A casa dos grandes pensadores
 
 
 

ROSANGELA MALUF

 

 

 

DOMINGO À NOITE

R.Maluf

- Olha, Suzana, quem já está de saco cheio, sou eu.

Já é tarde, amanhã trabalho cedo e você fica aí nessa reclamação sem fim como se eu tivesse culpa pelos seus insucessos amorosos. Falei mais de mil vezes, esse cara não é flor que se cheire. Basta prestar atenção ao que ele lhe disse, um papo atravessado, sem finalidade, apenasmente querendo levar você para a cama. Só podia dar mesmo numa trepada desastrosa. Eu sei, claro que sei, sei da carência, solidão, tristeza, final de semana sem nenhum plano de ação, o que fazer na sexta feira à noite. Tudo isso, já sei. Você já me falou, já disse, vive repetindo, batendo na mesma tecla. O papo não muda, é sempre a mesma ladainha.

Sei da sua dificuldade em ficar bem, sozinha. Sei, vive falando que sente falta de companhia, que não nasceu para viver só, mas puxa, é preciso fazer sua parte. Ser mais seletiva, se vender mais caro, se dar mais valor, sabe ? Não é possível que nesse mundo de meu deus não exista um homem decente que possa lhe fazer feliz. É só uma questão de tempo, um dia ele aparece. Nem precisa ser um príncipe, pode ser um sapo mesmo. Lembra do Sapo ? Feio de dar dó, mas como animava nossas noites com aquela voz de chicobuarque ! E aquele violão que só ele tocava tão lindamente. O mercado está terrível, todo mundo sabe disso. Muita procura e pouca oferta, qualidade em baixa e olha que aqui em Beozonte a situação ainda é pior. Dizem que existem 10 mulheres para cada homem. Não sei de onde tiraram essa estatística mas que assusta, assusta. Olha, Su, quantas vezes já falamos sobre os seus homens, sua relação com eles, os cafajestes, os intelectuais sujinhos, com óculos na ponta do nariz, os classe-baixa, sem ter sequer  onde cair mortos, pobretões rodando de fiat147, os empresários que sua prima lhe apresenta, os bons partidos da cidade, onde é que estão os bons partidos dessa cidade ? Agora vem com essa de que se o cara oferecer mil, você ainda dá troco. Por favor, né, você quer que eu diga o que?

Pára, dá um tempo para você mesma. Ponha a cabeça no lugar. Faça um balanço do que temos conversado nas últimas semanas e tire suas conclusões. Você está muito mal, minha amiga, pode acreditar. Auto-estima lá em baixo, se contentando com migalhas, com restos; abatida, cheia de olheiras, parece um urso panda. Eu, se fosse você procurava urgente um médico. Sim, e um terapeuta também, porque só pode ser coisa séria. Mas nada de pânico, nada tão grave que um lexotan, um prozac não resolvam. Uma mulher tão bonita, ainda nova, quantos anos mesmo? Ah, sim, trinta e seis. Mulher inteligente, sensível, culta, viajada, dois casamentos, nenhum filho, independente, apartamento próprio (financiado pelo BNH, mas é seu!), um carrinho maneiro, importado. Olha só, o que você quer mais? Ou você se acha a única mal amada e que não tem nenhuma garotinha, tipo vinte e poucos,  por aí lamentando a falta de um ombro amigo?

Sei...sei...mas com o Lourenço acabou faz tempo. Se mandou para o Canadá e não volta tão cedo. Não foi a irmã dele que disse que o cara, desde a segunda semana lá, já está morando com uma vietnamita, em Quebec? E então, vai passar o resto dos seus dias se lamentando por não ter tido paciência com ele? Que César o que? Ele nunca te quis de verdade, te esnobava, insinuava que você era uma burguesinha, metida à classe A.  Ainda que fosse de brincadeira, eu o achava um grosso, um mal educado, com aquela barbicha nojenta despencando queixo abaixo. Não...você não é azarada, mas está dando uma de burrinha. Claro que sim . Está...Está sim. Nem parece a economista brilhante que é.  Voltar pra quem ? Ah, juro que você pirou de vez. Voltar para uns jantarzinhos à luz de vela, vinho chileno, e várias tentativas seguidas de várias desistências? Foi você mesma quem me contou da disfunção erétil do Tide. Antes era terrível, agora pode ser que não ? Ah, tem dó.

Estou lhe ouvindo, mas continuo morta de sono, amanhã...

Sei, então telefone para ele, mande e-mail e, pacientemente, aguarde uma resposta. Que história é essa, retomar um caso de 12 anos atrás. Você nem sabe se ainda é  o mesmo telefone e o e-mail que a sua ex-cunhada lhe deu já pode ter mudado. O cara casado, cheio de filhos, levando a vida sossegadamente, em Santo André com a sagrada família. Acho loucura.

Su, você está bebendo?  Vodka com sucomais, tá  bom. Você é quem sabe do seu fígado amanhã. Olha, vamos almoçar na 3ª. ou na 4ª. Assim a gente conversa mais um pouco. Não, já estão todos dormindo.Sabe que horas são ? Quase meia noite, o fantástico acabou faz tempo! Vamos parar por aqui? Eu sei amiga, eu sei e por isso escuto até o fim. Mas depois de tanto tempo, ouvindo sempre as mesmas histórias, fico sem paciência. Me desculpa, vai. Su, eu adoro você, desejo que encontre um homem legal, que lhe faça feliz, que lhe faça um filho, do sexo masculino para você colocar nele o nome de Pavlo. Conheço seus sonhos, sei de suas fantasias, é normal que seja assim, mas discordo de sua forma de ir à caça. Me incomoda e por isso à vezes, me impaciento com suas historias já por demais conhecidas. Não leve a mal...

 O que ? No celular? Espero, atenda então... Hum...sei....e você vai ? a essa hora tomar um vinho com o Caio que está em BH por dois dias. O grisalho deprimido e gaguinho, o que usa peruca ? Então tá...você é quem sabe. Que tenha uma noite bem divertida. Bonne soirée. Beijos. Tchau  

Rosangela Maluf

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 01/08/05