A casa dos grandes pensadores
 
 
 

ROSANGELA MALUF

 

 

 

OS OLHOS CLAROS DE JOÃO

 R. Maluf

 Nem sei mesmo porque me lembrei do João !

 Não falei nele, não vi nada que me fizesse recordá-lo; faz tempo que não sonho com ele; não remexi em minha caixa de cartas e muito menos revi suas fotos, escondidas e bem guardadas, já bastante amareladas pelo tempo.

 Estou sozinha em casa, dou uma espiada nos jornais, tento ler um pouco antes de dormir. Preparo um chá de camomila – me sinto relaxar um pouco a cada gole. Troco o CD. Imagino que Vivaldi possa me trazer para dentro de mim. O som dos violinos me enche de uma ternura inexplicável e aí meu coração me diz que posso salvar-me da loucura que nos acomete a todos, sem exceção, neste mundo de hoje. Ainda há salvação nas canções, nos poemas, nos poucos corações cheios de amor, nos raros namoros ao luar, nas transas selvagens, beijos calientes, mordidas, arranhões, gritos e sussurros, de couper le souffle! Há de haver...

 Se João ainda andasse por aqui talvez a vida não me estivesse sendo assim tão dura. Teríamos do que rir, sobre o que falar. Ele com aquele seu jeitão italiano, sua voz de tenor, aquelas mãos enormes, grosseiras e ao mesmo tempo tão ternas. Me fazia tão bem o seu colo. Me fazia feliz ouvir seu respirar ruidoso, por vezes cheio de tosse. Era um pigarro persistente que resistia aos anos mesmo depois de parar com o cigarro.  Ah, João se você estivesse aqui para me fazer companhia, assistiríamos juntos aos jornais na TV, jogaríamos cartas após o jantar, falaríamos da vida alheia, você me contaria pela milésima vez sua infância na Itália, cantaria para mim com sua voz de tenor...Sinto muito a sua falta, João.  Falta de mergulhar em seus olhos claros, de me deitar quietinha em seu peito,  ouvir bater o seu coração. Sinto falta do seu cheiro, cheiro de homem limpo.  Eu te amei tanto, João e agora...

 João era assim, diferente. De uma simplicidade que encantava. Nada em João me incomodava. Não mudaria nada nele, nem um defeito sequer. Às vezes eu me punha a pensar se era ele deste mundo, ou talvez quem sabe, do outro...daquele que nem mesmo sabemos se existe ou não.  Tinha pensamentos estranhos, tão diferentes dos meus.

 João adorava a primavera: durante esses meses os ipês amarelos eram puros raios de sol, muitas vezes enchendo o pátio interno do casarão com um imenso tapete dourado. Mais de uma florada, algumas vezes duas,três...não sabíamos explicar por quê. Eram suas flores preferidas e João se divertia deitado na rede, esperando que seu rosto se cobrisse das flores que caiam das árvores. Eu ficava pensando em beija-flores, em João semente, em João ponto de interrogação.

 E assim, sem mais nem menos volto no tempo e meu coração vai se enchendo de um calor gostoso, desses que invadem o peito trazendo mansidão e paz...

 Fazia tempo que minha vida era um vazio só...Mas a verdade é que depois que me separei do segundo marido, me ficou um amargo na boca, um frio no sentir e meu olhar para o mundo transformou-se por completo. Fui minguando aos poucos. Fui secando. Ficando árida. Não por paixão. Não por saudade mas por desânimo e preguiça de um recomeço. Havíamos passado bons anos juntos, nem tenho do que me queixar, mas fomos nos distanciando tanto que no final ele estava aqui e eu no Japão. Mesmo assim foi doloroso, dolorido, as meninas sentiram muito a falta do pai, falta que durou dois anos só e logo depois foram encontrando um jeito de se falar: ele morando em Salvador, onde lecionava na universidade federal e elas aqui.

