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Crônica
 
Emagreço, logo existo
Por: Marlene Nascimento

Que ne perdoem as obesas, mas magreza é fundametal. (risos)
(Marlene)

Confesso que sofro de bulimia nervosa, uma disfunção alimentar em que o individuo come demasiado, seguido de forte sentimento de culpabilidade.
Entre os vinte e quarenta e cinco anos eu sofri o efeito sanfona. Agora, contornando o Cabo da Boa Esperança, sofro o efeito estufa. Quinquagenária, mero menos metro e sessenta, oitenta quilos aquém, hipertensa, pré-diabética, reumática, sendo apreciadora de toda alimentação que engorda, sou candidata certa para vir a sofrer um infarto ou um AVC (Acidente Vascular Cerebral), o popular derrame, em qualquer desses lindos dias meus.
Para se ter idéia do que é compulsão alimentar, pasme-se quem lê com o que me aconteceu dias atrás: Eu estava costurando e de repente o meu neto Wellington, 5 anos, berrou: O que houve? Bem, o Wellington deixou um pacote de bolacha do meu lado e algo inconsciente eu ataquei o pacote. Só dei pelo atentado ao vê-lo correndo, berrando pra minha filha, com o pacote bem seguro contra o peito, como se estivesse a fugir de uma ursa faminta.
Como todo gordo que se preza já cometi algumas doideiras para emagrecer. Sim, já cedi à tentação de tomar comprimidos de purgante. Ai, aquelas cólicas horríveis e aqueles gorgulhos peristálticos nas minhas entranhas covardemente agredidas... Menos mal, posto que jamais pensei em provocar vômito após comer. Já ouvi falar de gente que enfia o braço todo na goela para expulsão de comida. Outro desvario que nunca cometi foi o de tomar drogas emagrecedoras, as ditas miraculosas que transformam obesos em magros da noite para o dia. Verdade que se não fosse o pavor de vir a sofrer um infarto fulminante por tal sandice até que eu teria me rendido a elas porque de verdade todo gordo tem tendências suicidas. Existe o gordo hipócrita, aquele que diz adorar ser fofinho. Descalabro! Também tem muito gordinho por aí que apregoa ser melhor um gordo vivo a ser um magro morto. Prefiro o contrário. Sonho após óbito, caber condignamente no meu esquife. Que nesse dia inesquecível não seja necessário a encomenda de um caixão sobre medida. Isso matar-me-ia de vergonha. E meus familiares também.
Meu modelo de beleza e magreza é a Cher. God, a mulher é uma sereia! Tendo a minha idade ela arrasa corações. Diz a mídia maldosa que Cher exonerou duas costelas para ficar com a barriga igual prato fundo. E daí? Para manter-se bela vale tudo. Infelicidade sou eu saber que mesmo que exonere todas as minhas costelas não chegarei aos pés da diva.
Há aquelas semanas que me desdobro para perder além de meio grama. Vigio a alimentação, hidrato-me sabiamente, malho desesperadamente; dança maluca, ergométrica envenenada, vôlei, basquete e futebol de sala, caminhada aceleradíssima. Tal desespero de emagrecer a qualquer preço explode nos meus músculos e articulações inflamadas. Quase findo tetraplégica, porém, felicidade! desincho e começa a insinuar em mim os contornos próprios de um ser humano. Raios muitos! Porque logo cedo à compulsão alimentar e lá vai ao ralo a glória olímpica.
Sendo uma incorrigível adoradora de pão e banana, aprecio qualquer tipo de ambos. Pão francês, inglês, italiano, alemão, americano, brasileiro... banana-prata, banana-maçã, banana-nanica, banana-ouro, banana-da-terra, do céu, do inferno, tendo compulsão maior por nanica, a mais saborosa, símia e mortal de todas para os obesos. Adoro comer pão com banana, ou seja, sem classe nenhuma, banana enfiada no pãozinho francês. Os primatas invejam-me.
Ó sim, amiúde caio em pecados gustativos e como um pizza, um bolo... Se inteiros? Ó não! Assim eu saltaria para 200 quilos. Também não assalto geladeira nas altas madrugadas. O tanto que a assalto de dia compensa essa virtude.
