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Crônica
 
A fé de um homem
Por: Marlene Nascimento

"Se você for uma pessoa que busca realmente a verdade, é necessário que ao menos uma vez na vida duvide de todas as coisas, da maneira mais profunda possível." (René Descartes)

Nós, os que, intransigentes, muito duvidamos da fé sublime de um homem, de uma mulher, estamos absolutamente errados. Quando assim nos posicionamos de forma arbitrária, quando duvidamos da confiança no credo do outro em qualquer lugar do mundo, estamos agindo irracionalmente, reconheçamos.

Não dando ênfase à religiões, a fé de um homem é tudo o que ele possa ter; é sua vida, seu sol, seu mestre, seu guia, seu porto seguro, seu bem estar, seu passaporte para o direito de praticar o bem tão somente.

Os temíveis e terríveis segredos da natureza humana, que tantos transtornos psíquicos causam à mente, são benditos para os que creem, pela certeza que Deus prepara os caminhos pedregosos dos seus filhos para algo sublime além da vida. É em isso que um homem que tem fé acredita acima de qualquer suspeita. É em isso que ele se alicerça, é em isso que ele trilha sua honra enquanto um ser vivo, é em isso que ele pratica maravilhas.
Quem tem fé tem esperança. Quando um crédulo tem uma crença, quando ele se alavanca na sublimidade da vida por seu credo, isso não é algo com que se desconfie, que se faça troça.

Excetuando-se os extremistas religiosos, esses seres abomináveis, psicopatas que praticam atrocidades em nome de um deus qualquer, e àqueles cuja fé cega os torna alucinados perante os benesses da vida (vide parábola bem humorada no final do texto), todas as gentes simples, todos os homens que não duvidam de um Bem Maior - ao contrário desta incréu que aqui vós escreve, desta Tomé que diz crer em tudo e não crer em nada-, precisam ser enormemente levados à sério.

A fé não consiste em conquistas pela dor e sofrimento. Para crer não basta ter fé. A fé requer inteligência. A fé não é um sentimento cego de luz, de sabedoria. A altivez da crença está em estudá-la pelo desejo de entender e ajuizar se os seus propósitos consistem em verdades, se podem ser aceitos ou contestados. Para crer não basta ter fé. Onde não há sabedoria, não há reflexão; há apenas o crer por crer.

* A parábola do moribundo jeremiando com Deus

"- Deus, por quê me desamparaste?
- Mas não vós te desamparei, filho meu.
- Desamparou sim. Veja o estado deplorável em que me encontro. Eu era um homem bonito, saudável, vigoroso. Os médicos me desenganaram. Estou à beira da morte.
- Mas, filho, eu vós enviei um anjo para avisar que buscasse tratamento médico o mais rápido possível, para que realizasse exames clínicos de prevenção, lembras?
- Senhor Deus, que anjo? Nunca o vi.
- Lembra daquela mulher que te orientou a realizar os exames e você a ignorou, até a tratou mal? Pois bem, ela era o anjo que te enviei. Lembra daquela dorzinha inconveniente no peito que você sentia e não se incomodou e um outro anjo te alertou para buscar socorro médico urgentemente, e você também o ignorou?
- Como eu poderia saber, meu Deus?
- Inteligência é o que falta aos homens cuja fé cega rejeita e ignora conhecimentos. E você lembra que por fim, com o aumento da dor, você foi ao médico e ele te mandou realizar exames e lhe ministrou alguns remédios? Você fez todos os exames?
- Não. Confesso que apenas realizei os de sangue.
- E você tomou os remédios direitinho, de forma contínua?
- Não. Só os tomei por poucas semanas.
- Pois bem, e o que que fizeste então? Com a dor aumentando correste para a igreja e imploraste por mim.
- Sim. Foi isso que fiz. Eu cri que o Senhor me socorreria, me curaria.
- Eu te escutei, e enviei dois anjos à sua casa para que se apresentasse urgentemente no posto médico porque seu exame de sangue apresentara alterações. Você foi?
- Ai, não fui. Eu estava tão ocupado e...
- E argumentavas que médicos, enfermagem e toda cambada de hospitais não sabem de nada e remédios não servem para nada. Apregoaste aos quatro cantos que a tua fé te salvaria, ignorando os anjos que te enviei. Entendeu que paliativos ensinados por comadres e compadres te curariam. Aí, Eu, o teu Deus Todo Poderoso, pesaroso do que enfrentarias à frente, enviei uma equipe da Saúde à sua casa novamente, numa tentativa colossal de alertá-lo do seu estado critico de saúde. Novamente você, bronco, teimoso, tinhoso, recusou qualquer ajuda. Numa última tentativa de conscientizá-lo, anjos hospitalares te ligaram e você os atendeu rispidamente, em nada educado. Mesmo assim, os meus anjos educadamente pediram que comparecesse à consulta médica com a mais absoluta urgência. Você foi?
- Não, não fui meu Deus. Eu confiava plenamente em ti.
- Confiava em mim... Eu atendia prontamente todos os teu pedidos e você os ignorava. Asnos são assim mesmo. E dizias que estavas (falsamente) melhorando com os paliativos de leigos, que estavas se sentindo bem, que médicos não sabem de nada, que medicamentos não são confiáveis, que a fé é que cura.
- Mas a fé cura, Senhor! Ela move montanhas.
- Quando o meu dileto Filho disse que a fé move montanhas, era pra você se mover da tua casa em busca de tratamento, seu asno! Entendeu agora ou queres que eu desenhe? A fé cura sim, mas devia curar sua burrice também e não a curou. Sabe filho, um médico estuda incansável, unicamente por esforço dele? Não. Ele consegue ir até o fim porque estuda exacerbadamente e seus pais pedem amiúde forças a Mim para que seu filho consiga formar-se médico. Os engenheiros hospitalares quebram a cabeça para sofisticar mais e mais os complexos aparelhos de exames clínicos, e também, são os cientistas químicos que descobrem as medicações que você recusou. Eles fazem centenas de experimentos, extenuados, debruçados em livros anos e anos até chegar à formula certa. E essa enfermagem que desdobra-se para mantê-lo confortável nos teus últimos dias na terra, que não poupou esforços para ajudá-lo... Pelo amor do meu Filho mui amado, você os ignorou a todos!
- Ai Deus me perdoa! E não sabia o que fazia.
- Perdoo sim, mas agora é tarde, tardíssimo. Feliz morte!"

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