 Eu optei por continuar murchando, por dentro e por fora. Me olhava no espelho e sentia pena de mim. Ah, isto era o mais triste! Me achava tão feia, acabada, um caquinho, uma coisinha de nada . E de miúda que sempre fora me encolhia cada vez mais. Fui perdendo tudo : peso, viço, olfato, paladar, desejos, ilusões, virei um quase-nada. Aos poucos fui deixando de visitar amigos, de sair no final de semana, recusando convites para casamentos, aniversários, achava tudo uma chatice. Fui me fazendo de vítima, uma dor aqui outra acolá...abria mão de qualquer situação para que elas, as meninas, pudessem viver a plenitude de seus vinte anos. Me sentia aliviada quando o telefone não tocava, quando ninguém apertava o interfone e mais aliviada ainda quando a campainha da porta parecia nem existir. Me fazia bem o silêncio. Inês me perguntava sobre depressão. Eu dizia, não, isto é meu modo de ser. Fico triste não, gosto de ficar sozinha, sem ninguém para incomodar. Mas ela insistia para que eu tomasse fluoxetina, santo-remédio. Eu sorria, carece não; preciso de jeito nenhum...

Assim o tempo foi passando, passando, eu cada vez mais quieta em meu mundo descolorido, sem graça, sem flores, sem festas. Fui ficando insensível também. Gostava muito de ficar só, em casa, lendo e fazendo palavras cruzadas. Cozinhar eu não gostava, nunca gostei e não gosto até hoje. Raramente via um programa na tv, achava tudo pobre por demais, sem conteúdo algum. Aprendi a fazer crochê. Começava de um tudo e terminava nada. Aprendi a tecer tricô, não passei de um chale que dei de presente para minha irmã Fany. Retomei a prática da yoga, a meditação, voltei ao livro de orações, recomecei a rezar, e aos poucos fui me transformando em uma beata só: sempre que podia corria para igreja. Logo eu, que nunca fora de muita missa, sentia um alívio diante do altar; como se minhas dores fossem diminuídas pelo ambiente silencioso, respeitoso, majestoso da catedral. E ele lá pregado na cruz, bem que poderia me ajudar, me socorrer. Me socorre, Ó Deus!

 As meninas insistiam tanto para que eu parasse com aquela idéia ridícula de me fazer mais idosa, mais doente, mais rezadeira, mais infeliz! Mas a minha infelicidade tocou em um ponto estranho: mais triste eu ficava, menos ia sentindo o cheiro e o gosto das coisas.  Meu olfato se foi, assim como a minha alegria de viver. Paladar, quase não tinha. Pouco me importava o que comia: doce, salgado, ácido ou amargo. Tudo me era tão igual! Se foram também, o meu ânimo, minha energia vital.

 Tudo andava ruim por demais. Sem dinheiro, sem olfato, sem paladar e sem sono. Pouco ânimo, pouca alegria, pouco dinheiro. Resolvi vender umas terrinhas. Coisinha pouca - um pequeno sítio que há muito tempo ninguém visitava. Na verdade desde que nos mudamos de Solidão nunca mais aparecemos por lá. Além do mais, ficava ao norte, pertinho de Milagres, pouco mais de 20 minutos de carro pela estrada vermelha e poeirenta. Muita seca. Terra ruim onde há algum tempo atrás, plantamos até café.

 Cheguei em casa de minha irmã disposta a resolver tudo em uma semana: procurar o cartório , conferir a papelada, ver o preço do terreno e procurar um interessado. Entretanto, apesar da minha dispoisção inicial a  semana não fora suficiente para tudo resolver. Voltei para a capital. Vim rezando para que aparecesse um comprador, bom e honesto, fácil de lidar e disposto a pagar pelas terras o preço justo; nem um centavo  a mais. Tinha muita esperança de que o comprador apareceria, eu precisava muito daquele dinheiro, muito mesmo.

 Rezei mais de dois meses sem parar, em casa, na igreja, no trabalho, dia após dia, debulhando o terço, até que  Deus um dia me ouviu.

