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Conto
 
(IN) FELIZ ANO NOVO
Por: ROSANGELA MALUF


No primeiro dia do ano aquela cidade amanhecera chuvosa, cinzenta e fria. Ninguém nas ruas, nenhum ônibus àquela hora da manhã e raros carros circulavam por ali. Ventava um pouco e aguardando um taxi, ela não conseguia chorar, nem sentir raiva, mas uma indiferença doída que lhe apertava o coração.

Não demorou muito parou em frente ao Hotel B. Naquele abrigo de ônibus esperaria pela van que seguiria em direção ao aeroporto. Ninguém na rua àquela hora da manhã. M. era a única pessoa na avenida W. e ainda faltavam 45 minutos para a próxima saída. Um gosto horrível na boca, gosto de decepção, um misto de frustração, impotência e desencanto. Profundo desencanto. A noite havia sido longa, insone, mesmo sendo réveillon. Noite triste, cheia de medos, incertezas e dúvidas.

Uma discussão, uma cena horrorosa, farpas atiradas para todos os lados, ódios contidos, mágoas acumuladas e justo na última noite do ano, o tsunami varreu seu coração, inundou sua mente e levou nas águas barrentas todos os sonhos e planos imaginados para o novo ano. Na tv, sem som, pessoas festejavam na praia suas alegrias brancas. Os sons da meia noite se ouviam , ao longe.

A caminho do aeroporto, só, absolutamente só , vieram as lágrimas que desceram feito cascatas. Auto piedade era um sentimento deplorável: pena de si mesma? não, era de matar ! Mas o tempo continuava chuvoso , as estradas continuavam vazias, seu coração doía em silêncio e tudo era cinza e tudo era tão triste!

No aeroporto, poucas pessoas, pouquíssimas. Primeiras palavras do dia. Check-in. Longa espera, pensamentos desconexos, sono, mágoa, rejeição e uma tristeza arroxeada e lilás. M. comprou revistas, um livro, palavras cruzadas. Esperou, esperou e subiu finalmente para a sala de embarque. Colocou a bolsa no banco, deitou e cochilou por pouco tempo. Tomou um café mas apesar da fome, nada comeu. O gosto ruim permanecia na boca e uma sensação ainda pior, no coração.

Voo atrasado, M. leu no painel. Voltou às palavras cruzadas mas não conseguia se concentrar; pegou uma revista e só via as fotos, os pensamentos surgiam como cenas de um filme, sem controle. Fechou os olhos, e respirando lentamente, contava seis tempos para inspiração e seis para expiração. O coração voltou a bater normalmente, o suor das mãos foi secando e M. foi, pouco a pouco, voltando ao normal.

Não dormiu na viagem, só chorou!
Na outra cidade havia raios de sol, mas nuvens carregadas anunciavam temporal no final da tarde. Sozinha em casa no primeiro dia do ano. Geladeira vazia, casa vazia, cama vazia e o coração vazio de tudo. As festas de final de ano. Sozinha outra vez, sem ter o que fazer, envergonhada de dizer “voltei” e, de novo, aquele aperto...

Abriu a valise de couro e desdobrou o vestido novo que seria usado no aniversário do amigo dele; o presente que seria dado após a ceia da meia noite para ele ; a lingerie amarela que daria sorte, aos dois, no novo ano; o enfeite para o quarto do primeiro netinho dele; a rolha do champagne tomado com alegria na noite anterior; o perfume usado na noite fatal lhe agora lhe dava enjôo (nunca mais aquele cheiro); roupas novas para a viagem de dez dias, com ele; viagem programada, roteirizada, organizada por ele; joias resgatadas pouco antes das festas para serem usadas com ele. E agora ?

O que fazer durante todos esses dias, todo esse tempo em que estaria de férias? Nada . O que pensar do que aconteceu, como foi mesmo que tudo desmoronou daquele jeito? Nada! Como pessoas adultas se entregam assim, ao descontrole? Como é possível não considerar, ainda que sob tensão, tantos anos de convívio? E agora, fazer o que? Telefonar? Mandar um recado ? Não, a dor era imensa e nela não cabiam alternativas.

Tomou um café , um banho, um remédio para dormir; um cd de ópera, pavarotti e una furtiva lácrima. O gato se enroscou em suas pernas e adormeceram, assim, os dois, até o outro dia de manhã, bem tarde.


Quando acordou já era o segundo dia do ano novo.

E não havia sol.

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