A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

ALESSANDRA LELES ROCHA
Publicações
Perfil
Comente este texto
 
Crônica
 
Em que máscara terá ficado perdida a nossa identidade?
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA


Pensando na teoria de Bauman (2011)1 sobre a construção das comunidades na Pós-Modernidade ou modernidade líquida, essas não necessitam mais do território, elas podem se mover e atingir diferentes públicos em diferentes lugares, elas de alguma forma contêm a solidão dos indivíduos participantes por alguns momentos, já que funcionam mais como um evento do que como rotina. Para esse fenômeno ele, então, as nomeou como comunidades de vestiários (cloakroom communities).
E por que pensar nisso em pleno Reinado de Momo, no Brasil? Ora, porque a formação da cloakroom community é visível, pois a população "se veste para a ocasião, obedecendo a um código diferente do que segue diariamente" (BAUMAN, 2001, p.228). "Alegria e tristeza, riso e silêncio, ondas de aplausos, gritos de aprovação e exclamações de surpresa são sincronizados - como se cuidadosamente planejados e dirigidos" (BAUMAN, 2001, p.228).
Dentro desse processo evita-se o surgimento de comunidades duradouras, na medida em que se espalham e desmembram os interesses de seus membros, ou seja, a possibilidade do surgimento de uma formação fixa é minada. As cloakroom communities são parte da desordem social, não uma maneira de resolvê-lo. Então, enquanto a comunidade se entrega a essa catarse anual, ela se abstém momentaneamente de pensar o custo disso nos trezentos e sessenta e um (dois) dias restantes e além.
No fundo, elas não conseguem mascarar, disfarçar ou ocultar o esfacelamento da nossa empatia social; na medida em que não são capazes de nos mover e agregar em prol daquilo que realmente é importante ou fundamental a todos. Desagregados socialmente os vetores se anulam e as soluções desaparecem e, por essa razão, as catarses tornam-se imprescindíveis à sobrevivência; ou seja, se estabelece um ciclo sem fim.
As cloakroom communities não passam de um subterfúgio para a crescente individualização humana e o esgarçamento das suas relações sociais, em tempos pós-modernos. Uma farsa que impede momentaneamente o distanciamento geográfico e social frente aos impactos causados por catástrofes e tragédias anunciadas.
Entre máscaras, confetes e serpentinas, por exemplo, não se pensa que em pleno século XXI pessoas de diferentes níveis socioeconômicos morrem de Gripe, Dengue, Febre Amarela, Sarampo e Meningite, apesar de todo o avanço científico e tecnológico na área da saúde, disponível até mesmo no Brasil. Ou sobre o sucateamento dos serviços públicos nacionais, os quais comprometem a própria segurança e alegria da folia carnavalesca. Enfim... Não se pensa no papel individual e coletivo da cidadania em favor da comunidade. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto... as cloakroom communities geram lucros em diferentes graus e naturezas.
Tudo isso, então, me faz perguntar: em que máscara terá ficado perdida a nossa identidade? Sabe, eu acho engraçado quando as pessoas arrotam personalidade e dizem por aí que fazem o que querem, imperando suas escolhas e decisões. Afinal, na maioria das vezes, isso só vale até a página dois da história; visto que, lamentavelmente, o discurso quase sempre não coaduna à realidade pós-moderna.
Vivemos tempos de pseudo escolhas, de pseudo verdades, de pseudo necessidades... pseudo existências, as quais transitam desconexas e confusas até serem conclamadas pelo desconhecido a compor uma cloakroom community.
Segundo Bauman (2001), na modernidade líquida “há muitas oportunidades tentadoras de experimentar identidades - sendo um tipo de pessoa hoje e um diferente no dia seguinte. Por outro lado, há pouca pressão para incluir a identidade étnica ou identidade religiosa neste mecanismo, porque agora todos estão em uma espécie de Diáspora hoje”.
Nesse momento, a humanidade alcançou, então, a máxima representação das palavras de Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente” 2. Tornamo-nos metáforas infinitas de nós mesmos para, quem sabe, sobreviver à fluidez, a liquefação feroz do mundo, nesse novo estágio da sua evolução.

1 BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. (Título original “Liquid modernity”).
2 PESSOA, F. Autopsicografia. Revista Presença, Coimbra, n.36, nov. 1932.

 Comente este texto
 

Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: dggb (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP sera enviado junto com a mensagem.