 Dona Heloísa, telefone pra senhora. Já vou, gritei saindo do banheiro. Quem é? Perguntei. Isa falou assim, é de Milagres. Ah ! Alô, sim , sou eu, pois não, como vai o senhor. É deveras, estou vendendo sim. Sei. Conhece Sua Caldeira?  Do cartório? Pois é, tá tudo com ele, o senhor pega as informações e depois, se for do seu interesse, liga de novo, podemos marcar para ver o sítio, assim o senhor conhece, vê se é do seu agrado. Tá bom, nada a agradecer, para o senhor também. Foi a primeira vez que falei com João.

 Rezei mais um mês sem parar, podia tanto dar certo. Havia ligado para a minha irmã, sondando quem era o interessado, o tal homem, e ela me havia dado a ficha  completa. Fiquei esperando que ele voltasse a ligar, nada. Resolvi dar um pulo até Milagres e de lá até Solidão. Aproveitava o feriado de Corpus Christie e quem sabe, não dava um empurrãozinho  nas coisas paradas.

 Fui de ônibus. Me sentia insegura ao dirigir sozinha e as meninas tinham compromisso, cada uma viajando para um canto, com amigos de faculdade. Também tinha outra coisa, achava até bom aproveitar a viagem de ônibus. Me dava um entendimento das coisas, via tudo de um jeito tão calmo, com o tempo ali passando devagar, tinha era tempo para muita reflexão. Assim que eu achava. E pensava também que estando sozinha colocava melhor minhas idéias no lugar. Ficava admirando a natureza, as cores, as coisas e pensando na vida, nas pessoas, em tudo que já havia se passado, no que acontecia no presente e o futuro,  como seria ? O que nos reservava o futuro? Pensava nas meninas. O que seria da vida de cada uma delas? E da minha vida ? Não sabia nada de nada.

 Cheguei em Milagres. Fany foi me pegar na rodoviária. Ela e a neta, filha de Dulce. Tão engraçadinha, perguntadeira, curiosa, linda a menina, mas chatinha- eu não tinha mais paciência para lidar com crianças, ainda mais pequeninas assim. Quatro anos de pura perguntação e que não nos deixava conversar direito.

 _ Minha irmã, já sei tudo sobre o tal do homem. Você se lembra do Seu João? Aquele do Mato Cerrado? Do café. Lembra sim. Que a mulher dele perdeu o primeiro filho e ele de triste ficou mais de mês bebendo sem parar. Foi encontrado quase morto, lembra? Passou tempos no hospital municipal, sem memória e sem fala. Ficou foi tempo sem aparecer. Quando saiu foi direto para a fazenda. Sumiu de Mato Serrado. Ah, claro que nós contamos para você. Quando ouvimos falar dele de novo? Quando ele tirou uma menina da zona, engravidou a coitada e levou a pobrezinha para fazenda. Dizem que acabou se casando com ela. Foi um falatório, não se falava noutra coisa aqui na cidade. Fazenda dele, sabeondeé ? Perto da sua, pros lados de Solidão. Então, foi só enchendo a mulher de filho, uma escadinha. Lembrou? Pois é. Ele é o comprador da terra sua. Já falou na barbearia do Jonas que vai comprar mesmo a fazendinha. Tá pertinho das terras dele. Se eu fosse você, crescia o preço...o homem tem interesse por demais nas terras, Sá!

 No dia seguinte fui ao cartório. Fala com um, fala com outro, cumprimento velhos conhecidos de Milagres. Contudo saio de lá sem os papéis de que eu precisava. Peço para Seu Honório me levar até a fazenda do Seu João. Fany vai junto. Poeirão daqueles, bem vermelho, parecendo nuvem. Fico triste com o que vejo pelo caminho. Tudo tão seco, tão diferente do tempo em que tocávamos a fazenda. Sempre difícil, é verdade, mas agora, quase impossível. Fany não pára de falar. Conversa comigo, dá ordens para o Seu Honório e eu caladinha no meu canto, pensando, pensando...

 Voltamos no mesmo pé em que viemos. Seu João não estava. Deixei com Corisco o telefone da casa de minha irmã. Que ele me ligue quando chegar, falei para o ajudante. Careço de falar com ele, é  urgente. Diga que é a dona da Solidão, estou aqui só até amanhã e depois volto para a capital.

