A casa dos grandes pensadores
 
 
 

ROSANGELA MALUF

 

 

 

Rei dos Hunos. com
 
                                                                                                         *para Z. por ter me confiado sua estória!
 
 
Ele parecia ser um homem tão sincero.
Se abrira tanto comigo! Desde os nossos papos iniciais, relatara-me fatos de sua infância, de sua total solidão, sem os pais, sem nenhuma referência significativa a não ser de um tio falecido precocemente quando ele tinha apenas 12 anos. Nenhum laço de família. Uma adolescência marcada por ausências nunca mais preenchidas, poucas e vagas lembranças. Tímido, contido, introvertido criara seu mundo particular de onde raramente saía.  Foram necessários vários encontros até que entre nós ficasse estabelecida uma relação de confiança - eu ouvia, ele falava. A ele fazia-lhe bem ter para quem contar o que lhe afligia, agradava ou incomodava; e desde o princípio, apesar das mentiras que povoam os bate-papos da Internet, sempre confiei no que  ouvira dele.
 
Os seus primeiros trabalhos, remunerados. Sua luta pela sobrevivência. O colégio, o cursinho, a faculdade. A turma da escola. As primeiras transas. Mulheres significativas em sua vida, as marcas que nele haviam deixado, momentos felizes e infelizes, sua vida afetiva. Os enganos, os desenganos; encantos e desencantos. Os grandes vôos, as grandes quedas. E assim, sempre tão atencioso e gentil, educado e amável, conversar com ele tornara-se um prazer. Prazer que podia durar horas e horas, diante da telinha. Pelo computador, assuntos dos mais variados, temas diversos, envolventes, encantadores.  Virtualmente, não percebíamos o tempo passar. Era muito bom.
Nossos papos rolavam madrugada adentro. Eu já era viúva naquela época e não pensava em me relacionar de novo com alguém. Além do mais tudo me era muito novo – há muito pouco tempo me tornara uma internauta e maravilhada passava horas e horas diante da tela do computador, encantada com as novas pessoas que passaram a integrar meu universo. Que coisa a tecnologia! Falar com tanta gente ao mesmo tempo, de qualquer parte do mundo, de qualquer ponto do planeta. Não via a hora de chegar o final de semana e procurar meus amigos de solidão espalhados pelas salas de bate papo. Depois aprendi a cadastrar meus principais contatos no MSN e fui ficando seletiva e mais exigente com meus amigos virtuais, a quem  eu adorava.
 
Fiz vários amigos. Tive a curiosidade de conhecê-los pessoalmente e encontrei-me com vários deles. Descobri pessoas com amigos em comum. Trocava informações sobre Egiptologia aos sábados, na sala 49, falando horas e horas sobre Ramsés & cia. Em outra sala eram cinéfilos como eu, devoradores de lançamentos. Falávamos de filmes, diretores, fotografia, trilha sonora. Discutíamos de Hitchcock a Spielberg, Godard, la nouvelle vague, era tudo tão bom. De Pasolini, Antonioni a Bergman passando por Glauber Rocha, Khoury, tudo era motivo de excitação. Adorávamos aquilo. Unidos na solidão muito conhecida pelos insones, nos divertíamos assim. Havia ainda grupos interessados em tarô, wicca, runas, e outros temas esotéricos. Um outro sobre literatura onde encontrei famosos e anônimos muito interessantes com os quais passei a conversar com certa freqüência. Era tudo muito bom e me preenchia os momentos vazios.
 
Por mais interessante que fosse qualquer assunto nada me aquecia mais a alma do que quando ele entrava na telinha. Era uma identidade tão grande, afinados no mesmo diapasão, gostávamos de culinária, yoga,  cinema , Vivaldi, budismo, logística ambiental – assunto nunca nos faltava.  Assim passaram-se dois meses, um tempo longo no mundo virtual. Natural que a certa altura dos papos trocássemos fotos. Não era um homem bonito, mas feio também não era. Pareceu-me interessante. Nada de especial, nenhuma característica marcante que me chamasse a atenção. Mas o conjunto, o sorriso, ah, daquilo eu gostei! Por várias vezes deixara transparecer o  desejo de encontrar uma companhia, com quem pudesse dividir sua vida solitária. Mesmo não sendo eu esta mulher continuamos por vários meses trocando correspondência quase diária, um se apoiando no outro, feito bengalinhas.  Falávamos do trivial, como foi o seu dia, que filmes assistiu, qual a música ouviu hoje, o que fez de bom, e os filhos, como estão, chove aí? ...Estas coisas! Não íamos muito fundo nos sentimentos, nas sensações, quase sempre ficávamos na superfície.  E nos bastava, não era preciso muito mais do que já tínhamos. Um acordo tácito de se divertir, nada mais que isto.
 
