A casa dos grandes pensadores
 
 
 

ROSANGELA MALUF

 

 

 

AH, MOÇO...

R.Maluf

Essa é a quarta vez, em menos de uma hora, que abro meu Outlook.

Ansiosa, eu sou sim, e muito!

Estou esperando um e-mail, sabe.

Conheci um carinha numa livraria do shopping, começamos a conversar, trocamos cartões e ficamos de combinar um café para falar de literatura. Ele também procurava por livros budistas. Me pareceu gostar de assuntos orientais, falou de hare krishna, dalai lama, ganesh, do Tibet e da Índia, essas coisas. Fiquei empolgada mas fiz de conta que não. Achei-o um gato, apesar da barriguinha sob a camisa pólo. Também, fala verdade, qual homem , na faixa dos 40, que não tem um montinho ali, mostrando ser grande tomador de chopp? Não sou assim tão exigente, uma barriguinha não tem importância alguma. Nem a falta de cabelo que ele tenta disfarçar penteando para o lado o cabelo já um pouco grisalho. 

Entram textos, artigos anexos, propagandas disso e daquilo, spans e mais spans e nada do recado que tanto quero receber. Abro e fecho minha caixa de entradas enquanto faço o relatório da reunião de ontem. Dr. Oscar está atacado, já liguei, só agora de manhã, umas seis vezes para Brasília. A conta no exterior vai dar problemas para ele, mas eu não estou nem aí. Primeiro por que a secretária mesmo, a de verdade, está de licença, com o filho doente. Pediu uma semana de folga. Aí, sobrou para mim. Me tiraram lá do departamento pessoal para vir trabalhar com o Dr. Oscar. Não tenho o que reclamar dele, é educado, me cumprimenta, mas é virginiano, um chato! Um chato daqueles de causar arrepios. Tudo minuciosamente organizado, meticulosamente planejado e cuidadosamente executado. Um saco! Não vejo a hora de Letícia voltar. Dia inteirinhozinho, ele chama. Fala pouco pelo interfone mas adora chamar a gente. Às vezes, para nada...para pedir um cafezinho, entregar uma folhinha para xerocar...bobagens!

Olha, a barriguinha não me incomoda, o pouco cabelo também não...Cabelo enroscadinho, detesto. Raspadinho, só para jogador de futebol. Bonito os seus cabelos lisos. Achei também que ele tinha um sorriso aberto, desses, escancarados. Sabe gente que sorri com os olhos? Achei ele assim, com jeito de gente franca, sincera. Talvez por isso gostei. Gostei mesmo, mas vou esperar que ele ligue primeiro. Não quero parecer muito interessada, porque você sabe, se eles percebem o menor sinal de interesse, somem no mapa, não dão nem notícias.

O diretor da filial de São Paulo acabou de chegar na Pampulha. Ligou para cá dizendo que o chofer não se encontra no aeroporto. Nem comento com o Dr. Oscar. Bipo seu Alcides e digo para se apressar, o homem já baixou em BH.  Abro de novo meu Outlook...novenas, cursos de inglês, viagem para Bariloche e nada ! Também, olha, nem meio dia!  Vamos que ele chegou no trabalho, aquele monte de coisas para resolver, não deve mesmo ter tido tempo. Respiro fundo, bem fundo. Abro a persiana e sorrio para a serra do curral, linda, recortando o céu azul de maio. Adivinha uma outra coisa que gostei - das mãos dele. Adoro mãos masculinas, daquelas grandes e largas, com  unhas quadradas, sabe como? Me passa a impressão de homem forte, decidido, capaz de longas carícias, afagos, abraços.

Vou esperar mais um pouco, sem ansiedade.

Procuro controlar meus ânimos exaltados...

Passo uma última olhada na sala de reunião.

Chamo a copeira e peço que  troque os guardanapos de papel. Dr. Oscar é capaz de ter um infarto se não vir sobre a mesa os guardanapos de linho, impecavelmente brancos. Ajeito o vaso com copos de leite e gipsies, também brancos. Confiro se está tudo ali, duas garrafas de café, adoçante, os petit fours, impecáveis na bandejinha de prata. Sorte minha a Letícia ter me ensinado tudo senão nem sei como seria. Por outro lado, fiquei como substituta-oficial-da-secretária-mór! Toda vez que ela se ausenta por qualquer motivo lá vou eu substituí-la. Não mais que dez dias, tempo para que ela tire suas férias e volte para a chatice do Dr. Oscar. Dr. Oscar e sua mesa para a reunião das 11h30. E isso lá é hora de reunião?

