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Conto
 
MOÇA FEIA
Por: ROSANGELA MALUF


Moça feia vivia calada e não sorria nunca.

Não havia banda que tocasse pra ela, nem telefone que chamasse por ela. Não havia ninguém que suspirasse por ela, nenhuma fotografia sobre seu aparador, nenhum cartão postal enviado.

Flores, não recebia nunca. Bombons, ela mesma os comprava nas lojas americanas. Perfumes, só com cheirinho de bebê, imagina! Bijouterias, nem pensar, davam-lhe alergia, coçava, coçava. Roupa nova era um bem supérfluo, nunca achava necessário comprar nada. Usava um enfeitezinho só, um elástico com flores azuis, no cabelo. Sapatos? um único par além de duas sandálias, um par de tênis surradinho e havaianas, marrom.

Em casa, sempre metida no mesmo moletom, o “Brotoeja!
Em malha bege, com bolinhas vermelhas, daí o apelido carinhoso. Bicho de estimação, um elefantinho de pelúcia, branco e cinza, muito sujo, presente de natal ganho em uma festinha de amigo oculto com a turma do hospital, há uns seis anos atrás.

Moça feia sempre dormia com os cabelos presos. Era uma juba farta, crespa, de um castanho indefinido, sem vida, sem brilho que só aumentava de volume durante o sono. Desde muito cedo Moça feia amarrava um lenço de modo a formar duas pontas no alto da cabeça e ao lenço, chamava, “helicóptero” que parecia mesmo ter hélices próprias.

Salão de beleza não lhe atraía. Não tinha nunca dinheiro sobrando e além do mais sentia-se intimidada com todos os olhares voltados para ela. Nenhuma vaidade: não pinçava as sobrancelhas, não se depilava, mantinha as unhas, sempre curtinhas, sem esmalte. Informando-se em revistas femininas, aprendera a usar hidratante sem perfume no corpo e no rosto, filtro solar, nada mais. Ah, havia um batom, de um rosa desmaiado que de tão antigo, encontrava-se ressecado. Moça feia não oferecia mesmo a menor ajuda à natureza!

Moça feia era assim, não gostava de nada, nada lhe dava prazer, sempre indiferente, tanto fazia se o rio corresse pra baixo ou pra cima. Não fumava, não bebia, não jogava buraco. De casa, não saía, sem companhia, aonde ir? Tudo era perda de tempo. Se fizesse frio, poderia pegar um resfriado, se estivesse um lindo dia de sol, poderia fazer baixar sua pressão. De suar não gostava, transpirar lhe dava nojo. Bom mesmo era chegar em casa no final da sexta feira, depois do trabalho. Um banho quente e demorado, lavar os cabelos, assistir a novela das oito e comer uma caixa de sonho de valsa – sozinha!

Após sua novela preferida, mudava de canal e se emocionava com as tristezas contadas pelas pessoas simples, naquele programa de auditório, onde a moça loura procurava resolver todos os problemas, juntava casais, oferecia emprego, pedia casas, cadeiras de rodas, viagens de volta pra casa. Moça feia adorava. Algumas vezes secava com a manga do “brotoeja” uma lágrima que teimava em descer. Tinha aperto no coração quando ouvia a tristeza dos outros, lembrava-se da sua própria desdita.

Sabe quantas caixas de bis Moça Feia consumia enquanto via seus programas preferidos? Quatro caixas! Fazia assim, duas barrinhas de chocolate preto + duas barrinhas de chocolate branco. Os papéis laminados iam-se juntando no chão, ao lado do sofá. Com que prazer recolhia todo o lixinho e levava para a cozinha, antes de escovar os dentes e dormir. Fazia suas orações, agradecia a Deus por tudo e não pedia nada, que fosse feita a sua vontade. Era assim que lhe haviam ensinado no catecismo. Guardava o terço de madeira sob o travesseiro e sonhava com lindos rostos das atrizes da tv.

Moça feia era mais só do que triste. Triste de dar dó e só de fazer pena. Não tinha ninguém e nem procurava por novas amizades. Não cultivava as poucas que já possuía. Gostava mesmo de ser só. Solidão, poucas amigas. Ninguém para dividir a casa, a despesa, a faxina, os consertos, os reparos, os comentários maldosos, assuntos sobre sexo, nada.

