Uma breve pausa
Por: JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA
Premiação para quem joga limpo
Os assíduos pelas notícias sobre CPI, mensalão, Carlinhos Cachoeira e demais escândalos que movem a grande mídia no país devem segurar a ansiedade. É que com o início dos Jogos Olímpicos de Londres, que aconteceu na sexta-feira passada (27/07/12), as atenções estarão voltadas para outros atores - o foco será nos atletas. Desta forma, o contribuinte, por uns momentos, esquece os corruptos que prejudicam o país e torcem pelos que podem enchê-lo de orgulho de ser brasileiro. Ele está consciente de que isso é passageiro, mas é uma pausa por um motivo inquestionável.
Assim, a conquista da medalha de ouro pela piauiense Sarah Menezes, no judô, neutraliza o ódio e o preconceito que alguns paulistanos têm pelos nordestinos - uma estudante de direito externou isso num blog -, sintetizando o feito como o sucesso de um país. Por outro lado, a eliminação da nossa grande esperança na ginástica, o atleta Diego Hypólito, um paulista de nascimento, jamais deverá servir de revanche dos nordestinos por este insucesso. Afinal, o Brasil é composto de regiões, algumas mais desenvolvidas que as outras, mas nem por isso desprezível como parte de um todo. Por que não?
Este evento também serve como objeto de estudo sobre a discriminação quanto ao apoio das modalidades. Não é surpresa para ninguém que há muita diferença de tratamento entre o futebol masculino e o feminino. Alguém discorda? Mas nem por isso os badalados astros da seleção canarinho arrebataram uma medalha de ouro para o Brasil. Daí que quem teve a sorte de atuar na elite privilegiada pelo país deveria ter mais comprometimento com o resultado. Pelo menos demonstrar espírito de competidor! No mundo competitivo atual não basta participar - só há lugar para o vencedor!
Uma olimpíada dá tanto prestigio internacional para o vencedor que está ocorrendo mudanças que ofuscam o brilho do resultado. Alguns países estão naturalizando atleta com bom potencial para melhorar a colocação no quadro geral de medalhas, principalmente nas atividades onde suas chances são menores. Daí que alguns atletas de nomes estranhos defendem as cores de países que nada têm a ver com eles. Por isso, alguns orientais, reconhecidamente imbatíveis no tênis de mesa, participam representando países do Ocidente nesta competição. Onde fica a legitimidade desta conquista?
Mas o participante que nunca venceu, apesar da insistência, deve ser menosprezado? De jeito nenhum! É exatamente este espírito olímpico que deve se perpetuar entre os atletas e os telespectadores. Vencer é ótimo, mas o amadurecimento do atleta como pessoa se fortalece com a derrota. Aprender que numa competição se ganha ou se perde. Como em outras atividades na vida. Que os detalhes e o imprevisto fazem parte de qualquer trabalho e podem influenciar no resultado final. Além de tudo isso, claro, ainda existe um fator que muitos não levam em conta, mas contribui: a sorte.
Na busca de respostas, tendo em vista os resultados, os Jogos Olímpicos oferecem farto material para uma análise comportamental. Tipo assim: por que nunca vencemos no futebol masculino, apesar dos cinco títulos mundiais e de ser um celeiro indiscutível de craques? Se existe um motivo inexplicável precisamos encontrar a resposta. Haveria diferença entre a equipe profissional e a olímpica? Quantos jogadores, realmente, internalizam o chamado "espírito olímpico"? Esta competição depende mais de vontade ou da técnica apurada? O egocentrismo de alguns prejudica o grupo?
Comparado com a atuação dos políticos, dos gestores públicos e dos que atuam na Justiça, os atletas podem errar, perder e decepcionar, mas nunca desonrar o país. Daí que o doping voluntário, aquele com o simples objetivo de tirar vantagem pessoal, se compara com o caso de corrupção na administração pública. Só que nesse caso a punição é fatalmente aplicada, independentemente das conquistas e do prestígio do atleta infrator. Lamentável que não existe similaridade entre os representantes do país - atletas e gestores em geral - na forma de punição. Por que não àqueles?
J R Ichihara
29/07/2012
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