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Crônica
 
Amazônia: por trás da cortina de fumaça
Por: Marlene Nascimento

Por Joice Nunes Ferreira e Mercedes Bustamante

Os incêndios na Amazônia, sobretudo das áreas de floresta, protagonizam mais um capítulo da crise ambiental no Brasil, com maciça repercussão nacional e internacional. Reunimos aqui quatro pontos que merecem ser esclarecidos para a busca concreta de soluções ao problema.

1. Quão anormais são as atuais queimadas e incêndios?
O contexto, tanto do conhecimento científico como da experiência de políticas de controle de desmatamento e queimadas, é completamente diferente em 2019 para que a situação seja agora considerada de menor gravidade. As evidências nos permitem afirmar, portanto, que estamos vivendo um período de mais queimadas quando comparado ao padrão dos anos recentes.

2. Quais são as origens das queimadas?
Há evidências de que muitos dos focos de calor atuais se relacionam ao aumento do desmatamento recente, uma vez que há uma coincidência entre os municípios com maiores taxas de desmatamento e aqueles com mais focos de calor. Grande parte desses desmatamentos é ilegal, provavelmente para apropriação indevida de terras, públicas e/ou em unidades de conservação ou degradação da áreas de reserva legal nas propriedades para abertura de área de pasto e agricultura.

3. Quais os impactos do fogo nos ecossistemas?
A compreensão dos impactos do fogo sobre os ecossistemas deve considerar o regime de fogo (que abrange a intensidade, época e frequência de queima) e o tipo de vegetação e ecossistema atingidos. Dessa forma, é necessário manter atenção para evitar os incêndios descontrolados em todos os ecossistemas brasileiros, pois mesmo que o fogo possa ser um fator natural em alguns biomas, mudanças no seu regime implicam em consequências negativas.

4. O número de focos de calor atual seria normal?
Costuma-se dizer que queimadas sempre ocorreram nessa época e que o aumento em 2019 estaria relacionado a maior intensidade da estação seca. É fato que as queimadas ocorrem todos os anos e aumentam expressivamente na estação seca, e que, se descontroladas, geram incêndios florestais.

Em meio ao quadro de comoção social, observamos a circulação de informações equivocadas, muitas de forma deliberada, e que terminam por obscurecer a realidade e limitar a capacidade do Estado de atuar de forma efetiva. Nesse contexto repleto de cortinas de fumaça, o enfrentamento da crise exige evidências científicas que permitam nortear as escolhas de gestores e o seu acompanhamento pela sociedade.

Incêndios e queimadas associadas ao desmatamento geram sérios impactos tanto diretos – mudança nos ecossistemas, emissão de gases de efeito estufa e perda de biodiversidade – como indiretos, tais como ameaça à segurança alimentar de populações tradicionais e indígenas e à saúde e ao bem estar de populações rurais e urbanas. A ciência brasileira, em particular nas últimas décadas, tem gerado um grande volume de informações sobre os impactos do fogo, alternativas de manejo e modelos de predição e espalhamento que auxiliam na prevenção e controle de incêndios.

Muito além da mobilização emergencial (e tardia), é preciso apoiar as instituições científicas no aperfeiçoamento de sistemas de alerta e monitoramento de queimadas e resgatar a capacidade do IBAMA, com o apoio de forças de segurança, para fiscalização e combate aos crimes ambientais. Some-se a isso a manutenção de áreas florestais protegidas, públicas e privadas, que funcionam como barreiras à propagação de incêndios, uma vez que florestas conservadas retém mais umidade e assim reduzem a flamabilidade da paisagem.

Medidas emergenciais isoladas podem ser necessárias, mas não salvarão o Brasil de novas catástrofes. Ações concretas envolvendo um planejamento de longo prazo, que incluam os povos tradicionais e a proteção da vegetação nativa em todos os biomas, são nossa melhor garantia no enfrentamento desse desafio.


* (Joice Nunes Ferreira é bióloga, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA), e Mercedes Bustamante é bióloga, professora-titular do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília)

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