Do seu mundo real para o mundo fictício havia uma ponte chamada leitura. Moça feia adorava ler; jornais ,folhetos das agências de turismo, revistas, livros que comprava no sebo, tudo que lhe caía nas mãos. Quando o tempo começava a esfriar e o inverno ameaçava com as temperaturas mais baixas, levava seus livros para o parque e lá passava suas manhãs de domingo se empanturrando de chocolate branco e tomando toddinho.

Uma coisa levava aquela moça a gastar um pouco, revistas de viagem. Encantada com tudo que nunca poderia conseguir, ela percorria, na imaginação, cada um daqueles países que lhe eram apresentados e sonhava, um dia, viajar, sozinha. Mas carecia de coragem, era muito insegura e medrosa, a Moça feia.

De tudo Moça feia cuidava sozinha. Não recebia ninguém. Raramente a visita de uma colega lá do hospital. Entretanto, a casa da Moça feia era uma surpresa. Limpa, bem cuidada, tapetes coloridos, inclusive na cozinha e no banheiro. Toalhas de banho azul turquesa, combinando com azulejos antigos, também azuis e brancos! Muitos anjinhos, fadinhas, santinhas cuidadosamente distribuídos em sua estante, na sala. Peixinhos coloridos, na cortina de plástico. Coraçõezinhos na saboneteira.

Na borda interna da janela longa fila de vasinhos de suculentas, uma espécie de cactus. Por tudo isto gostava imensamente dos seus banhos no meio da tarde. Era um ritual gostoso: a água bem quente, os pequenos arco-íris que se formavam com os raios do sol, o cheiro bom dos sabonetes, shampoo e cremes. Nesses momentos Moça Feia sentia-se contente. Para o banheiro levava um rádio e cantava músicas sertanejas, belas histórias de amores não correspondidos e canções sobre a esperança.

Ao longo das janelas da sala espalhava vasos de begônias. Contentava-se com seu pequeno jardim, suas pequenas floreiras. Com prazer regava, antes de dormir, um por um todos os vasinhos. Quando as plantinhas minguavam, Moça feia as substituía por outras e colocava os mais feiosinhos na área, para que se recuperassem. Violetas, muitas violetas, de todos os tons. Sorria e achava lindo colocar em ordem, assim, da mais escura, de um roxo bem escuro, até o branco, passando pelos lilases e rosas. Passava tempo mudando a ordem dos vasinhos!

Moça feia não se olhava no espelho pois sempre encontrava novos defeitos. Além do mais tinha o péssimo hábito de se comparar às suas amigas do hospital - e frequentemente perdia para todas elas. Vivi não era bonita, mas os rapazes do laboratório diziam que tinha pernas lindas; Elisa também não era bonita, mas os cabelos bem cuidados, longos, escorrendo costas abaixo, eram lindos, muito lindos; Nina desfilava uma cachoeira negra, naturalmente ondulada; Clara era bonita por demais: rosto, corpo, estava sempre de bom humor, alegre, sorridente, de bem com a vida, exibindo tudo aquilo que Deus lhe dera. Será que era mesmo Deus quem distribuía a beleza?

Moça feia ficava se perguntava o porquê das diferenças entre as pessoas. Gente branca, preta, amarela, marrom, tantos tons de pele. Cabelos pretos, brancos, louros, tintos ou não, ruivos...ah, os cabelos ruivos. Moça feia adoraria ter cabelos vermelhos, não deste ruivo que faz das mulheres, todas iguais. Mas aquele tom de vermelho dourado que ela via em filmes de época, presos em coques, meio soltos, caindo em mechas pelos ombros, exibidos nos decotes generosos dos vestidos antigos.

Dependendo do dia Moça feia sentia aquele calor de impossível controle. Respirava fundo procurando se lembrar de coisas boas, vividas há muito tempo atrás quando era ainda mocinha. Do Quim, o primeiro namorado, dos beijos e amassos sob a luz fraca no portão da casa da Vó. Durara pouco, é bem verdade, mas ela nunca mais se esquecera da sensação gostosa, das pernas moles, do coração a galope. Depois dele mais dois rapazes, com nenhum deles dera certo. Pouco duravam e deixavam mais tristezas que alegrias. E com todos eles, besos, solo besos, nada más.
Moça feia um dia resolveu pedir licença prêmio como funcionária pública que era. Concursada, tinha direito a uns tantos dias. Não diria a ninguém, não contaria nem mesmo para D. Flora, a quem confidenciava, às vezes, seus desejos mais secretos. Começou a folhear revistas de viagem, a passear pelos sites de turismos no computador do hospital e foi assim que começara a viajar, num tapete mágico capaz de lhe oferecer tudo o que mais desejava.

