A casa dos grandes pensadores
 
 
 

RICHARD ZAJACZKOWSKI

 

 

 

OS FOFOQUEIROS

Certo colunista de conhecido jornal da região, sabedor de que o ser humano é ávido por mexericos, costuma colocar pequenas notas sobre o desvio e hábitos da vida particular alheia. Sempre sob o título Quentinha, uma delas saiu assim: "Ele é acadêmico de Odontologia em uma faculdade de Cascavel. Sua namorada que também é acadêmica andou 'pulando a cerca'.
Sabendo da traição de sua amada o rapaz acabou riscando todo o carro do 'suposto' traidor. O pior é que na hora em que ele estava riscando o carro, não reparou que o dono estava dentro. Foi a maior correria. E tem mais..." E dizer que há dezenas de milhares de leitores que se dão ao trabalho de ler esse tipo de literatura de lixo. Afora aquelas pessoas que passam verbalmente essa espécie de notícia.
Verdade se diga, que de vez em quando, por uma questão de curiosidade mórbida, também nós caímos nesse engodo inútil que não leva a nada, não constrói e não dignifica o caráter e a personalidade humana. Em termos genéricos, costuma-se dizer que informação é cultura. Se analisarmos a cultura como o complexo dos padrões de comportamento de uma sociedade, então informação do tipo bisbilhotice, também é cultura, mas ao contrário.
 É a cultura da nulidade do ego manipulado pela vontade de se intrometer e fazer intrigas acerca da vida alheia. Isso causa mal-estar e as pessoas nunca sabem ao certo o que de fato aconteceu e/ou a extensão da mentira. Um trecho da obra Aventuras de Fígaro, de Cora Rónai Vieira e Paulo Rónai, retrata bem essa situação: 'até que ponto os boatos eram verdadeiros, ninguém conseguiu saber, porque sempre houve gente fofoqueira em todas as épocas."
  A fofoca é filha da inveja, produto criado pela alma de pessoas que não suportam ver a felicidade e/ou o sucesso de alguém. Na melhor das hipóteses, quando não querem espalhar a mentira, contentam-se na automediocridade de ver seus semelhantes na eterna patinação das dificuldades financeiras, sem que haja uma perspectiva de um futuro melhor. Nesse caso, a fofoca é autofágica, ou seja, não sai do labirinto podre de suas mentes carcomidas pelo egoísmo avarento por futricas.   
   Para o jornalista Gilberto Dimenstein, nos meios políticos, fofocas e boatos, não eram apenas uma questão ética (sic), mas um ingrediente habitual da vida pública, marcada por intermináveis conflitos, intrigas, esperteza e calculismo. Como exemplo de boateiro, ele cita o então deputado federal Amaral Netto que gostava de implantar "notícias" aos parlamentares. Pedia sigilo absoluto, falava com riqueza de detalhes, dava nomes e diálogos.
   Invariavelmente, fazia isso pela manhã. À tarde, era normal alguém, pedindo sigilo, relatar-lhe com ares de verdade inapelável o boato inventado horas antes, agora amplificado com outros "fatos". No dia seguinte, divertia-se bastante com essa estúpida brincadeira, quando lia nos jornais, "notícias" baseadas em "assessores" ou "fontes bem informadas."
   Se as pessoas fossem mais responsáveis e ponderativas a respeito daquilo que falam, talvez lhes servissem o conto das três peneiras: "Chegou um novo vigário na Paróquia de Santo Agostinho. Logo no primeiro dia, dona Flora foi à sacristia falar com ele. - Padre, o Sr. nem imagina o que me contaram a respeito de João... Nem chegou a terminar a frase, porque o padre a interrompeu: - Espere um pouco, dona Flora, o que a senhora vai me contar já passou pelas três peneiras? - Peneiras? Que peneiras, padre?
   - A primeira é a da verdade. Tem certeza de que esse fato é absolutamente verdadeiro? - Não, como poderia? O que sei é o que me contaram, mas eu acho que... - Então sua história já vazou pela primeira peneira. Vamos à segunda, a da bondade. O que a senhora vai me contar é alguma coisa que a senhora gostaria que os outros dissessem a seu respeito? Claro que não, Deus me livre!
   - Então essa história já vazou pela segunda peneira. Vamos à terceira, que é a da necessidade. A senhora acha mesmo necessário contar-me esse fato, passá-lo adiante? - Não, padre, não tenho necessidade de contá-lo. Dona Flora deixou a sacristia muito envergonhada. Moral da história: antes de falar de alguém, faça o teste das três peneiras; se o fato vazar por uma delas, é melhor silenciar."


 Richard Zajaczkowski, bacharel em Direito, Oficial de Justiça Avaliador e acadêmico de Jornalismo e membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 24/07/2007