 Voltei para a capital e nada de falar com o Seu João. Desanimei. Me pareceu que ele desistira do negócio mas não quisera falar, sei lá. Vai saber o que se passa pela cabeça de um matuto destes. Matuto nada, dizia Fany, Seu João tem estudo, ficou assim depois da morte da mulher, mas dizem que tem até diploma de doutor, doutor no estrangeiro. Diploma, sei.

 Uma tarde recebi um recado escrito por Alzira. Finalmente iria me encontrar com o italianão. Peguei com São Judas Tadeu; que ele encaminhasse um bom término para o negócio. Eu precisava tanto e para o homem também haveria de ser bom, as terras já coladinhas às terras dele. Valei-me, meu santo das causas impossíveis.

Voltei para Milagres. Mandei Seu Honório até Mato Cerrado dar o recado pro homem. Se ele não estivesse, que  deixasse o bilhete com Corisco.

 Me arrumei um pouco mais do que de costume. Passei um perfume qualquer, só um pouco, bem pouco. Passei batom. Coloquei um vestido pouco usado. Estava quente e achei que ficaria mais bem apresentada. Afinal iria fechar um negócio. Peguei o carro de Fany. Vou sozinha, é coisa entre ele e eu. Precisa vir junto não. Daqui a pouco estou de volta.

 Corisco veio abrir a porteira e já que o Seu João aparecia na varanda. Tirou o chapéu, abriu o portãozinho e desceu as escadas. Ficou parado enquanto eu estacionava o carro embaixo dos hibiscos. Entra, Dona Heluísa, a casa é sua.

O café estava servido, Sinhana havia deixado a fazenda grande e viera para dar uma ajeitada em Mato Cerrado. Discreta, saiu para o terreiro com a desculpa de olhar umas quitandas assando no forno de barro. Dali deve ter ido de volta pois não a vi mais.

 Conversamos o que tinha para ser conversado e ele anotava numa cadernetinha tudo que deveríamos fazer nos próximos dias: papelada, assinaturas, advogado, banco, cartório, essas coisas. Ao contrário do que eu esperava demoramos muito mais tempo que o previsto e nesse vai e vem na boléia com o Seu João fomos nos tornando mais próximos, algumas lembranças de nossos passados, nos confidenciando alguns segredos, algumas esperanças. Dia após dia, durante duas semanas, nos vimos todas as manhãs e todas as tardes. À noite, cada um em sua casa, mortos de cansaço. Foi naqueles dias tão cansativos que comecei a gostar de João.

  Era tão bom conversar com ele. João tinha um jeito diferente e quando me chamava de Dona Heluisa eu não conseguia conter o riso. A gente conversava sobre tudo e eu aprendia tanto com ele. Nunca tocava no nome da mulher nem dos filhos. Também nunca perguntei, nem me interessava saber. Uma única vez me apresentou Romeo, filho mais velho que cuidava dos seus negócios. Nunca mais o vi nem na fazenda nem na cidade. Uma única vez perguntou-me  o nome das minhas filhas : Alice e Elisa, eu disse. Bonito! Bonitos nomes, ele falou.

 Quando toda a papelada enfim ficou pronta e finalmente tudo se acertara. Eu me preparava para voltar para a capital. Achei o João calado naquele dia, sempre parecendo que iria abrir a boca e dizer algo. Seria muita ingenuidade minha imaginar que pudesse ser um assunto mais sério referente a nós dois; afinal nada se passara que não fosse apenas cordial, comercial e normal. Mas sabe que lá no fundo eu bem que queria ouvir uma declaração de amor?

 Depois que conheci o João e nos aproximamos para resolver a compra das terras eu voltara a sentir cheiros. Primeiro do café torrado em casa de Fany, depois o cheiro do pequi no mercado de Milagres e pensei comigo, se sinto cheiro de novo estou voltando à vida outra vez. Será que estou apaixonada ? Desde que o falecido se fora, meu olfato se foi junto e fiquei uma mulher sem cheiro de nada.

