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Crônica
 
Flores e sementes (republicação)
Por: Marlene Nascimento

Eu tenho uma vizinha que reclama amiúde por causa das folhas que caem no seu quintal e calçada, de uma árvore na calçada que tem por nome popular chapéu-de-sombra. É uma árvore frondosa, de folhas grandes, muito comum na região litorânea. No outono as suas folhas caem abundantemente e a mulher odeia varrê-las. Dias atrás, espirituosamente, disse-lhe que encarasse como exercício físico, porém ela irritou-se sobremodo, vociferando que se pudesse derrubaria a árvore, a incendiaria.
Estranha-me que tarefas que podem ser realizadas prazerosamente possam causar tanta irritação em alguém a ponto de pretender matar, causar destruição. Como não poderia deixar de ser, sempre encontro árvores esquartejadas, mortas, covardemente assassinadas nessa parte da Região Atlântica, num extermínio assustador.
Quanta insanidade!
Toda planta dá flor, toda flor é semente, semente é vida. A forma de amar todas as coisas pode resvalar para amar odiando, destruindo, matando. Assaz é com ignorância e ganância extremadas que se dizimam espécies.
Estão as vaidades a arruinar os mais belos sentimentos humanos. Caminha no passado o tempo em que pessoas sentiam o prazer do Belo, a sensação de felicidade verdadeira, a sentimentalidade nas coisas singelas da vida. Não mais há de se ver beleza na figura de alguém a manusear um ancinho, juntando as folhas que o vento soprou, num tempo em que a parafernália eletrônica exulta os sentidos.
Que encantamento há presentemente em admirar a lua, em admirar pássaros namorando, em exalar o sorvo da vida, em ouvir o pulsar dos corações, os sons das florestas, se o fausto e o prazer das aquisições supérfluas turvam o olhar às belezas puras e ternas da existência? Afinal, contemplar o último lançamento de tevê na nossa sala é mais energizante do que entrarmos em sintonia cósmica, do que nos fascinar com o arrebol matizando o horizonte ou apenas brincarmos de felicidade. Exultados com tantas vaidades materiais ainda não estamos satisfeitos; queremos uma tevê que tome a extensão da parede principal da sala, queremos uma tela de cinema para deslumbre das visitas. Estas não descansarão enquanto não possuírem o objeto invejado para deslumbre de outrens.
As inocentes heranças culturais dos nossos antepassados, as brincadeiras e cantorias em torno de uma fogueira, as refeições fraternas às mesas dos clãs, a contemplação das estrelas em comunhão com a vizinhança, são alegrias e prazeres perdidos no saudosismo dos mais idosos.
Gerações à frente o que terão as crianças da tão assombrosa era tecnológica para contar aos seus descendentes? Talvez contem que justamente na nossa geração iniciou-se o extermínio das flores e sementes.


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