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Walquiria Rocha Machado
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Racista? Eu???
Por: Walquiria Rocha Machado

Fazem muitos anos que eu guardo estas imagens dentro de mim,e me incomodo muito com elas... ah se eu pudesse apagar este dia tão infeliz da minha vida e seguir com ele excluído deixando apenas o preconceito de outras pessoas ao longo desta história e jamais o meu... eu já perdoei diversas vezes o preconceito que foi demonstrado com o meu filho, mas o meu eu mesma nunca me perdoarei...

Morava em um condomínio de alto padrão e com pessoas de um poder aquisitivo muito grande, eu era e sempre fui muito simples e de fácil amizade... Meu filho do coração por ter uma cor mais escura que os outros, sempre foi uma razão incontrolável da minha fúria contra os que demonstrassem algum gesto de preconceito... mas era inevitável... nas ruas no supermercado, nas festas... eu sentia os olhares de indagação e muitas vezes peguntavam meio que camuflado quem era ele quando o ouviam me chamar de mãe.

Ele sempre foi um filho de abraçar muito... de me beijar... me apertar até chegando a me incomodar em qualquer lugar que estivéssemos, fazendo crescer o olhar das pessoas em volta... Passamos eu e ele por vários constrangimentos, em situações diferentes... eu cheguei a discutir perdendo a linha durante alguns anos da infância e juventude dele, depois tudo ficou normal... hoje ele é adulto casado e ele mesmo resolve dentro dele e fora dele estas situações...

Mas o que me faz escrever esta história é um sentimento de raiva de mim mesma que nada apagará... Meu filho tinha exatamente dez anos e eu estava entrando no condomínio de carro quando ele me diz para parar e dar carona a um amigo dele que andava de skate... o menino era negro e estava de bermuda, todo suado e com a camiseta amarrada na cabeça como se fosse bandana , com os tênis amarrado na cintura pelo cordão, joelhos sujos e o rosto marcado pelo suor escorrido e empoeirado...ele também aparentava ter os mesmos dez anos...

Abri a porta do carro e ele entrou sem cerimônia cumprimentando meu filho com aqueles soquinhos de mão fechadas que até hoje eu acho uma graça... e assim seguimos ... Sobe rua desce rua, passa a pracinha, o campo... e chegamos... Fico embasbacada com a imensidão da casa... esquina inteira de uma mansão, cercada de jardins, com direito a um paisagismo espetacular... de fora se avistava através da vidraça exuberante uma parede de quadros que eu sabia serem uma obra de arte e estátuas parecidas com as de exposições... olhei rapidamente tudo e respondi ao agradecimento do menino que entrou por aqueles jardins e sumiu através das flores...

Sigo com o carro lentamente e olho para o meu filho que ainda sorria com a despedida e lhe pergunto: Este seu amigo é filho do caseiro?... Ele me olhou com um olhar tão fulminante que eu nunca mais esqueci me dizendo..."Mãe, ele é o fulano de tal "FILHO "do fulano que é o homem mais rico deste condomínio...o pai dele é dono da empresa tal, a maior e mais importante que alguém possa conhecer" , e você me pergunta isso... você está fazendo com ele o que sempre fizeram comigo...

Vinte cinco anos já se passaram... e esta vergonha eu nunca vou esquecer... vergonha de que eu também fui igual a todo mundo achando que aquele menino descalço e suado com o calor do sol de verão, correndo pelo condomínio livre como qualquer menino de dez anos que joga bola se suja e não tem pudor para isso, não pudesse ser filho do dono de uma mansão tão espetacular como aquela pelo simples fato de ser negro...

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