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Fernando Soares Campos
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Violência Zero
Por: Fernando Soares Campos




Fernando Soares Campos

Cheguei ao Recife em janeiro de 1984, vinha de São Paulo, havia feito ligeira estadia em minha cidade natal, Santana das Flores, no Sertão alagoano. Fazia uns dois meses que pedira demissão da filial brasileira da Société Générale de Surveillance (SGS), uma empresa, à época, suíça, a maior do mundo no ramo de teste e certificação; atualmente é francesa, com sede em Rouen, na Normandia. A SGS havia me contratado para orientar a estruturação de um departamento de inspeções na área de proteção anticorrosiva, mas não deu para ficar na empresa, eu vivia em busca de aventura, pedi demissão de mais uma das grandes empresas pras quais trabalhei e botei o pé na estrada.

No Recife, naqueles meados dos anos 1980, andei fazendo alguns trabalhos para pequenas empresas, prestando serviços na condição de autônomo, colaborador independente (freelancer soa mais tchã!), na minha área de especialização. Tomei um susto dos diabos quando visitei algumas empresas caindo aos pedaços, a ferrugem tomando conta das áreas de produção. Lembro-me de uma fábrica de papel e celulose em que tudo estava engatilhado, funcionando precariamente. Os trabalhadores, expostos a sérios riscos de acidente, se esforçavam para manter os postos de trabalho. Tive a impressão de que o grupo a que aquela empresa pertencia somente a mantinha por tradição, ou para explorar as últimas energias de uma fábrica em estado terminal.

Mas eu não andava bem, minha saúde mental estava seriamente abalada, sofria transtornos psíquicos que se poderiam caracterizar por um surto de esquizofrenia. Comecei a perder o contato com a realidade, embarquei em profunda depressão e acabei internado numa clínica psiquiátrica denominada Dr. Luiz Ignácio (na verdade, um desses manicômios que só servem como depósito de paciente e para faturar verbas da Saúde).

Dormi durante dez meses seguidos, dopado à base de psicotrópicos. Desse período tenho vaga lembrança de momentos em que estava à mesa, fazendo as refeições, ou no banheiro; sempre acompanhado, pois fui colocado num setor “especial”, junto com um jovem filho de um juiz de direito, um bancário e mais três ou quatro pacientes “diferenciados” das centenas de internos oriundos de palafitas e mocambos das favelas dos morros e margens dos córregos de bairros pobres da cidade.

Com os esforços de minha mulher e a alegria inocente de minha filha de quatro anos, aos poucos fui me recuperando. Muito lentamente, mas de forma gradual. Elas vinham me pegar nos finais de semana e levavam pra casa. Guardavam pra mim as melhores frutas, os melhores doces caseiros, os mais finos biscoitos e me cobriam de carinho e cuidados especiais.

Fiquei dois anos e meio internado. Quando recebi alta, no final de 1986, não sabia o que fazer com a liberdade, havia perdido o hábito de conversar com as pessoas “normais”. Minha mulher, pernambucana, criada no Recife, tinha algumas amigas que costumavam vir nos visitar. Foi aí que uma dessas amigas de minha mulher me convidou para participar de um movimento comunitário, um grupo que se reunia na escola do bairro e que se denominava Movimento de Reivindicação da Bomba do Hemetério.

Era tudo o que eu precisava.


Em poucas semanas estava envolvido de corpo e alma com o movimento. O vice-diretor da escola se tornou meu melhor companheiro, foi padrinho de batismo do meu filho que nasceu em 1988. E foi exatamente naquele ano que ouvi no rádio um programa que fazia a abertura com o seguinte prefixo:

“Todo homem tem direito a defesa, seja rico ou pobre, branco ou negro. Era uma vez um rei que mandava bater nos seus súditos; era uma vez um povo que perdeu o medo da dor."

Ao fundo, a música “Maria, Maria”, na voz de Milton Nascimento, que crescia no final da narração da vinheta.

Era o programa “Violência Zero”.

A equipe que produzia e apresentava o programa era formada pelos jornalistas Urariano Mota, Tarciana Portela e Rui Sarinho.

Todo sábado eu sintonizava a emissora em que eles levavam o programa ao ar. Às vezes eram obrigados a mudar de emissora, por questões que desconheço, mas posso deduzir, até que ficaram sem espaço. Foram obrigados a encerrar o programa, patrocinado pelo governo do Estado, que tinha Miguel Arraes pela segunda vez no comando.

Fiz amizade com Urariano, Tarciana e Rui. Eles acabaram me indicando como colaborador de um dos jornais de maior tiragem no Nordeste. Passei a escrever um ou dois artigos semanais, versando sobre temas diversos: educação, política, literatura, comunicação, administração pública, corrupção, sexo e cultura inútil em geral.

O programa abordava questões relacionadas com a violência nossa de cada dia, mas sob o enfoque e análise das causas e efeitos, do que gera a violência e como ela se manifesta. Geralmente recebia convidados para debate em torno do tema escolhido, especialistas em algumas áreas, políticos, professores, intelectuais, escritores, líderes comunitários, artistas, enfim, quem tivesse alguma coisa pra dizer e pudesse se expressar de forma coerente.

Eu não perdia um só daqueles programas e costumava participar através da interatividade que a equipe oferecia ao ouvinte, fazendo perguntas ou opinando por telefone. Sugeri temas para debate e, além de ser atendido, recebi os repórteres em casa, concedendo-lhes entrevista. Depois disso, nosso movimento de reivindicação ganhou mais visibilidade e atenção de políticos e administradores públicos. Recebemos equipes de TV e jornais, que fizeram cobertura do nosso trabalho comunitário, que se estendia por diversas áreas, com destaque às atividades culturais.

Em 1991 retornei ao Rio, onde permaneço até hoje.

Tarciana Portela é a atual delegada do Ministério da Cultura para o Nordeste, Urariano é bem mais que colaborador da nossa Agência Assaz Atroz, é, reconhecidamente, um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade. Seu livro “Soledad no Recife” (Boitempo-2009) tornou-se grande sucesso de crítica e público leitor. E agora me contaram que Rui Sarinho vai voltar a produzir o “Violência Zero”. Não sei se nos moldes dos anos 1980, ou se com novas características. Sei apenas que, comportando profissionais como ele, certamente será tão bom ou ainda melhor do que naqueles tempos. Disso não tenho dúvida.

Só gostaria que fosse transmitido também pela rede mundial de computadores, via internet. Não é justo que apenas os pernambucanos tenham o privilégio de desfrutar de tão importante iniciativa, disso que todo o Brasil anda carente.

Rui, aqui vão os meus votos de sucesso!

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

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Postado por PressAA - Redação

http://pressaa.blogspot.com/

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