Volto para a telinha do meu computador mas nenhuma mensagem dele.

Gstaad é uma estação de esqui.

No meu protetor de tela tem uma foto desse lugar.

Acho o nome tão lindo. Gstaad. Montanhas imensas cobertas de neve. Lugar de gente muito fina. Férias de inverno. Como serão essas férias? Com todo aquele frio, nem imagino. O telefone toca. Ligação pessoal para o Dr. Oscar. Não posso passar agora. Reunião é sagrada, nem pensar em incomodar. Só em caso de morte, ele diz. O telefone toca de novo. Do banco. Anoto o recado. Vou ao xerox buscar as cópias que preciso para a tarde. Encontro as meninas no café e paro  por alguns minutinhos. O telefone toca. Dou uma corrida e volto para atender. Ninguém responde. Saio novamente em direção ao xerox. Encontro a Lúcia no corredor, pergunto pelo filho morando em Chicago. Ela diz que está bem mas que morre de saudade. E começa a chorar. Sem saber o que dizer, volto para minha sala à espera do meu-moço-do-sábado-no-shopping. Mas é o Dr. Oscar que me espera. De novo persigo na telinha a mensagem tão esperada. Que demora... oito, nove, dez mensagens. Nenhuma que me interesse, quero dizer, nada dele! Daqui a pouco saio para o almoço. O telefone toca outra vez. É a esposa do Dr. Oscar. Desligo e peço para o seu Alcides que passe na academia e a leve em casa.!

Ah, moço da livraria, porque você não dá o ar de sua graça ? (Suspiro).

Hoje é quinta-feira. Não vejo a hora da Letícia voltar . Ando cansada com toda a trabalheira que isso dá - reuniões e mais reuniões. Até briga houve na terça feira de noitinha. Também, servir uísque em reunião, queria o quê ? As pessoas vão se alterando deixando de lado o bom senso e a boa educação. Mas não foi nada sério. (Outro suspiro!) Chegam as correspondências. Um monte de envelopes brancos, envelopes pardos, envelopes amarelos e azuis do correio, caixinhas de sedex. Dr. Oscar, em reunião fora da empresa,  me deixa mais tempo para abrir tudo agora e deixar prontinho sobre a mesa dele. A serra do curral está lá, no mesmo lugar. Eu já nem ando sorrindo mais. ..

Estou desistindo do moço-da-livraria. Se ele quisesse, já teria ligado, não é? Eu sei...deve ter se desinteressado, ou talvez, nem se interessou de verdade verdadeira. Eu é que fico fantasiando as coisas achando que só porque trocamos cartões .... A Lucimara tem razão. Vou com muita sede ao pote. Quero tudo a tempo e a hora como se as pessoas não tivessem vontades e desejos, só o que eu sinto é que conta. Paciência. Sou assim, fazer o que? O boy entra em minha sala e me entrega uma cestinha de violetas. Sem cartão, sem nada. Um vasinho roxo, um rosa e um branco. Rodeado de musgos, muito delicado, singelo mesmo. Quem será? Não é meu aniversário ...nenhuma data especial. Deixaram na portaria e só deram o meu nome e o andar. Estranho. Passam-se uns vinte minutos, O telefone toca de novo. Letícia perguntando se gostei das flores. Adorei, eu digo. Desabo como uma montanha de neve, em Gstaad. Por um instante pensei que pudesse ser o moço! Que droga! Que decepção! Mais uma ! O telefone toca de novo...quase seis horas da tarde. Não, Dr. Oscar, nada de importante. Está bem, bom descanso para o senhor. Fico louca para ir embora. Desligo o computador, vou ao banheiro, me arrumo um pouco, pego minhas coisas, desligo o ar condicionado. O telefone toca.

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Meu coração salta pela boca. Me sento para tentar respirar normalmente. Ofegante, deixo sobre a mesa a cestinha de violetas, obrigada Letícia, muito obrigada pelas flores. Ah, moço, que bom que você ligou. Vou sim, vou correndo agora mesmo para o Café Três Corações me encontrar com você...para falarmos de literatura, é claro!

Rosangela Maluf

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 01/08/05