 Uma tarde fria de julho, já com toda a papelada pronta e assinada e o dinheiro depositado em minha conta achei que o fim de um negócio como aquele merecia uma celebração. Comprei uma garrafa de vinho, levei umas coisinhas fatiadas, uns pães e fiz uma surpresa para o João, sem avisar. O sol começava a se esconder banhando tudo de um alaranjado tão lindo. João ficou muito feliz. Não sabia o que fazer para me agradece re tentava a todo custo, me agradar. Parecia um adolescente, assim que nem eu com o coração saindo pela boca.

 Foram poucas palavras, muitos carinhos, beijos entre silêncios e suspiros. Ainda dávamos conta do recado e como foi bom! Me senti viva de novo, quase não trocamos palavra mas o olhar de João dizia tudo. Não dormi na fazenda, voltei dirigindo, feliz e cantando. Quando cheguei em casa todos já dormiam e eu não queria contar para ninguém. Depois de tantos anos eu tinha um segredo só meu. só meu.  E nada de Seu João...só João !

 Prática, resolvi na manhã seguinte voltar para Beagá. Mandei recado pra ele, que não se preocupasse, estava tudo bem e logo eu voltaria para passar os últimos dias das férias de julho. Minha filha havia ligado e precisava de mim, resolver detalhes da formatura.

 Durante estes poucos dias fora de Milagres recebi várias cartas de João. Nada de computadores, e-mails, telefonemas – cartas, com cheiro de papel, envelope cheirando a cola, os selos.  Ficava imaginando ele na cozinha, escrevendo na mesa grande, pensando no que me dizer, indo ao correio para postar todas aquelas mensagens doces. Ah, João me parecia tão sincero mas e o medo que eu sentia ? Era muito maior que sua sinceridade.  Acredite! Junto com as cartas me chegavam fotos dele ainda criança, com os pais, em Carmona, na Itália. Achava tudo tão engraçado, nem parecia que toda aquela história se passava comigo. O certo é que não voltei para o final das férias, estava embevecida com as cartas, as fotos, o cheiro do papel que agora eu voltara a sentir. E respondia a todas elas.  Tirava do vasinho uma violeta, e com durex pregava a florzinha no papel. Também enviei uma foto, mas me senti tão ridícula. Imagina se as meninas soubessem destas coisas. Eu morreria de vergonha, por certo!

 Casamento eu não queria, nem João poderia – afinal tinha mulher e filhos. Amante, eu não aceitava. Foi um custo me deitar com ele sem ter nenhum compromisso formal. O que eu queria então ? Queria que ele viesse a Belo Horizonte, que se hospedasse em um hotel bem simplesinho, e eu me encontraria com ele todos os dias, na hora em que ele quisesse. Mas João achava que só isto era pouco. Resolvemos que uma semana viajando poderia ser bom pra nós. Fomos para uma praia tranqüila, sem crianças gritando, sem sol forte demais, água morninha e cada final de tarde mais lindo que o outro. Eu cuidei de tudo e ele cuidou das mentiras que falaria com a família. Com as meninas foi bem mais fácil. Tinha uma grande amiga morando em Guaraparí e  para me encontrar com ela eu viajaria no próximo sábado. Por poucos dias.

 Foram dias e noites fantásticas dos quais me lembrarei com profunda emoção para o resto de minha vida. Cada vez nos gostando mais começava a ficar difícil encontrar uma solução para nós dois. Não poderíamos simplesmente chegar para as pessoas e contar a verdade, o que se passava entre nós. Também não poderíamos assumir nada. João não era um homem livre. Livre era eu, que também não pretendia se prender. Queria ficar assim, achando tudo tão moderno, tão bom. Comecei a gostar da minha imagem no espelho, passei a me olhar com mais gosto, mais amor.minha auto-estima, finalmente, aumentava dia a dia.

