tem esperança”:- murmura para si com ar satisfeito.” Sente-se um obstinado e um desafiador. O grande mistério está à sua frente, é a sua própria existência. Aceita o desafio, o enigma. Contemplá-la com inquietação e angústia passou a ser muito importante.
O tempo andou depressa como um filme cinematográfico que se rompe. As imagens se atropelam em inevitável confusão.
Todos os pormenores lhe voltam à memória agora, os beijos de Marina, seus sorrisos, a maneira como se aproximava e lhe abraçava. Dias felizes, os únicos dias bonitos de sua vida, tão depressa desvanecidos.
Aciona o botão da cadeira de rodas e se aproxima do cavalete. Fixa o olhar no quadro.
Os cabelos pretos caem sobre os ombros nus, os olhos se encontram com os seus e parecem mirá-lo com admiração. Aproxima-se mais. É ela, é Marina, a mesma Marina que o amara tanto. Excita-se. Gotas de suor escorrem-lhe na testa, as mãos tremem.
Fortes batidas na porta o sacodem. Arregala os olhos. “Pode entrar- “– fala contrariado
A governanta entra trazendo na bandeja um copo de suco e uma torrada.
“Vim trazer seu lanche” –ela diz.

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