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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Coronavirus
 
A insensatez e a megalomania
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA




Jamais me coloquei contra extrair lições de bons exemplos, desde que, é claro, respeitada as devidas proporções; pois, cada situação é uma situação. De modo que fiquei boquiaberta com a exibição de insensatez e megalomania promovida pelo Presidente da República, desde ontem à noite, durante pronunciamento para emissoras de Rádio e TV.
Por mais apreço e devotamento que ele dispense ao atual governo norte-americano, isso não faz da compilação de algumas ideias proferidas por lá, algo sustentável e adequado à realidade de cá. Além do mais, o fato de figurarem no topo dos mais ricos e poderosos do mundo, não torna suas palavras isentas de contestação.
Enquanto eles mantêm a posição de nação com a maior economia e orçamento militar, podendo oferecer ajuda ao resto do mundo; nós permanecemos como importante polo turístico internacional, mas que “enfrenta sérias questões relacionadas à pobreza, desigualdade, governança e meio ambiente” 1. Daí a necessidade de mais prudência, mais cautela, no agir.
Acontece que, de repente, nós, eles e o resto do mundo fomos apresentados a uma situação emergencial inesperada, a Pandemia do COVID-19. Ainda que haja imprevisibilidade quanto aos desdobramentos e impactos, a certeza de que existirão e demandarão medidas precisas e responsáveis é absoluta e pertinente a todos.
Isso porque, a situação não se restringe a capacidade de prevenir e tratar uma doença que afeta milhões de pessoas. Na medida em que as nações param a dinâmica de seus cotidianos para assistir as demandas de saúde pública das suas respectivas populações, haverá repercussões diretas sobre os mecanismos de produção de bens, serviços e finanças, tanto do ponto de vista interno quanto externo.
Portanto, é preciso entender que a Pandemia do COVID-19 travou a teia relacional que envolve a globalização. Com centenas de milhares de doentes ao redor do planeta, a vida assumiu a dianteira como prioridade. A verdade é que a saúde e o bem-estar das populações são cláusulas pétreas, no que tange criar demandas de consumo e produção, fazendo com que as economias se desenvolvam e prosperem.
Se medidas de contenção da proliferação do vírus não são adotadas imediatamente, de maneira enfática e rígida, os prognósticos no campo das relações econômicas se tornam ainda mais catastróficos.
Primeiro, porque quanto maior o número de infectados e doentes maior é o gargalo que se desenvolve no sistema de saúde, por mais bem dimensionado que ele esteja; inclusive, em relação ao número de profissionais disponíveis para atendimento.
Segundo, porque o descontrole sobre a epidemia leva inevitavelmente a gastos que ultrapassam as expectativas e provimentos destinados aos serviços médico-hospitalares.
Por fim, porque a impossibilidade da coexistência normal e cotidiana impõe restrições orçamentárias a todos os cidadãos, de modo que é essencial a consolidação de políticas públicas e medidas econômicas, por parte do governo, voltadas a minimizar os efeitos subsequentes ao fenômeno.
Afinal, para todos os países a paralisação das atividades não essências à crise, embora necessária nesse momento, é um impacto abrupto e traz perdas significativas a diversos setores da sociedade, a serem dimensionados de acordo com a extensão temporal do processo.
E é justamente nesse ponto que se faz necessária uma cautelosa análise. Enquanto os EUA acaba de anunciar o fechamento de um acordo para liberação de um pacote econômico de 2 trilhões de dólares para tentar frear as consequências da Pandemia 2; o Brasil faz os seus anúncios em cifras bem mais modestas.
Na verdade, o problema por aqui não está necessariamente na diferença das cifras; mas, no tamanho do desconforto que lhes causa ter que fazê-lo; pois, uma situação como essa não configurava nos planos da equipe econômica brasileira.
O projeto “liberal” idealizado pelo atual governo brasileiro tinha como objetivo primordial atender com mais atenção ao desenvolvimento e fortalecimento dos setores produtivos, cortando despesas, aumentando os lucros, fomentando as práticas de investimento no mercado de ações, enfim...
Porém, abaixo dos prognósticos de alcançar um Produto Interno Bruto (PIB) de 2,5%, em 2019, o que se conseguiu foi um resultado de 1,1%, explicado pela “queda nos gastos do governo, piora nas exportações e importações e crescimento menor do consumo e dos investimentos” 3.
O que fez com que uma visão holística de governança para o país, entendendo a existência de desigualdades históricas que interferem diretamente nas politicas e avanços nacionais, perdesse ainda mais espaço. No início desse ano, por exemplo, o desemprego assinalava o percentual de 11,2%, ou seja, 11,9 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto que a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), também divulgada pelo IBGE, apontava que no ano de 2018 o Brasil tinha 13,5 milhões de pessoas em condição de extrema pobreza e 52,5 milhões na pobreza.
A situação da Pandemia, então, só fez colocar o governo em xeque-mate; afinal, à revelia de sua vontade o distanciou das suas pretensões e discursos de palanque. O projeto econômico que já não caminhava a contento, agora tende a ficar ainda pior. Diante os dados da Pandemia, analistas de economia estimam a possibilidade de que o desemprego no país alcance mais de 20 milhões de pessoas.
Mas, nessas alturas do campeonato, ir à frente da TV fazer “cortina de fumaça” por meio de apologia à insensatez, minimizando a gravidade da Pandemia, ofendendo pessoas e instituições, é algo totalmente antiproducente. Abster-se da responsabilidade, culpando terceiros e lançando-lhes sobre os ombros desastres futuros causa constrangimento, até mesmo, para uma ex-colônia.
O país precisa de foco, de objetivo, de competência para medidas robustas de enfrentamento à realidade. A negligência e o desrespeito com que se trata a base da pirâmide social brasileira, os milhões de trabalhadores formais e informais desse país, faz lembrar as páginas amareladas da História do Brasil.
Quando milhares de pessoas tinham trabalho, muito, aliás, mas não tinham salário, não tinham garantias de dignidade... Eram apenas peças da engrenagem econômica, de um conservadorismo escravocrata, que podiam ser substituídas quando não pudessem mais “dar conta do recado”. E lá se vão mais de quinhentos anos e a mentalidade da hoje, ex-colônia, permanece.
Enquanto o governo brasileiro insiste em reafirmar a absurda ideia de que algumas vidas valem mais do que outras, se isola na contramão do mundo. Reafirma a sua pequenez, a sua insignificância colonial, se apropriando do discurso “explorador” que aprendeu tempos atrás. No fim das contas, só faz lustrar o seu status de “grande mentecapto do século XXI”.


1 https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2020/01/os-paises-mais-poderosos-do-mundo-em-2020.html
2 https://veja.abril.com.br/mundo/coronavirus-eua-chegam-a-acordo-por-pacote-de-2-trilhoes-de-dolares/
3 https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/pib-do-brasil-cresce-11-em-2019-diz-ibge.shtml

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