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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Cada um conserve em si o que quiser...
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA




Tive um professor sensacional de Literatura, no ensino Médio, que certa vez nos disse: “Cada minuto a mais é um minuto a menos”. E ele estava certo quanto a essa afirmação. O tempo é isso. Essa dinâmica fluida da vida. Grão de areia escorrendo entre os dedos.
Lembranças, memórias, recordações são sempre importantes e bem vindas à construção do que somos; mas, o ponto chave dessa questão é quando nos apegamos aos ponteiros do relógio como se pudéssemos detê-los e dominá-los à nossa própria vontade.
Tenho refletido muito a respeito disso, por conta dessa onda conservadora que se abateu sobre o século XXI. A ideia de que o ontem foi melhor do que o hoje deve ser sempre questionada.
Primeiro, porque o próprio curso do cotidiano não é pleno de uma felicidade milimetricamente planejada e, portanto, acontecimentos bons e ruins se alternam a velocidade da luz à revelia de nossos desejos e vontades.
Segundo, porque cada um enxerga a vida e o mundo a partir de uma ótica particular, de modo que o bem e o mal dependem dessa perspectiva.
E por fim, individual e coletivamente, direta ou indiretamente, todos nós trabalhamos no processo de desenvolvimento e evolução da sociedade, o que a impede de permanecer estática, exatamente a mesma, ao longo do tempo.
Sendo assim, o que foi, foi. É passado. É um recorte dentro de uma conjuntura específica. A política era outra; a economia, a cultura, a educação e os valores, também. E o arranjo desses elementos dentro da sociedade sinalizava um determinado resultado, o qual para alguns era positivo e para outros, não. O que significa que não havia um denominador comum que satisfizesse em 100% a todos os participantes.
E se existiram aspectos bons, assim considerados por alguns, é natural que diante das tormentas naturais do progresso social emerja entre esses indivíduos um sentimento saudosista. No entanto, esse saudosismo merece cada vez mais atenção, pois tenta se reafixar na sociedade como algo muito bom, que não se quer perder, que necessita ser resgatado, ou seja, se transforma em um pensamento conservador. Tal qual uma boia de salvação imediata.
Ora, mas não se trata de um ponto de unanimidade social e é aí, então, que se torna necessário pensar e analisar os rumos dos acontecimentos para não abrir precedentes aos eventuais conflitos e distorções.
Bem, se o tempo passa tão rápido, “Cada minuto a mais é um minuto a menos”, o melhor que se tem a fazer, então, é olhar para ele agora. Isso significa que as melhores decisões e soluções para a vida estão no presente, ainda que, o passado possa servir de algum balizamento ou referência.
São muitos os nichos em que os indivíduos foram se encaixando para viverem na contemporaneidade e, por consequência, hábitos, comportamentos, pensamentos, também, passaram por inúmeras transformações para satisfazerem a essa realidade.
Veja, por exemplo, que na década de 60, o Brasil dispunha de aproximadamente 70 milhões de habitantes e hoje, esse número atinge a casa dos 209 milhões. A década de 60 acenava o início dos computadores IBM; enquanto que, em 2019, amplia-se a utilização da Inteligência Artificial. E por aí se vão às metamorfoses sociais, ao ponto da dificuldade de acompanhá-las em tempo real.
Então, se por um lado elas vêm promovendo entre a população uma avidez maior pela autonomia, autoralidade e independência na condução do seu destino; por outro, vêm enfrentando um ataque maciço de ações conservadoras sustentadas pela facilidade da disseminação de noticias não verdadeiras e a dificuldade de seguir e aceitar tamanhas mudanças, tão rapidamente. Na verdade, o que essa queda de braços resulta é um desserviço à sociedade.
Victor Hugo, escritor francês, já dizia “mude suas opiniões, mantenha seus princípios. Troque suas folhas, mantenha suas raízes”, ou seja, é preciso acompanhar o fluxo da vida com bom senso e equilíbrio. O conservadorismo, especialmente quando adquire um viés extremo, tende a tornar o ser humano um ser séssil, preso ao imobilismo que o impede de enxergar e participar das profundas e intensas transformações ao redor; e, infelizmente, nessa relutância ao novo ele distorce o mundo a sua própria vontade ou se permite os riscos em se abster de pensar com a própria cabeça.
Sei que os tempos estão mais e mais polarizados e, até mesmo, isso é graça e obra dessa tal onda conservadora. Mas, cada um conserve em si o que quiser. Coisas boas. Ruins. Só não pode obrigar o outro. Só não pode tolher a liberdade alheia. Só não pode impor o seu olhar.
Afinal de contas, quaisquer tentativas nesse sentido são em vão. Muitas vezes, para fugir do confronto, as pessoas se tornam “sinceras” por conveniência e não por convicção. Nem sempre o que a boca desses indivíduos professa é, necessariamente, a tradução de suas ações e comportamentos.
Cada vez mais, embora a sinceridade seja um atributo pessoal e intransferível, ela é aplicada de acordo com as tendências em que flutuam a sua própria consciência. Entendeu?!
Enfim, depois de assimilar definitivamente essa incapacidade inata de controlar o tempo nas mãos, talvez se esclareça que ser conservador ou liberal não é e nem nunca foi o que está em jogo. O que é imprescindível é assumir a responsabilidade sobre o fato de que “o correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem” 1; coragem para enfrentar quaisquer desafios, para ser humano, para ser inteiro, para ser feliz.


1 Grande Sertão Veredas – João Guimarães Rosa.

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