 Quando voltamos dos dias passados em Jacaraípe achei que seria bom ter uma conversa franca com João. Olha, João, não acho que vale a pena, sabe. Sou franca. Não quero lhe causar tristeza depois.Não sou a companhia ideal que você gostaria que eu fosse. Veja bem, estou só há seis anos e nesses anos todos meu coração foi se fechando aos poucos até se fechar por completo. Trancou por dentro. Nem que eu gostasse assim tanto dele, você entende João,  mas achei uma ingratidão grande por demais e fui ficando com o pensamento só naquilo, só na ida dele, nas meninas e eu. Sozinha, com 2 filhas.  Foi fácil não. E daí, fiquei assim, uma mulher seca, sem vontade, sem alegria, sem saudade. Sinto saudades não. Lembrança boa ou ruim, nenhuma diferença me faz. Minha vida é como um livro de gravuras, umas coloridas, outras preto e branco, e eu apenas vou passando as páginas. Mas saudade, de ter vontade de voltar ao passado, por que foi bom, por que foi gostoso, tenho não. De nada. Vejo fotos, e nem parece que sou eu. Não me vejo em lugar nenhum. Como se nunca tivesse guardado um sorriso, uma imagem que me fizesse feliz.

Não me lembro mais nada de bom, nem da minha infância, de pai, de mãe, da fazenda velha, das tardes de calor bravo, o banho no rio, nada eu lembro com  gosto, lembro só por lembrar. A professora, as meninas da escola, as festas, as procissões na igreja, o canto coral! Tá tudo registrado, sabe. Mas só isto. Casamento, nascimento de filho, morte de parentes, nada. Eu vivo numa bola de vidro, uma redoma, é isto – eu vejo tudo e todo mundo me vê, mas é só. E tem mais, o futuro me assusta. Tenho medo, muito medo de ser coisa passageira, assim, só um fogo de palha e depois, o que será de mim, depois? O que será de nós, se não der certo ? E se der certo, como é que vamos fazer? Vejo solução não.

 Olha só, presta atenção. Outro dia mesmo lá na praia, nós dois deitados na areia, começou a chover, lembra? A chuva caia assim, comprida e eu fiquei ali pensando na minha vida, querendo sentir saudade de nós dois, daquele momento, de alguma coisa, sem conseguir. Querendo sentir cheiro da chuva, da areia molhada, a maresia mas eu não podia, não conseguia. Aí, João, você me fala essas coisas todas. Fico sem jeito. Sou mulher acostumada a ouvir coisas assim não. Fico sem jeito, fico envergonhada, me sinto mal, mal mesmo. Mas também reconheço que culpa você não tem. Nas coisas do coração a gente não manda. Mas não posso mentir nem deixar que você se engane a meu respeito.

 Ontem fiquei pensando enquanto você dormia no sofá. Que diacho, sô. Nesta altura da vida, o que este homem tem que me dispara assim o coração,  deixando ele acelerado, batendo que nem doido. Como pode uma mulher na minha idade!   Que resposta ? Resposta de que ? Fiquei ensaiando, falando baixo um discurso para dizer a você que minha resposta é não. Acho que já chega. Melhor parar por aqui. Poupar sofrimento para nós dois, João.

 Os olhos de João se fizeram mais claros ainda e dentro daquele azul eu quis mergulhar. Dizer que nada daquilo era verdade. Que eu faria o que ele quisesse. Que pouco me importava se fosse ilegal, imoral, inadequado, proibido, censurado.

Ficamos em silêncio  por longo tempo. Eu havia falado demais, muito mais do que ele precisava ouvir e ele nada dissera. Me pegou pela mão e fomos caminhando.

 Do aeroporto de Vitória desci na Pampulha e João seguiu para Montes Claros, ficava mais perto de Milagres. Viemos em silêncio. Olhares cheios de carinho, mas nem uma palavra sobre nosso ponto de interrogação.

 Venho marcando um xis não calendário da minha agenda.

Faz 32 dias que não falo com João. Mais de mês que voltamos das férias.

Às vezes me arrependo de ter sido tão direta...poderia ter sido mais flexível, deixar as coisas como estavam. E se ele não me procurar nunca mais? Se eu estiver perdendo a maior chance da minha vida? Tantas perguntas sem respostas me deixam com dor de cabeça. Abaixo a televisão, vou até a cozinha. Preciso de uma neosaldina. Procuro a caixinha de remédio, do lado, em cima da bandeja um envelope...

João!

 
Rosangela Maluf
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  15/12/2005