O tempo foi passando. A conversa tomando novos rumos, desencadeando em meu interior uma série de perguntas sem respostas. Dúvidas. Curiosidade. Muito medo.  Mas quando dei por mim estava amando aquele homem. E mulher quando se apaixona e ama de verdade é assim: só vê, só pensa, só enxerga e só se interessa pelo objeto de sua paixão e de seu amor. E comigo não foi diferente. Foram noites sem dormir, unhas roídas, choro, incertezas, pessimismo, otimismo, esperanças. Tudo junto, em cascatas gigantescas. Era uma decisão séria, mas eu sequer pensava nas conseqüências. Um amor daqueles não se permitiria passar batido. Isto, não.
 
Com extrema praticidade resolví a minha vida. Nada comuniquei a ninguém. Fomos viver juntos. Achávamos que o nosso sentimento deveria ser degustado e saboreado momento a momento, gota a gota, como um vinho, um licor, um champagne. Tudo como eu sonhara, mas durou um ano e o príncipe começou sua metamorfose: um sapo esperava por mim. Não era mais criança e sabia que sonhos são fantasias, meras ilusões e não se concretizam apesar da nossa crença infantil no irreal, no "felizes para sempre". Por que nós mulheres somos assim?
 
O tempo é implacável, o dia a dia, terrível e por um destes acasos que não se explicam, acordo uma noite só em nossa cama. Vejo-o, na sala ao lado, atento à tela do computador. Não posso acreditar que depois de tanto tempo o bate papo pela Internet ainda possa despertar algum tipo de prazer naquele menino grande. Será sua carência tão grande que meu amor, meu carinho e minha profunda admiração não seriam mais suficientes? Por os homens adoram buscar aplausos e aprovação de outras mulheres, ainda que de algumas tão vulgares, burrinhas, umas coitadinhas. Não conseguia entender e sentia vergonha de comentar com outras pessoas. Era quase um atestado de incompetência de minha parte e eu detestava parecer incapaz.
 
Voltei para cama nas pontas dos pés, arrasada, com o que acabara de ver, com meus próprios olhos. Eu apenas já não era mais capaz de sozinha, suprir seus anseios. Sua necessidade de aprovação me fazia pensar na Síndrome do Pavão. O pavão no desejo instintivo de acasalar-se abre seu leque de maravilhosa plumagem e assim atrai e encanta a fêmea de seu interesse. Passado o acasalamento ele fecha o leque, continua ciscando indiferente à sua conquistada e olhando para os seus pés horrendos prepara-se para uma nova conquista. Abre novamente seu leque de lindas cores e envolve sua próxima vítima. E assim vai até conseguir acasalar-se com o maior número possível de fêmeas. Seria o meu amor um pavão? Ainda que no plano virtual, sua necessidade de conquista seria assim tão imperiosa?
 
Um sábado à tarde, eu ouvia maria callas enquanto lia, na biblioteca.
Ele na Internet, no escritório ao lado.
Foi só se  levantar um minuto para ir ao banheiro que não resisti e fui bisbilhotar.
A tela estava aberta e teclando com ele uma Mulata Gostosa (que vulgaridade, meu deus! Um homem tão intelectual e fino!). Ele escrevia sobre a impossibilidade de encontrá-la no próximo feriado pois deveria fazer uma viagem à Argentina quando na verdade, viajaria comigo, para casa dos meus pais, no Rio. Foi tudo muito rápido. Com os olhos fixos na tela, sequer prestou atenção à  movimentação por detrás da sua cadeira. Senti um frio horroroso me percorrendo a coluna de alto a baixo.
 
