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Conto
 
Corredor de hospital
Por: Otávio Nunes

Láuvio passou o giz no taco, tomou o trago de cachaça e atirou sua bola vermelha na azul, do adversário, e soltou um palavrão por ter errado a caçapa. Justo agora que estava disputando a “neguinha” de três, depois de ganhar a primeira partida e perder a segunda.

Na mesa atrás da sinuca, nos fundos do boteco, ao lado do balcão, outros quatro homens se engalfinhavam no carteado dos bons, valendo as apostas. Bem diferente da sinuca de Láuvio, em que o perdedor apenas bancava as fichas. De repente, um dos jogadores do pif-paf levantou-se da cadeira aos berros, contra o oponente que tinha ganhado a rodada.

O revoltado não aceitou que uma das trincas do jogo do ganhador fosse formada por ás, rei e dama, do mesmo naipe. “Nunca vi isto na vida. Este jogo não vale.” Os outros três disseram, também aos brados, que aquela trinca era normal. Todos no boteco sabiam disto, só aquele forasteiro não conhecia.

Na mente do homem, o álcool combinou-se com a rebeldia e o resultado foi catastrófico. Para arrefecer sua ira, o descontente sacou do revólver e ameaçou os três adversários, que correram de medo. Mesmo assim, o estranho atirou e fugiu. A bala foi se alojar no ombro direito de Laúvio, que não tinha nada a ver com a confusão. Ele caiu no chão, bateu o cotovelo na mesa de sinuca e ainda sentiu o taco, que segurava, desabar em cima de sua cabeça.

Antes que o local virasse um formigueiro humano e a polícia chegasse, o dono do boteco levou o ferido ao hospital. Depois conversariam com as autoridades. Laúvio foi atendido quase uma hora depois de ter entrado no hospital. Neste ínterim, desmaiou, acordou, sonhou com bolas azuis e vermelhas, figuras de baralho dançando em cima da mesa. Despertou e perdeu os sentidos várias vezes. Ele não sabia se urrava da dor no ombro ou da desconsideração dos funcionários do hospital.

Finalmente, dois enfermeiros o socorreram e constataram que a bala havia penetrado de um lado e saído pelo outro. Menos mal. Só fariam o curativo. Se fosse necessário retirar o projétil, teriam de chamar médico, fazer radiografia e outras coisas que o hospital não dispunha no momento. “Nem médico tem?”, questionou Láuvio. “Hoje só temos dois. Um foi almoçar e o outro ainda não chegou”, acrescentou a enfermeira, enquanto limpava o ferimento, tapava com gaze e enfiava-lhe o remédio contra a dor goela abaixo, sem água. Ele pensou se o comprimido faria efeito num corpo que acabara de tomar três cachaças.

Tiraram sua camisa ensangüentada e arrumaram uma camiseta velha, de um time de futebol, para que ele vestisse no lugar. Nem do time dele era. Depois do procedimento, os enfermeiros foram embora, deixando o infeliz deitado numa maca no corredor, pois não havia leito disponível nos quartos.

Láuvio ficou olhando para o teto encardido, úmido e descascado do hospital, até que pegou no sono. Meia hora depois, foi acordado por outros dois enfermeiros que precisavam da maca para atender a uma vítima de atropelamento, que acabara de dar entrada no hospital.

Para que seu ombro e braço não doessem, improvisaram a tipóia feita de faixa cirúrgica e colocaram Laúvio sentado num banco. Ele tentou readquirir o sono, mas não podia se deitar no pequeno assento e cada vez que encostava sentia o frio da parede e a dor latejante no ombro.

Alguns minutos se passaram e ele viu o segurança do hospital vindo em sua direção, para ajudá-lo, imaginou. Infelizmente, o homem solicitou, sem muita educação, que Laúvio se levantasse do banco para dar assento a uma senhora de idade que estava com pressão alta e precisava descansar. O paciente ergueu-se, sozinho, sem emitir som. A dor que sentia o impedia até mesmo de falar ou pensar. Ficou em pé, balançando para os lados, como árvore na ventania.

Enquanto abria e fechava os olhos, pois não conseguia manter muito nem uma coisa nem outra, via passar a sua frente enfermeiros agitados, crianças traquinas, doentes gemendo de dor ou reclamando das condições do hospital e alguns funcionários comentando sobre futebol ou novela de televisão.

Sem notar ou querer, sua posição cambaleante o empurrou alguns centímetros à esquerda, ficando próximo à porta da enfermaria. Dali a pouco, um funcionário saiu rapidamente lá de dentro e, ao atravessar a porta, esbarrou no ombro de Láuvio, o mesmo que fora alvejado pelo tiro. Ele tentou gritar, mas não conseguiu.

A garganta parecia obstruída pela secura, desde que tomara o remédio. Sentia uma enorme sede e não havia bebedouro nem alguém para lhe trazer o copo de água para matar sua sede. A custo, parou um paciente, que parecia estar com dor de dente, e lhe pediu água, “pelo amor de Deus”. Tomou dois copos cheios e sentiu-se aliviado. Até pressentiu que o remédio começava a surtir efeito.

Estava melhor. Agora enxergava com nitidez a multidão que tomava conta do corredor do hospital. Sentiu cheiros de álcool, urina, fezes, bolor, tinta fresca e até de comida. Percebeu que os intestinos borbulhavam, talvez querendo expulsar o volume ocupado pelas cachaças ou pelo remédio amargo, ou ainda pelos dois copos de água que tomara. Tudo isto no estômago vazio. Inflou-se de brios e deixou o local pela primeira porta aberta que encontrou, depois da enfermaria.

Fora do hospital, respirou fundo e foi até o ponto de ônibus. Entrou, passou pela catraca. sentou-se e escancarou a janela, para respirar melhor. Dois pontos depois, enjoado pelo sacolejar do veículo, sentiu calafrios e pôs a cachaça para fora. Muita gente olhou, mas ele não tinha força ou paciência nem para se desculpar e continuou a olhar para fora.

Ao chegar em casa, encontrou apenas a sogra, que lhe deu bronca por encher a cara em botecos. Sua mulher e seus filhos tinham ido ao hospital. Láuvio balbuciou algumas palavras e foi se deitar. Fechou os olhos e sentiu a mansidão chegar de leve ao seu corpo. Se alguém lhe perguntasse algo, naquele momento, diria que fugiu do hospital para se tratar.


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