A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

 
Conto
 
Ana Maria, a impiedosa
Por: Marlene A. Torrigo

A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe. (Charles Chaplin)

Uma fatura vencendo e Ana Maria precisava pagá-la com urgência. Iria à lotérica em horário de trabalho, perto do hospital onde era enfermeira. Ela foi. Passaria quase perto do trabalho do marido, uma ramificação de uma empresa multinacional. Pensou em pegar o carro na garagem do hospital, mas decidiu caminhar um pouco. Precisava se exercitar. Cortou caminho e já próximo da lotérica, numa rua movimentada de carros, ela viu mais à frente, do outro lado, um casal abraçado de maneira quase obscena. Mais alguns passos ela achou o homem em mangas de camisa, muito parecido com seu marido. Ora, que loucura! Imagina, seu marido... Ana Maria desviou o olhar do casal por alguns segundos, só que à medida que se aproximava achava o homem mais parecido ainda com seu marido. Mais alguns passos... Era mesmo seu marido! Marido de trinta anos de casados, agarrado publicamente com uma moça com pelo menos metade da idade dele. Mais alguns passos ela emparelhou com o casal. Ana Maria não creu no que via. Ali, na sua frente, seu marido, seu santo, seu sinhô, seu rei, seu deus, comportando-se como um adolescente. Em estado do choque, sem olhar para os lados, não sendo atropelada por pouco, ela atravessou e parou na frente do casal. Ao vê-la o homem se soltou da moça. Ana Maria o pegou firmemente pelo ombro, bem junto ao pescoço, e disse: - Puxa, você aqui? Nunca mais apareceu lá em casa.
A moça perguntou: - Quem é essa?
Ana Maria respondeu: - Não se preocupe, meu bem. Eu sou irmã dele. É que esse meu irmão desnaturado não aparece em casa e a mamãe está doente. Ele sabe disso, mas não aparece de jeito nenhum. Vê se aparece, viu Fernando? A mamãe tá morrendo de saudade.
A mão dela em garra apertava, apertava, apertava, as unhas ferindo, mas ele não se mexia. O pobre, tartamudo, tecnicamente infartado em pé, petrificara. Gentil, Ana Maria se despediu, dirigiu-se à lotérica, pagou a conta e retornou ao trabalho. Tristíssima, contou tudo para uma amiga que a orientou a ir para casa, mas ela preferiu terminar seu turno e, mesmo em estado de choque, encaminhou-se ao outro hospital onde daria plantão até às nove horas da noite. Quando retornou para casa, encontrou a mesa do jantar belamente posta. Fernando caprichara. O casal - que tinha dois filhos casados, um filho cada um, e uma filha fazendo intercâmbio cultural no Canadá - morava sozinho. Tremendo cara de pau, Fernando perguntou: - Você está cansada benzinho?
A mulher não respondeu e se dirigiu pra cozinha. Foi aí que começou a divina comédia humana. Ela abriu a gaveta de talheres, pegou uma faca enorme e foi pra sala de jantar. Calada, de arma em punho, investindo para o marido para que ele não se aproximasse, puxou a tolha da mesa e o belo jantar foi parar no chão. Surtada, dirigiu-se ao quarto, trancou a porta, pegou todas as roupas dele e as danificou com uma tesoura. Fernando tinha que trabalhar de terno, roupas caras e elegantes, de grife, mas Ana Maria não teve dó, tesourou tudo, também as camisas e as gravatas. Ela comprara tudo, ela destruiria tudo. Sempre armada, colocou as roupas agora imprestáveis dentro de sacos de lixo, abriu a porta da sala e pediu da que ele se fosse. Fernando ajoelhou, implorou, pediu mil perdões, fez drama shakespeariano, mas não teve jeito. Ana Maria o intimou: - Ou você sai ou eu faço um escândalo tão grande no condomínio que todos vão saber o canalha que você é. Eu tirei fotos da sua sacanagem. Se você não sair agora eu vou espalhar as fotos pelo mundo todo. Eu, trabalhando em dois empregos pra ajudar os nossos filhos e você me traindo? Poderia ter me trazido doenças, se é que não trouxe. Meu Deus! Fora canalha, fora! Sai daqui, agora!
E foram essas as últimas palavras suas dirigidas ao marido. Fernando entendeu que naquele momento o melhor seria ir. Transtornada como a mulher se encontrava, ela bem que poderia fazer alguma besteira enquanto ele dormisse. Depois conversariam quando os ânimos se acalmassem. Mas não conversou nunca mais, que não fosse por intermédio do advogado dela. Seguiu-se um divórcio litigioso. Por fim, Ana Maria ficou livre. Casou-se novamente com um médico um pouco mais velho do que ela, e aposentada agora, viaja com o maridão por lugares fantásticos. Nesse momento que eu escrevo ela está no Egito, desfilando de mãos dadas, felicíssima, com seu príncipe encantado.
Quem me contou essa história foi a minha colega de trabalho, a mesma com quem Ana Maria desabafou após fraguar o marido traindo-a em publico. Ana Maria reagiu pétrea e implacável diante das súplicas palhaças do marido, que pediu socorro aos filhos para que intercedessem por ele junto a mãe. Pensar que fora uma esposa fiel e dedicada, que dava graças por ter sido presenteada com um homem maravilhoso, afinal, um marido que acompanha sua amada esposa ao culto é um bom marido. Entretanto, havia quem soubesse ser ele um tremendo mulherengo. Não ousaram lhe contar, tanto que ela o idolatrava. Enfermeira veterana na Saúde, ela sabia a desgraça conjugal que poderia gerar uma traição. Pensar que poderia ter adquirido HIV... Foi assim que deu-se a morte de um amor que todos julgavam eterno.
Passados quatro anos após o divorcio, Ana Maria não sente nem ódio nem amor pelo pai dos seus filhos. É-lhe ele indiferente. Quanto a Fernando, ele nunca se conformou com a separação. Desculpou-se muito, dizendo que foi um deslize ingênuo, que nunca acontecera antes, porém Ana Maria, a Impiedosa, não cedeu milésimo de milímetro da sua decisão de jamais perdoá-lo. O preterido, despeitado com a felicidade da ex-mulher, até hoje busca atingi-la. Ela? Nem te ligo! Quer mais é ser feliz. E como está sendo!

 Comente este texto

 

Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: PJWZ (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP será enviado junto com a mensagem.