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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Nas entrelinhas da previsão do tempo...
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA




Toda vez que as temperaturas despencam a exclamação aparece: Que frio é esse, meu Deus! Mas, tudo certo; afinal, não é inverno pelas bandas de cá? O desconforto congelante é porque o frio por aqui não chega amparado da infraestrutura necessária. Nossas moradias, por exemplo, estão longe de atender as demandas rigorosas das ondas frias que constituem o nosso período invernal. Constatações de quem se enquadra dentro dos limites de sobrevivência às intempéries do clima, com certa qualidade; mas, aí fiquei pensando em quem está distante disso.
Os noticiários de hoje estamparam os contrapontos do inverno. De um lado a beleza congelada na região do sul do Brasil, que atrai milhares de turistas para as serras na expectativa de algum vestígio de neve. De outro, três moradores de rua morreram de hipotermia em SP, por conta da madrugada mais fria do ano na cidade. Sem o rigor da intenção, a natureza mais uma vez nos faz pensar. Nas entrelinhas da previsão do tempo, o que ela nos diz?!
Muito mais do que o movimento do mercúrio no termômetro, situações como essa visibilizam os muros que separam os seres humanos e traz à tona tudo o que pode ser considerado indignidade. O que representa de fato uma onda de frio ou de calor extremos para a humanidade? O balizamento dessa resposta, infelizmente, está associado ao poder aquisitivo que se dispõe para sobreviver a tais situações com o mínimo essencial de dignidade.
A grande questão é que para uma gigantesca parcela da população essa dignidade está inacessível. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), dados de 2017 apontam que apenas 10% dos trabalhadores mais ricos recebem aproximadamente 50% da renda do trabalho no mundo 1. Inevitavelmente essa informação reflete na condição de desigualdade social que impede milhões de pessoas a terem seus direitos fundamentais garantidos, o que inclui moradia, água potável e saneamento básico, por exemplo.
O que muitas pessoas, talvez, não entendam é que negligenciar a desigualdade não é solução. Mais rápido do que se imagina e por caminhos “tortuosos”, o ônus gerado pela desigualdade não deixa de bater as portas do poder público. Em tempos de frio, por exemplo, a fragilidade de condições de sobrevivência da população mais carente favorece a maior incidência de hospitalizações, de fornecimento de remédios para doenças respiratórias, de atenção básica e encaminhamento para abrigos públicos de pessoas em situação de abandono; o que impacta nas previsões orçamentárias. Já nos casos de verão intenso, a situação envolve diretamente as questões de saneamento, por conta da proliferação de doenças via água contaminada e aquelas transmitidas por mosquitos.
Isso significa que a indiferença não nos blinda da desigualdade. Não importa quem você é, onde mora, quanto dinheiro tem no bolso ou no banco. Direta ou indiretamente cada cidadão paga por essa conta, por meio da gigantesca máquina tributária nacional. No entanto, esse pagamento está longe de mitigar ou de resolver definitivamente o processo de desigualdade, porque não se vê uma efetividade de planejamento, de propostas de ação que venham se traduzir em uma ampliação na oferta de oportunidades dentro de parâmetros de igualdade e equidade.
Esse contínuo desembolsar de recursos emergenciais a cada episódio de demanda acaba por funcionar como efeito paliativo, algo desumano. Só quando transbordam as bordas dos tapetes, para a insustentabilidade da situação causar um incômodo tão terrível que algo precisa ser feito. Mas, como nem sempre o relógio favorece é assim que as tragédias anunciadas se repetem.
Enquanto o frio, ou o calor, nos parecem desconfortáveis dentro do nosso conforto, como seria bom que tantos outros pudessem fazer coro conosco. A dignidade não pode ter um único lado. A sobrevivência também não. A desigualdade é tão nociva que ela não só separa, mas desune as pessoas, na medida em que ela acirra o que há de pior no ser humano. Por isso, não podemos fechar os olhos para o que se apresenta diante de nós em tempos de chuva e de sol, de brisa e de tempestade, de frio ou de calor. Somos parte da natureza e ela não segrega, não exclui ninguém. Aliás, não precisamos incluir ninguém se aprendermos, simplesmente, a não excluir.

1 http://abet-trabalho.org.br/relatorio-da-comissao-global-sobre-o-futuro-do-trabalho-2019-oit/

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