No momento, em meu horário de almoço de trabalho almoço num restaurante à quilo. Consciente, escolho alimentos adequadíssimos. O problema está nos docinhos infantis que o restaurante oferece gratuitos, enrustidos nos preços, claro. Meus olhos lúdicos não conseguem desviar-se deles quando passo no caixa. Tem doce de leite, ah, eu adoro doce de leite! Tem doce de abóbora, paçoquinha, pé de moleque, hum... Cada cliente tem direito a dois docinhos, eu pego logo quatro, cinco, alegando na maior cara-de-pau que são para os meus netinhos. Durante o resto do expediente, com os doces dentro dos bolsos do jaleco, entro na toalete e os devoro, aliviando assim o estresse funcional. Dentro do banheiro? Pasma-se o meu leitor. Não, na toalete.
Piormente, por trabalhar na Saúde um dos meus deveres é aconselhar obesos e/ou hipertensos e diabéticos a seguir rigorosamente as recomendações médicas. Nesses momentos tormentórios dou a vida por um docinho de leite. Barrabás! E que dificuldade manter-me em regime assistindo com os olhos saltando da cara, pessoas magras comendo à beça. Quem lê já reparou como tem magro que come demasiado? E você já reparou no cardápio vegetariano? Onde eu trabalho tem uma vegetariana que come uma selva no almoço. Fascina-me vê-la degustando mato sofregamente, imaginando como será o jantar longe de olhares indiscretos. Presumo que seja a Floresta Amazônica com toda população indígena.
Sempre me pergunto como alguém pode comer tanto e não engordar um grama enquanto eu engordo um quilo só de ler um cardápio. As medicações para reposição de perdas ósseas e hormonais agem como vilãs, deixando-me edemaciada. Outros vilões são os corticóides para doenças reumáticas.
Quando moçoila eu sofria uns surtos meio doidos, em que fazia regime de fome, ficando magérrima, linda, maravilhosa, se mal, pois que hoje pago com osteoporose a alta perda vitamínica. Como a cabeça da gente muda; nos meus surtos meios doidos atuais eu me transformo em ursa faminta.
Se já pensei em me consultar com um endocrinologista? Sim, até já me consultei com um. Acontece que ao entrar no consultório eu levei um susto. Acredite, o médico era obeso. Durante a anamnese (queixas do paciente ao médico) eu não conseguia desviar o olhar do pneu em volta dele e o danado orientando-me a emagrecer, receitando-me uma dieta miserável e uma fórmula miraculosa. Mandei tudo às favas, incluso o doutor. Se a fórmula não surtiu efeito nele, surtiria em mim?
Caso pudesse, internar-me-ia num SPA. Sei que não ficaria estupenda, fantástica, linda, maravilhosa como a Cher, mas chegaria perto. Voltaria a ser bela. Sim, eu já fui bela. Mamãe confirmaria, se fosse viva.
Não sou uma expert em nutrição, mas sou estudiosa da cadeia alimentar e possuo autonomia para escolher alimentos apropriados para manter uma dieta saudável. Em teoria tudo é possível, a prática é que inferniza os nossos mais lindos sonhos.
Bem, uma saudável dieta alimentar começa com bom equilíbrio mental; certo. Emagreço, logo existo; certíssimo. O que é perder um ínfimo quarto de peso contra o sofrimento incomensurável daqueles que precisam perder três quartos? Decidido, eu vou emagrecer! Marlene jura e quando Marlene jura...
Caspita! Quase finalizando o texto, nessa fria noite de inverno de um domingo chuvoso, me veio à mente não sei de onde, acho que do inferno, a visão do entregador de pizzas, berrando no meu portão, para toda vizinhança ouvir e me condenar:
Hum, eu adoro pizza de mussarela. E pizza de frango com catupiry... Ai, que delícia!
Coisas da minha consciência:
Passado menos de meia hora eu ao disque pizza:__Alô, é da pizzaria? Boa noite! Sou a Marlene; por favor, envie-me uma pizza de frango com catupiry. E também uma de mussarela. E um refri. Light, sim?
Ai, consciência minha, quem mandou você mencionar o meu muso inspirador no texto? Pensar que ele poderá sair em disparada... Tanto que o espero, que o... Ai, que não consigo controlar a ansiedade de comer pizza. Droga das drogas,viu?!
Quer um teco, leitor? Huuum, que delícia!
(2002)

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