Moça feia, um dia, encheu-se de coragem. Mesmo com um frio na barriga procurou uma agência. Programou a passagem, o pagamento das taxas, reserva dos hotéis 3*** estrelas, fez passaporte mesmo podendo viajar com a identidade! Pegou todo o saldo da caixa econômica, começou a comprar uma coisinha daqui, outra dali – o suficiente para não fazer feio lá fora. E Buenos Aires passou a ser sua meta, seu rumo, a realização de tudo com que não ousara sonhar antes.

Sua vidinha medíocre iluminava-se com alguns poucos raios de esperança, de alegria, de felicidade; era mesmo como se o sol penetrasse em seu quarto escuro.
Para quem, na vida, sempre arriscara muito pouco, Moça Feia se saía bem. Com um mapa na mão admirava a largura da Avenida 9 de julio. Do outro lado via a imponência do Teatro Colon. Estava em frente à estação Carlos Pellegrini, mas resolveu não pegar o metrô. Faria, em seu primeiro dia na capital portenha, um passeio pelo centro, downtown, como estava escrito no mapa, em inglês. Com vergonha de perguntar alguma coisa, resolveu fotografar o Obelisco e depois seguir pela mesma rua.
Las callecitas de Buenos Aires tienen un no sé qué – dizia a letra de um velho tango e, respirando fundo, enrolou no pescoço o cachecol que ela mesmo tecera, voltou a colocar seus antigos óculos escuros e com o mapa na mão e a câmera digital na outra, entrou na Av. Corrientes, aquela mesmo do 348!
Foram 4 dias só, quatro dias, mas que lhe pareceram um mês.

Descobrira-se capaz de se virar sozinha. Descobriu cafés interessantes, antigos e lindos; livraria imensas, completas, cheias de gente bonita; monumentos do século XVIII, exemplos da arquitetura colonial argentina; bairros antigos com suas ruas de pedra e edifícios centenários; feiras de artesanato, shoppings de luxo, as tiendas mais populares; futebol, tango e comida, vinho tinto barato e bom.

A Plaza de Mayo, a Casa Rosada, el Cabildo, a catedral, o Banco das nações, andando pelo bairro de Montserrat conhecia o cenário principal da vida política argentina e na Av. de Mayo admirava os hotéis, teatros, bares e livrarias – sempre livrarias em qualquer rua de qualquer bairro. Continuou até o Congresso. Depois passou o resto da tarde em Santelmo, o mais antigo bairro da cidade que ainda mantinha seu ar colonial, com seus artistas e artesãos, muitos músicos com seus bandoneóns, galerias de arte (não entrou em nenhuma delas), e voltaria no domingo para conhecer a feira de antiguidades.

Da Recoleta quis conhecer o cemitério. Ficou com os olhos cheios de lágrimas ao visitar o túmulo de Evita Perón. Uma santa ! Pegou um taxi (preços excelentes) foi conhecer o Caminito, tirou fotos, comprou um cd de tangos, e pediu que o motorista lhe deixasse em Puerto Madero para comprar ingressos para o show de tango, à noite. Era tão simples ser feliz, moça feia pensou ! Voltou andando, caminhando por las calles, seguindo o mapa, ao som de violinos e bandoneóns.

Moça feia voltou renovada. Começou a olhar a vida com mais carinho e para si mesma com mais amor. Fazia planos, queria se sentir melhor, ficar mais bonita, sair do seu mundinho e se lançar por aí. Boba ela não era, só feia. Mesmo assim iniciou uma grande reforma em sua aparência física, o pessoal do laboratório se perguntava o que poderia ter acontecido de tão sério, capaz de tão grandes transformações.

Ficou mais colorida, cortou os cabelos, se permitiu maquiar olhos e bocas, esmalte vermelho nas unhas – de onde saíra aquela nova mulher? Em qual baú estivera por tanto tempo guardada? Ela mesma se admirava no espelho e festejava a grande mudança. Um tsunami havia passado por ela. Moça feia estava de bem com a vida e menos feia do que nunca.

Naquele final de noite, ao chegar em casa, um cartão postal:

“Eu estarei em Brasil próxima semana. Deseo ver-te. Besos. Ramón. “

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