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Conto
 
Conto das pulgas
Por: Marlene A. Torrigo

Por esses dias surpreendi-me pensando no que aconteceu com as pulgas. Elas sumiram e não me dei conta de tão grande acontecimento. Sabe aquelas pulgas que saltavam longe e veloz? Pois bem, sumiram! Pelo menos no meu planeta não tem mais. E faz tempo. Sim, tem as pulgas de bichos, mas não são aquelas mesmas pulgas marronzinhas que pulavam a uma distância duzentas vezes maior do que o cumprimento do seu corpo.
Puxa, elas sumiram mesmo. Antigamente era só sair às ruas que voltávamos para casa com uma danada sugando ávida o nosso sangue. Uma picada e a manchinha na roupa denunciavam a agressora. No trabalho, na escola, nos coletivos, nas festas, nas aglomerações, onde tivesse sangue vivo as devoradoras faziam a festa. Suas picadas provocavam forte comichão. Escondiam-se nas tramas de cobertores, tapetes, assoalhos de madeira e sofás, sempre à nossa espreita.
Se não exterminássemos uma única pulga, não tardava teríamos gerações e mais gerações de sanguessugas minúsculas na casa toda. Quanto mais famintas mais as atletas olímpicas quebravam o recorde do salto sem vara. Lembra o meu leitor, que amiúde passávamos noites em guerra com as danadas? Apanhá-las no meio da madrugada era um desafio. Elas bóim, bóim, saltando desesperadas, deixando-nos malucos por não nos deixar dormir.
Pobres criaturas, foram exterminadas pelos exterminadores de pulgas. Deve ter sido o uso exacerbado de inseticidas que as dizimou. Tão pequeninas e indefesas eram contra nós. E como éramos cruéis com as pobrezinhas quando conseguíamos pegá-las! Lembro que a mamãe as espremia assim ó, tlec, entre os polegares, sem dó nem piedade. (E que Deus mantenha a mamãe no céu morninho, sem pulgas!).
Mas não tinha como ser diferente numa situação onde éramos a caça. Eram elas ou nós. Da mesma forma como tem que ser os ratos ou nós, os carrapatos ou nós, os pernilongos ou nós, os corruptos ou nós, os malfeitores ou nós... Tudo de acordo com o estigma da vida sobre fracos e fortes. É bem por aí.

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