Voltei para o meu sofazinho de vime, peguei o livro e com o coração aos pulos ainda procurei entender as fragilidades do outro. Quem são esses pares que afinal escolhemos para nossa vida? Que cara metade é esta que mente, omite, dissimula e que, por outro lado, nos toca com ternura, faz amor gostoso, diz o tempo que nos ama, que somos importantes para eles? Como entender o universo masculino sem enlouquecer? Homens! Imaturos e frágeis? Infantis em suas razões sem sentido? Eternos Peter pans ? Eu chorava arrasada pela pior das decepções. Uma dor no peito, o mundo desabando e eu sem poder fazer nada. Logo ele. Como era possível?
 
Senti muita raiva, um aperto enorme no coração, uma secura na boca, mas nada disse. Algumas outras pequenas coisas e aquela em especial vinham minando meu sentimento por ele. Em tempo integral sentia-me à beira de um abismo. Vou? Não vou? Caio? Não caio? Falo? E se não falar? E ainda havia um outro problema. Não consegui me abrir nem mesmo com a minha terapeuta. O homem que eu amava, me deixava dormindo para se meter com sabe-se-lá-que-tipo-de mulher.
 Ah, era muita humilhação,  eu não merecia aquilo.
 
Seria tão bom se ele agisse conforme minhas expectativas! Poderíamos ser mais parecidos em nossa forma de amar, de se dedicar ao outro. Eu fiz muito mal em deixar tudo de lado e me entregar apenasmente àquela paixão desenfreada. Afastei-me aos poucos dos amigos, falava apenas por telefone com as pessoas. Fui isolando-me devagarinho,  não saía com a turma do escritório, nada de barzinhos depois do expediente. Não convidava mais ninguém para almoçar lá em casa. Tudo resumia-se a nós dois: filmes, peças, vernissages, sempre juntos, sem mais ninguém interferindo em nossa simbiose. Por livre e espontânea vontade fui tornando-me uma extensão dele, não mais do que isto.
 
Um dia resolvi falar. Dizer tudo. Foi doído como já era de se esperar que fosse. Ouvi justificativas tão convincentes, bem fundamentadas. O que-é-que-tem-demais, você acha mesmo que eu seria capaz de levar à frente uma bobagem destas? Lindas palavras de amor. Se você não quer, não acontece mais...e eu acreditei. Afinal o que havia demais se era assim que ele dizia se divertir um pouco. Mas na sua idade, eu disse, um homem de cinqüenta anos? Sei de adolescentes que adoram isto, mas...Resolvemos deletar aquilo tudo, esquecer o nonsense da situação, e entre lágrimas e beijos voltamos às boas.
 
Paralelamente resolvi que se nada era assim tão grave por que não tentar me divertir um pouco, eu também na Internet? Procurei minha antiga agenda de e-mails, selecionei alguns nomes que me diziam alguma coisa e restabeleci novamente minha network. Procurei em jornais e em revistas alguns e-mails de jornalistas a quem eu admirava e numa mensagem simples elogiava um texto, comentava um artigo e fui recebendo respostas. Minha agenda era um tesouro com riquezas guardadas a sete chaves. Apesar de se dizer moderno e evoluído sua teoria era de que papos de Internet, só para homens. O que as mulheres fariam ali?  E eu pretendendo viver uma aventurazinha, básica, legal, ilegal, tudo escondido, bem emocionante! Adrenalina, cara, adrenalina!
 
Amigos de Nova York, músicos do Rio, colegas de infância, ex-paquerinha da net (já que nada havia de errado, por que não?). E voltava para a telinha, todas as noites em que não conseguia dormir. Não me preocupava o fato dele me vir ali, de madrugada, sozinha ao invés de me colar ao seu calor que tanto bem me fizera por tanto tempo. Confesso que no começo era uma pequena vingança, mas fui me tornando adepta daquela brincadeirinha. Nos finais de semana, sempre às sextas e sábados. Ele tomava suas doses de whisky a mais, ríamos, fazíamos amor gostosamente, ele caía morto, já dormindo e eu ia reviver meus tempos ridículos de "...eh ahi, de onde vc tc ???"
 
Muitos meses se passaram e eu triste, cada vez mais triste. Fui perdendo o riso, o rumo, o tino, a graça e a vida me parecia falsa. Não era aquele o meu desejo. Só queria a ele, a mais ninguém. Que ele, só ele, me devolvesse o pedacinho de mim. No fundo, não queria mais saber daquilo. Aquela estória me dava nojo. Sentia me traindo uma pessoa a quem eu amava de verdade.
 
