"Toda profissão tem cacoetes lingüísticos. O geólogo
brasileiro denomina os campos submarinos de petróleo
existentes abaixo de um enorme e espesso lençol de sal de
pré-sal. O geólogo ordena o mundo de baixo para cima. O sal
dificulta e encarece a extração, porém preserva um óleo leve e
de ótima qualidade.
Fortes evidências levam a crer que há 130 milhões de anos
começou o desquite entre África e América do Sul. No meio,
surgiu um lago que, crescendo, dá origem ao Atlântico Sul. O
material orgânico foi sepultado debaixo do sal;
posteriormente, outros elementos se depositaram. A combinação
de temperatura e pressão converteu a matéria orgânica em
petróleo. Movimentos tectônicos deslocaram o sal; parte do
petróleo migrou para cima das "janelas" de sal. A Petrobras
localizou campos submarinos nestas janelas: Namorado, Marlin,
Roncador e toda uma peixaria permitiram a auto-suficiência
deste combustível. O óleo dessas jazidas não é o melhor - é
pesado - porém é nosso; está em nossa fronteira marítima,
pertence à Petrobras, e o Brasil é líder em tecnologia e
ambições em águas profundas.
A Petrobras foi em frente. Perfurou ao longo do mar, desde
Espírito Santo até a Bacia de Santos, em busca do pré-sal.
Tudo leva a crer que existam campos no mar em uma área de até
800 quilômetros de extensão por 200
quilômetros de largura. As estimativas oscilam entre 30 e 50
bilhões de barris no pré-sal - não é um delírio nacional, esta
é a avaliação do Credit Suisse.
Hoje temos 14 bilhões de barris provados. Com Tupi, Carioca,
Júpiter e seus "compadres", chegaríamos às reservas atuais da
Rússia e da Venezuela.
O óleo do pré-sal é leve. O Brasil pode confiar nos geólogos,
cientistas, engenheiros e tecnólogos que desenvolveremos a
tecnologia para estes campos muito profundos e com espessas
camadas de sal. Ao Eldorado Verde da Amazônia, descobrimos um
Azul, no pré-sal; um novo Eldorado pelo brasileiro e para o
brasileiro. Este é o sonho. Pode-se converter em um pesadelo.
Os EUA consomem 25% do petróleo do mundo. O grande poluidor
bebe, todos os anos, sete bilhões de barris. Tem reservas
pequenas, apenas para quatro anos. Por isto, tem tropas na
Arábia Saudita (260 bilhões de barris de reservas), e frotas
navais no Oceano Índico; estimulou o conflito latente entre
sunitas e xiitas, promoveu Saddam Hussein e deu fôlego a Bin
Laden.
Com o primeiro, alimentou o ódio ao Irã (100 bilhões de
barris); com o segundo, sustentou a rebelião dos afegãos
contra a URSS. Após o 11 de setembro, destruiu os talibãs e,
desde então, acusou o Iraque (100 bilhões
de barris) de dispor de armas nucleares. Destruído Saddam, não
se descobriu nenhum armamento não convencional. Transferiu,
imediatamente, para o Irã a acusação de estar se nuclearizando.
Os EUA mergulharam de ponta-cabeça no Oriente Médio, pois têm
sede de petróleo - aliás, a China e a Índia também.
Até o pré-sal brasileiro, o Novo Mundo não poderia saciar os
EUA; o México já foi depredado (tinha 52 bilhões de reservas e
hoje está com 17). O Canadá tem muita areia betuminosa (custos
extremamente elevados de extração). A Venezuela tem reservas
insuficientes para a sede norte-americana. Alguns países
ficaram sem petróleo: a Indonésia exportou, participou da Opep
e vendeu seu óleo a US$ 3 o barril, hoje importa a US$100 o
barril. O Reino Unido não é mais exportador de petróleo no
Mardo Norte; bebeu e vendeu demais. Este é o pano de fundo de
um possível pesadelo geopolítico. Não interessa ao Brasil que
o Atlântico Sul se converta num Oriente Médio.
A primeira pergunta que ocorre é: o petróleo do pré-sal é
nosso? Logo depois: até quando? O neoliberalismo já promoveu
nove rodadas de leilões.
A ANP - instituição que no passado seria denominada de
"entreguista" - pretendeu acelerar uma nova rodada nos blocos
do pré-sal. Com clarividência, o presidente Lula suspendeu a
rodada e solicitou à ministra Chefe da Casa Civil que
estudasse uma nova legislação de regulamentação da economia do
petróleo. Creio que Lula anteviu um possível "Iraque" em nosso
território. O presidente sabe que a Petrobras pode, técnica e
financeiramente, desenvolver Tupi e outros campos do pré-sal.
Sabe que não se brinca com soberania na "Amazônia azul". Nossa
Marinha de Guerra precisa do submarino nuclear; nossa
Aeronáutica precisa de mísseis e da Base de Alcântara, porém
quem garante que não seremos acusados debelicismo?
Conheço a ministra Dilma desde os tempos da Unicamp. Sei que
é nacionalista e bem preparada; ela sabe que o preço do barril
irá subir tendencialmente. É uma boa "aplicação financeira"
manter petróleo conhecido e cubado como uma reserva
estratégica; rende mais que os Títulos de Dívida Pública
norte-americanos. Um fundo soberano, alimentado com uma
parcela das reservas cambiais de nosso Banco Central, poderia
subscrever ações e financiar a Petrobras. É mais estratégica
esta "aplicação" do que apoiar o Tesouro dos EUA. Dilma sabe
que a China fura
poços e os mantém lacrados, preferindo beber petróleo
importado em troca de suas exportações. Certamente, a
regulamentação não será elevar royalties e contribuições
especiais sobre o petróleo extraído do pré-sal por companhias
estrangeiras.
A premissa maior é reassumir a Petrobras como empresa
estratégica para o futuro desenvolvimento brasileiro e escudo
protetor de uma geopolítica potencialmente ameaçadora.
Para tal, é necessário retirar da companhia sua medíocre
missão atual: "honrar seus acionistas". Aliás, o Dr.Meirelles,
com o desejado fundo soberano, poderia converter o Banco
Central em "acionista", recomprando as
ações que os governos liberalizantes venderam para
estrangeiros.
A diretoria da Petrobras, em vez de saber a cotação da ação
em Wall Street, deveria estar articulada com o presidente da
República, expondo ao Brasil o modo de manter o Eldorado em
nossas mãos."
Carlos Lessa é professor-titular de economia brasileira da
UFRJ.
Débora Medeiros