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Conto
 
A EXPECTATIVA
Por: Suely Braga








EXPECTATIVA
SUELY BRAGA


O edifício sisudo, acinzentado ergue-se, contrastando com o verde do gramado. As janelas gradeadas e um muro alto na frente com um portão de ferro. Os longos corredores estão vazios. No dormitório não há ninguém.
Com a tarde ensolarada de um domingo de abril, as internas brincam e correm no pátio. Jogam caçador, vôlei, ou brincam de roda.
Sentada num banco, num recanto afastado, Tuca está encolhida com as mãos entre os joelhos. A tristeza confrange seu coração, os olhos embaçados pelas lágrimas, que teimam rolar dos olhos negros como a cor de sua pele. Espera. É uma longa espera.
O pai morreu corroído pela bebida. Os irmãos mais velhos já caíram no mundo, cometendo pequenos delitos. A mãe fazia faxina nas casas da cidade. Era a única menina e a mais moça da família. Enquanto a mãe trabalhava, ela ficava sozinha no barraco, ou nos becos, brincando com outras crianças. Era a mãe que a protegia dos maus tratos do pai bêbado. Um dia, a mãe saiu para comprar pão e não voltou. Foi atingida por uma bala perdida, da polícia, fazendo batida na favela atrás dos traficantes. Não resistiu e morreu. Tuca ficou só e desamparada. Embora com pouca idade ela fugiu para a cidade.Perambulou sem rumo.Depois ficava nas sinaleiras mendigando moedas.Muitas vezes os motoristas nem a enxergavam, em vista de seu pequeno tamanho.
Não demorou muito e foi engrossar a fileira dos meninos de rua. Corroída pela fome, com um buraco no estômago passou a cheirar cola com os outros meninos. Dormia nas calçadas, nos bancos de praça, embaixo do túnel.Quando o frio chagava cobria-se com jornais velhos.
Certa vez, o Conselho Tutelar foi fazer uma vistoria e a encontrou desmaiada num canto da rua. Levou-a para o hospital. Após a recuperação a assistente social entregou-a ao Orfanato Santa Clara. Ela recuperou-se e se entrosou com as outras meninas.
Muitos casais iam ao orfanato a procura de crianças para adoção, mas quando viam Tuca a rejeitavam por ser negra.
Um dia um casal de alemães, de Santa Catarina, foi ao orfanato procurar uma criança para adoção.
A diretora chamou Tuca que já estava a algum tempo no abrigo.
A menina era bonitinha e muito esperta, agora recuperada pela alimentação e tratamento.
O casal gostou de Tuca e resolveu adotá-la. A arrumação dos papéis durou meses. Foi um tempo de angústia e expectativa para a menina. Ela desejava ansiosa ter uma família, mesmo que não fossem seus pais verdadeiros. Vivia triste pelos cantos, não se reunia mais com as outras meninas. Não participava das brincadeiras.
Naquela tarde amena, estacionou na frente do orfanato, um astra vermelho. Um casal desceu e tocou a campainha. A diretora veio recebê-los e reconheceu o casal que, há meses estivera lá para adotar Tuca. Entregaram os papéis exigidos e a diretora foi buscar a menina que chorava, sentada num banco no pátio.

OSÓRIO, 16/01/2011.

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