Num meio de semana ele viajou a trabalho. Três dias em Brasília e eu com pilhas de coisas para fazer em casa. À noite, tomei um banho, coloquei um whisky duplo, com bastante gelo e me sentei em frente ao computador. Eram onze horas da noite, as salas cheias de pobres coitados, acalentados pela possibilidade de sair dali algum relacionamento verdadeiro e sincero. Risos.  Entrei em uma de suas salas preferidas. Esperei com o coração aos saltos. Usei seu nick preferido. As mãos geladas. E suando. Agora era torcer para que tudo saísse como eu gostaria.  Fiquei esperando que alguém falasse comigo pensando falar com ele. Era tudo que eu queria para provar para mim mesma o quanto havia de falso nas promessas feitas por ele. Podia dar certo ou não, era uma tentativa, uma curiosidade...
Ninguém me respondeu. Boca seca, respiro fundo, nada !
Fiquei ali relendo a coluna dos participantes na sala com seus nicks idiotas, cada um mais imbecil que o outro. O que se pode esperar de gente assim? Absoluta ausência de criatividade e inteligência, a  começar pela escolha dos nicks: com raríssimas exceções, ou grosseiros ou vulgares.
De repente surge assim na tela: Nina 40
 
Eu tremia tanto que quase nem conseguia digitar as palavras. Cinicamente eu me fazia passar por ele e uma avalanche me soterrou. Não era simples coincidência. Eu estava mesmo com a mulher com quem meu homem estivera na semana anterior enquanto eu dormia, provavelmente, sonhando com ele. Tudo parecia se casar perfeitamente, uma enorme coincidência. Eu precisaria ainda saber se haveria outras. Outras? Para que eu sofreria ainda mais? Levei um tempo para me refazer. Um ódio, um instinto assassino tomou conta de mim. Gostaria de vê-lo morto, esticado em uma mesa de necrotério. Que ódio, que ódio, que ódio.
 
Vamos lá, Nina 40...vamos lá! Comecei a fazer perguntas ingênuas e pelo tom das respostas era mesmo o que eu esperava. Era uma pessoa que falava com ele com certa freqüência. Havia "me" enviado algumas fotos, queria saber se eu havia gostado.  Combinamos de que eu sairia, abriria o arquivo da foto enviado para o outro e-mail, o do escritório (meu) -  o dele estava com problemas há dias, sabe? Não posso descrever o que senti ao abrir o arquivo, uma cena tão absurda que não tenho como descrevê-la. A artista da foto, a tal Nina 40, racismo à parte, era uma negra, setenta quilo, sorriso cheio de dentes brancos, mas um horror de mulher. Feia de verdade, muito feia, com uma canga por sobre um biquíni ou maiô, tendo ao fundo um varal de arame com toalhas coloridas dependuradas a secar. Preciso comentar mais alguma coisa? Saí vingada da sala. Arquivei o material recebido. Poderia me ser útil no futuro.
 
Resolvi entrar em outra sala, me divertir um pouco - não foi assim que ele me disse? Diversão. Eu odiava aquele tipo de coisa. Para mim nunca fora uma diversão, mas um suplício encontrar no meio de tanta gente burra, uma só que fizesse a noite valer a pena.   
Voltei com um nick diferente dando a entender de que eu era a Mulata "dele"! Respondi a uns dois ou três engraçadinhos e continuei esperando. Queria ver se alguém, naquela outra sala, pudesse identificar o "meu dono". Resolvi que teria mais calma que da primeira vez pois a sorte poderia não se repetir. Tudo se passou exatamente como havia acontecido antes. Absurda coincidência. E se ele imaginasse o que se passava comigo? Eu jamais contaria para ele. Afinal sentia-me como se houvesse cometido um roubo. Logo eu que odiava invasões de privacidade. Não lia um bilhete dobrado, jamais remexi um bolso ou procurei algo que não fosse meu. E encontrava-me ali, estufepata! Gélida! Fazendo um papel ridículo, incompatível com tudo que eu chamava de bons princípios. Se minha mãe soubesse, minhas amigas, meu deus do céu.
 
