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José-Augusto de Carvalho
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FANTASMAS DA MEMÓRIA * Na Linha Ferroviária do Sul
Por: José-Augusto de Carvalho

1.
Todas as semanas fazia aquelas viagens nocturnas: sexta-feira à noite para baixo; domingo à noite para cima. Ia e vinha no então chamado comboio-correio. Sem pressas, este comboio parava em todas as estações e apeadeiros. Era reduzido o movimento de passageiros subindo e descendo, mas era um tanto agitado o movimento de mercadorias. Eu sempre estava atento quando, no sentido descendente, chegava à estação de Casa Branca: aí era a corneta anunciando a partida iminente do comboio e logo após o aviso gritado --- partida para o Algarve! Toda a gente, respeitando a orientação Norte-Sul, dizia vou para cima ou para baixo.
Nas noites de luar, quando em sentido descendente, eu ficava olhando o exterior, logo à saída da Estação Ferroviária de Casa Branca. Sentia um fascínio muito grande pela ribeira de Papa Galos e pelo rio Xarrama. Daí o meu persistente desejo de ver e rever as suas águas quando o comboio os cruzava. A ribeira de Papa Galos, cujo curso vai de Ocidente para Oriente, é afluente do rio Dgebe e este é afluente do Odiana, o meu muito amado Odiana, rio mítico onde mais tarde seria construída uma barragem que é ou será o maior lago artificial da Europa --- a Barragem de Alqueva. A Barragem de Alqueva é uma das esperanças de uma significativa área do Alentejo devido à irrigação que pode proporcionar. O Xarrama corre de Nordeste para Ocidente e é afluente do Sado, rio inteiramente transtagano, que vem da Serra da Vigia, a Sul, e faz o seu trajecto para Norte até mergulhar no Oceano na nossa perdida Setúbal. E digo nossa perdida Setúbal como cidadão transtagano. Esta linda cidade marítima foi extorquida ao Alentejo, vá lá o Diabo saber o porquê, mistério insolúvel / aberração instalada que parece ninguém incomodar, da lavra de iluminado(s) que não sei identificar --- ah, as coisas que eu não sei! --- até porque Setúbal continua capital de um distrito que inclui vários municípios transtaganos.
No sentido ascendente, quando regressava a Lisboa, sentia o mesmo fascínio pelas águas. Quando comboio partia da estação de Viana, ficava esperando pelo Xarrama. Tantas saudades daquelas águas, nas quais ensaiei as primeiras braçadas da minha incipiente condição de nadador e alimentei o meu sonho irrealizado de marinheiro! Logo a seguir à estação de Alcáçovas, lá estavam as águas da Papa Galos me esperando…

2.
Dizia-me um amigo e primo já falecido: oh, parente, tu tens uma situação mal resolvida com o Guadiana e tanto assim que insistes em chamar-lhe Odiana.
Eu olhava-o, sorrindo. Quando ele nasceu, eu tinha quase dez anos. Andei com ele ao colo. Ele sabia o muito carinho que eu tinha por ele. E pacientemente eu lhe respondia sempre o mesmo: parente, tu sabes que eu tenho uma predilecção por Espanha. Tanto assim é que, em Espanha, eu nunca me senti estrangeiro, apenas sinto estar numa terra vizinha da minha. Afinal, para cá dos Pirenéus, nós somos todos Iberos ou Hispanos e muitos outros de nós ainda sefarditas e/ou andalusis, mas eu não gosto nada de imposições e submissões. Em Portugal temos várias palavras com a mesma raiz: Odiana, Odeleite, Odemira, Odivelas, etc. E diz quem sabe dessas coisas da etimologia que a palavra árabe Uad (curso de água) entrou no português como Ode e no castelhano entrou como Guad. Em rigor, o português Odiana ou o castelhano Guadiana significa Rio Ana. E também sabemos que a palavra castelhana Guadiana entrou (à força?) no idioma português depois de 1580, data em que perdemos a independência. Ora, eu até posso entender que durante os sessenta anos de soberania espanhola tivesse ocorrido esse desmando, mas já não entendo o porquê desse desmando de soberania espanhola prosseguir e se enraizar desde que recuperámos a independência nacional, em 1640. Passaram centenas de anos e continuamos assumindo uma palavra estranha e simultaneamente desprezando e relegando para o arquivo dos arcaísmos a nossa muito nossa palavra Odiana.

3
Os anos passaram. Agora, definitivamente nas pátrias terras transtaganas, mais só e chorando as perdas inerentes à nossa condição de existência efémera, perco-me e encontro-me nas recordações. Sei que sem memória nada somos, sei-o por experiência. Igualmente sei que muita gente vai considerar saudosista este texto e outros semelhantes. Não penso assim. Textos deste género apenas fixam no papel momentos de uma existência. Momentos merecedores de respeito, de compreensão e consideração, pela meridiana razão de que a vida merece respeito, a vida em si mesma. O que fazemos da vida ou o que fazemos na vida são patamares diferentes, estes passíveis de outras leituras, de outras interpretações, de outros juízos de valor.


José-Augusto de Carvalho
28 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal

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