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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Crônica
 
Repetir: a força do hábito
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA




Velhos hábitos nunca morrem. Repetir para não esquecer é um deles. Quantas vezes já não ouvimos isso? Ouvimos, mas não absorvemos, não colocamos em prática. Por que fazemos isso? Muitas razões poderiam ser apontadas para responder a essa pergunta. Imprevidência. Descaso. Ignorância. Enfim... A grande questão é que só nesse início de 2019 já nos deparamos com tragédias que são o mais puro reflexo da repetição.
Sim. Não é de hoje que o hábito em não cumprir as regras, em não seguir os avisos, em não respeitar as orientações,... culmina no pior. Há sempre algum ”esperto”, alguém que se julga acima do Bem e do Mal, para dizer não ao que é certo. E assim, todos nós vamos vivendo na corda bamba de decisões de terceiros que não se importam nem um pouco com a coletividade.
O pior é que não questionamos; não nos agitamos contra essa inércia, essa letargia inconsciente, essa passividade crônica. Talvez, para mantermos a pose de gente educada, que não gosta de atrito, que não se mete em confusão. Talvez, porque somos mesmo inertes, letárgicos, passivos. Talvez, porque não sabemos bem ao certo como nos defender diante das inconsequências do mundo. Talvez... Aí, o pior se repete mais uma vez. E eu me pergunto se não tivemos tempo para mudar essa atitude.
De novo envolvidos por uma atmosfera de dor asfixiante que repete a tristeza em um contínuo sem fim. Dorme, acorda, senta, levanta, e tudo parece querer extrair uma avalanche de lágrimas e soluços por gente a quem nem tivemos tempo e oportunidade de tecer algum laço. Padecemos de um sofrimento coletivo acima de qualquer lógica; um sofrer que transcende a propriedade daquele sofrimento. Então, nos unimos no efeito, na ocorrência da tragédia; mas, não pela busca de não mais sofrer.
Deveríamos estar atentos aos sinais de tantas outras tragédias anunciadas que nos espreitam diariamente. Deveríamos estar mais céticos às promessas, às desculpas, às iniciativas, às punições. Deveríamos estar arregaçando as mangas para descobrir um modo verdadeiramente eficaz de se aprender com as tragicidades da vida, e não nos baseando mais nas estatísticas fatais, nos feridos, nos deficientes, nos sobreviventes; afinal de contas, onde está a nossa empatia?
A despreocupação com o outro, com a vida humana é um ranço histórico. O instinto de sobrevivência que deveria se voltar em favor da espécie, não raras às vezes, se volta apenas para o indivíduo. Cada um por si... Daí a nossa empatia ser tão limitada, tão seletiva, tão desigual. Os laços estão cada vez mais esgarçados em nossos tempos pós-modernos, como se não tivéssemos tempo ou vontade de nos comprometer diariamente com o ser humano.
No livro Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago propõe uma sábia reflexão: “Se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nosso dito e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala”.
Então, se levássemos em consideração essas palavras, certamente, não teríamos que repetir para não esquecer. Viveríamos em tempos sem tanta dor, tantas lágrimas, tantas velas,... tantas almas sufocadas pelo vazio eloquente. Os corações estariam livres, leves e puros para celebrar a fraternidade em comunhão.

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