A foto, de péssima qualidade, retratava uma pobreza extrema. Um casebre, uma pobre moça, roupas pobres, paupérrimas. Uma imensa pena invadiu-me. Me arrependi tanto de ter começado tudo aquilo. Não era justo nem com ele nem comigo. Naquele momento me senti ainda mais envergonhada do meu papel. Logo eu que nunca tivera crises de ciúme, nunca tivera parceiros ciumentos, era uma obsessão que eu desconhecia...até ali! Impossível o interesse dele por aquele tipo de mulher. O que havia visto me deixara fora do ar. Eu não podia acreditar em situação tão deprimente. Não me sentia mal, me sentia péssima. Aí senti pena dele. Muita pena. Que sentimento poderia levar um homem tão especial a se interessar por tipos assim? Nina, Lílian, Claudinha, Cleinice, AnaMaria,  quantas mais haveriam ?
 
Resolví entrar de novo, desta vez para o meu divertimento. Escolhi um nick inteligente. Uma personagem de um filme antigo. O nick por si só já selecionaria automaticamente o nível do interessado. Fui passando de sala em sala, mudando a cor do nome que escolhera, achando um saco o papo que rolava em todas as salas, mas continuei. Mudei de nick, mudei de sala e encontro alguém : um  tenente de Goiânia. O mesmo começo ridículo. Casado, 3 filhos, infeliz no casamento, nome verdadeiro sigiloso, cargo de confiança na polícia do estado. Divertido, inteligente, bem humorado, rápido nas respostas, escreve bem, sem os abomináveis erros de português. Me divirto. Dou gargalhadas. Átila, rei dos hunos. Eu mereço.
 
No dia seguinte, acordo e corro para o computador. Átila está à minha espera.  Sinto um frio na barriga, misto de coisa errada com coisa escondida. Lá está ele, sozinho, na sala 33, me esperando. Às onze horas me dou conta de que sequer tomei o café da manhã. Não quero que Átila se perca de mim. Tenho receio de que depois não haja mais tempo para estas conversas tão boas. Conto, resumindo minha dor, a traição virtual de que "fui vítima". Ele não sentiu pena de mim. Como bom representante da confraria masculina tentou me acalmar dizendo que estas coisas são naturais nos homens. Não significava que meu marido quisesse um caso, apenas uma diversão, um passatempo, assegura o tenente de Goiânia. Certamente meu homem até me amaria, mas eu deveria fazer minha parte, me esforçando por entendê-lo. Os homens são assim, todos iguais. É como se a mentira fosse um defeito de fabricação, vem, invariavelmente com eles. A diferença é a quantidade, a freqüência e a intensidade das mentiras que contam. Todos mentem, sem exceção. Será por isto que Deus os castigou, fazendo-os eternamente insatisfeitos? Cita o caso dele como exemplo: mulher, três filhos e para suportar as tristezas de um casamento morno e  infeliz mantém duas amantes – para assegurar a família, ele diz. Morro de rir.
 
A conversa envereda por este caminho mas, rapidamente voltamos a falar de Frida Khalo.
Ele gosta de exposições, tem amigos que participam de vernissages e até se arrisca com tintas e pincéis já tendo participado de uma coletiva, lá mesmo, na sede cultural da polícia militar de Goiânia. Este Átila está me saindo melhor que a encomenda. Bom papo ! Fala sobre os clássicos com certa desenvoltura. Aproveito para enviar um e-mail maravilhoso sobre o Van Gogh. Ele agradece muitíssimo. Marcamos novo encontro para depois do almoço. Mesma sala. Quem chegar primeiro espera pelo outro. Que coisa mais adolescente!  Penso no meu homem. Será tão grave assim o fato dele procurar alguma sirigaita na Internet para se divertir enquanto eu durmo exausta?  Já estou achando que nem é tão errado assim. Me arrumo e saio para o almoço. Ansiosa, quero voltar rapidinho.
 
Sala 33. Átila. Meu rei dos Hunos. Só por hoje, meu rei, amanhã tem maridinho de novo. Mas durante a semana quem sabe? Quando bater uma insônia, tudo pode acontecer.
- Que bom que você chegou, ele diz! Tenho uma proposta a lhe fazer...rs
- Proposta decente? pergunto fingindo inocência.
- Não, justamente o contrário.
 
Abro um largo sorriso, misturo o gelo no meu copo de whisky. Respiro fundo. Friozinho bom na barriga. Marisa Monte e seu Infinito Particular  inundam o escritório.
 
 Rei dos Hunos, vamos lá...

Rosangela Maluf

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 29/03/06