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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Missão para Santo Antônio
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA




Mês de Junho é sempre inspirador para escrever. Friozinho batendo à porta. Festas Juninas. Noites enluaradas. Dia dos Namorados. Dia de Santo Antônio... Aí fiquei pensando sobre o ofício desse casamenteiro consagrado e muitas reflexões vieram à tona. Escrever requer observação da vida e nesse contexto as minhas observações me dizem que a correria pelos milagres amorosos anda em baixa.
O ideário em torno do “par perfeito” vem gradativamente perdendo espaço para um movimento intenso e desapegado da sociedade. Antes, aos pés do Santo, o desejo de encontrar alguém que se enquadrasse nas expectativas era colocado com fervor, na crença que aquele alguém realmente existia e iria de repente aparecer. Para alguns, isso de fato funcionava como em um passe de mágica; para outros, a ausência do milagre fazia repetir os votos anualmente.
Ainda que, conscientemente soubessem que Santo Antônio não foi e não é dono de uma agência de encontros, cujos (as) pretensos (as) candidatos (as) respondem a um questionário interminável e somente são encaminhados, quando atingem 99% das expectativas de quem os procura, isso não fazia diferença. Compatibilizar eventuais desalinhos era parte natural do processo; já que, “metade da laranja”, ou “tampa da panela”, são apenas forças de expressão. Sendo assim, o coitado do Santo trabalhava como louco, sem descanso para atender tamanha demanda.
Porém, com o tempo, a idealização se transformou bastante. O ideal de parceiro (a) continua existindo dentro de cada mente humana; mas, ao contrário de tentar uma construção de relacionamento que busca se ajustar as diferenças uns dos outros, as pessoas vivem uma constante “dança das cadeiras”, um constante desapego. Troca-se os defeitos de um pelos defeitos de outro e assim sucessivamente. Ninguém espera mais por um amor da vida inteira.
E diante dessa efemeridade nas relações, o que mais assusta é perceber como transcende o vazio que habita as pessoas. Há um medo velado da solidão que move esse movimento de procura pelo outro; mas, ao mesmo tempo, a transitoriedade dos encontros impede de se desnudar além do corpo, ou seja, a alma. As pessoas começam, então, a se tornarem colecionadoras de desilusões ao invés de colecionadoras de memórias afetivas.
Mas, além do medo, é possível perceber também o desconhecimento sobre si mesmo, que permeia o indivíduo. Quem sou eu? O que eu gosto? O que eu quero? Quais as minhas prioridades? Quais as minhas necessidades? Quais as minhas expectativas? E isso não é ser egoísta, nem egocêntrico. São apenas alguns dos questionamentos que fazem parte do respeito que se deve dedicar a si mesmo. Uma verdadeira relação afetiva impõe a necessidade desse respeito interior.
Em contrapartida, a contemporaneidade vive o espetáculo, a fantasia, as personagens que devem ser construídas para possibilitar a inserção nesse ou naquele lugar social. Afinal, são muitos perfis. Muitos likes. Muitos aceites. Sem se dar conta, as pessoas vão desconstruindo as bases da sua realidade, do ser humano de carne e osso, para ceder lugar à artificialidade do virtual.
Entre as emoções agora existe uma tela, que vai aprisionando lentamente a nossa afetividade. Nosso diálogo é com ela. Nosso toque é nela. Nossa atenção é para ela. Enfim... Diante do outro é como se tivéssemos desaprendido a SER e passamos apenas a ESTAR. E esse desconforto é outro fruto desse vazio existencial; como se fôssemos casca sem conteúdo.
E é nesse ponto que a análise fica mais absurda, porque idealizamos um par sem que ao menos tenhamos a consciência de quem somos nós. Ora, ser humano é ser humano. Tem defeitos, qualidades, erros, acertos etc.etc.etc.; tudo no pacote e não dá para excluir isso ou aquilo, quando se fala de gente real. Então, as pessoas vão se enredando numa teia de ficção dentro das relações virtuais, padecendo no inferno do fastio que nunca é saciado porque não pode ser, porque é uma ilusão.
Talvez, a missão de Santo Antônio, nessas alturas do campeonato, seja resgatar todas as almas. Chega de purgar a ausência de um amor lambuzado da mais alta pieguice. Ou de beijos que descompassam o coração. Ou dos arrepios que desnorteiam os sentidos, fazendo as pernas tremerem. ... Amar é amar. É intenso, difícil, complexo, dolorido; mas, irremediavelmente, essencial para justificar a existência humana. Por isso flerte, paquere, se apaixone, se permita SER, VIVER, para saber o que há no final do arco-íris. Ninguém morre de amor; mas, com certeza, morre da falta dele.

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