A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 
Crônica
 
JOÃO GILBERTO DO BRASIL
Por: Valdir Sodré

JOÃO GILBERTO DO BRASIL
Valdir Sodré

Dedicada ao meu afilhado Tiago Luiz dos Santos Pereira
e ao seu pai e meu primo Luiz Alberto Pereira.


Meses se passaram e ainda é difícil consolidar a tarefa de absorver a ausência de quem musicalmente alcançou uma das vozes mais próxima do silêncio, sempre entoada por notas magistrais e sob a companhia eterna de um violão. Falem baixo, pois o mestre da batida perfeita do violão partiu para outra dimensão! João Gilberto nos deixou...

Não há palavras que possam definir o legado extraordinário deixado por João Gilberto. Porém podemos ressaltar que o mundo da música nunca mais foi o mesmo após a criação da Bossa-Nova, que se consolidou como uma fusão do samba com o jazz. Bossa é uma palavra sinônima de calombo, de protuberância resultante de uma pancada e a denominação do novo estilo musical inteligivelmente representa a força estranha e poderosa de um solfejo que se entrelaça com a respiração numa dinâmica em que se aproxime de um estágio letárgico profundo do encontro subconsciente com o silêncio.

Certamente sua ausência é regida pela cosmovisão indígena tupi-guarani, que preconiza que o mundo é conduzido por tons e sons e que cujo alfabeto é composto por sete vogais: A, E, I, O, U, Y e por último o silêncio. O silêncio adocica as palavras. As palavras indígenas são doces porque têm muitas vogais. João Gilberto inconscientemente se alimentava desse artifício criativo humano na comunhão de seus versos com a harmonia musical da Bossa-Nova.

João Gilberto, assim como Mário Quintana, tinha aversão a entrevistas, mas em uma de suas últimas concessões públicas afirmou que “não sou um gênio e nem tenho voz privilegiada, é necessário trabalhar duro pelo produto final”. João ensaiava horas e horas todos os dias e seu comportamento perfeccionista sempre entrava em conflito com as passagens de som antes de suas apresentações e com todas as atitudes exageradas de espectadores que se enlouqueciam com a magia contida em seus repertórios musicais. O importante era privilegiar o silêncio sob todas as formas e o som uníssono de sua música.

O filme “Ensaio sobre o Silêncio”, de Zeca Ferreira, faz primorosamente uma homenagem à arte de João Gilberto. O sublime trabalho passeia pela alma sonora do mestre baiano da MPB, intercalando imagens produzidas em estúdio com as de uma tranquila Juazeiro, cidade natal de João. As filmagens em Juazeiro se apresentaram atemporais, na tentativa de compor as imagens da época em que ele viveu na cidade baiana. No filme evitou-se falar do João, mas sua presença é permanente no repertório, nas conversas e, sobretudo, nos silêncios.

Várias são as canções que podemos destacar no repertório vasto de seu histórico musical. Seria um ato desafinado sublinhar apenas uma ou outra. Na verdade, João construiu parcerias para que demonstrasse que a genialidade na contemporaneidade se apresenta coletivamente. Chegou-se um tempo em que é preciso andar na contramão da lógica da ordem mundial que intensifica o individualismo e o parecer ter. João anteviu os novos tempos clarificando a quebra de paradigmas sob a ótica pós-moderna anarquista. A Bossa Nova despiu as vaidades de uma sociedade dividida em classes. A Bossa Nova igualou a importância do samba e a sobriedade do jazz. Isso é inaugurar novas formas de mediação humana, socialmente sensível, politicamente correta e fortemente transformadora.

É preciso reavivar a memória coletiva desde já para que o saudosismo não seja a única ferramenta para tornar João Gilberto um eterno andarilho do mundo. É preciso oportunizar às novas gerações a possibilidade das diferenças tornando-se públicas as diversas canções de João, mesmo que se sobressaiam outros estilos musicais da mocidade de hoje. É saudável intermediar um contraponto que indique o passado expresso por gostos musicais de gerações que amaram a arte de João Gilberto e o movimento da Bossa Nova.

É elegante e ato de engajamento dinamizar nossas histórias de vida. Todo jovem estudante fica encantado com as histórias de vida que um professor descreve ao pronunciar o que fazia quando tinha a mesma idade de seus educandos. Apesar de estarmos vivendo um momento contemporâneo de desencanto e de desvalorização do trabalho docente, ainda é possível sensibilizar um jovem com atitudes simples e propostas pedagógicas politicamente corretas. É bem possível que esse professor quando tinha a idade de seus alunos ainda não admirava o trabalho genial de João Gilberto. Tudo é uma questão de oportunizar a educação dos sentidos. Como preconizava Rubem Alves, educar é ajudar o outro a pensar. É só na reflexão sobre a ação que é possível transformar. A isso chamamos de práxis.

O uso de diversas linguagens no processo comunicativo é um dos caminhos exitosos de uma educação transformadora e comprometida. São textos, vídeos, poesias, músicas, fotografias e muitas outras linguagens que conjuntamente criam força poderosa na mediação social e pedagógica. Incrementar esse feixe de possibilidades com o legado de João Gilberto é fazer pulsar nossa identidade histórico-cultural e permanecer vivas nossas esperanças por um mundo melhor. Indubitavelmente João Gilberto está vivo em nosso imaginário coletivo e seu legado é um instrumento ativo na consolidação de um movimento que alimenta a carência social dos novos tempos. Viva João Gilberto!



 Comente este texto


Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: WDCB (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP sera enviado junto com a mensagem.