- O Boêmio Universitário
Gerson despertou à entrada de um clube nocturno cujas portas
estavam já fechadas. Pôs-se de pé. Apanhou a sua sacola de
livros que servira-lhe de almofada e seguiu indeciso pela
direita. À primeira pessoa que encontrou perguntou as horas e
o dia da semana: era segunda-feira, sete horas e cinco
minutos. Lembrou-se então que no dia anterior tinha levado os
livros quando saiu para a noitada porque contava curtir até as
tantas, dormir num quarto qualquer que ele alugaria e logo de
manhã ir a faculdade.
A verdade é que o plano só deu certo até a parte da curtição.
Gerson era mulato, filho de pai branco e mãe negra.
Actualmente vivia com a mãe, comerciante dona de várias lojas
na capital. Filho único orfão de pai, desfrutava de todo amor
que uma mãe de um filho só podia dar. O seu cabelo contrastava
com o seu tom de pele muito claro. Vestia conforme a ocasião,
era a sua teoria da camuflagem, e penteava sempre para trás,
formando estrias na cabeleira.
Naquela manhã Gerson tinha a camisa um pouco ensaguentada,
vestígios de uma madrugada (para ele rotineira) na zona
quente.Tinha de chegar a faculdade de Direito as oito horas,
decidiu-se a apanhar um chapa, só havia um problema que ele
não cansava de confirmar metendo a mão em todos os bolsos e
vasculhando a sua carteira: não tinha dinheiro para pagar a
rota.
Dirigiu-se a paragem mais próxima entrou no primeiro chapa que
apareceu com a maior das boas disposições, apesar do seu
cabelo totalmente desalinhado e da cara esmagada pelo sono e
pela ressaca. Sentou-se no primeiro banco e como se falasse a
um velho amigo, dirigiu estas palavras ao cobrador:
- Não sabes o que me aconteceu hoje...!
Seguiu-se um momento de suspense e intorrogação, tanto no
cobrador como no motorista.
[ - As zero e trinta, após um passado recente de faras e
despedidas de solteiro de amigos e conhecidos que principiaram
no sábado, encontrava-me eu num bar da zona quente onde fora
com um amigo que ingratamente abandonou-me após ter recebido
um telefonema da namorada que em uníssono com a sua
consciência lembrou-lhe que eram horas de estar em casa a
dormir, pois que logo pela manhã havia faculdade. Ele que por
vezes tem repentinos surtos de responsabilidade, foi-se e eu
fiquei abandonado, mas não só.
[ Pedi e degustei um copo de qualquer bebida para atiçar o
ânimo, passei a vista em 360o pelo bar até que encontrei os
olhos de uma linda mulata que economizava substancialmente no
vestir, deixando assim a vista substâncias que me
substanciaram os olhos, o coração e outras partes. Ela tem um
qualquer coisa de cigana, permita-me o galicismo caro
cobrador. ]
O cobrador e o motorista achavam muito estranha esta forma de
falar, e se não desataram a rir foi porque perceberam que
tratava-se de um universitário, enfim, estavam embebidos do
religiosismo do povo em relação a universidade, temendo-a,
respeitando-a mas sobretudo achando que ela é uma grande
doença do espírito.
[ Aquela mulher ostenta uma beleza exótica ] Continuou Gerson,
[ uma beleza politicamente incorrecta como diria o meu
professor de Direito Constitucional se por acaso apreciasse
mulheres e tivesse a vista esta mulher em particular. É certo
que percebi que ela estava próxima a um grupo de três
indivíduos mas como aquele é um local onde as mulheres estão a
venda e são montras de si mesmas, eu não exitei em me
aproximar e contornei com uma das minhas mãos toda a extensão
da nádega esquerda dela enquanto lançava-lhe um olhar lascivo.
O namorado que era um dos três homens ao lado dela, quedava-se
incrédulo e eu percebi que a moça não era uma prostituta.
Pus-me a correr seguido por dois homens de elevado porte
muscular que estavam sentados um pouco próximos dos três e que
soube depois, eram os seus guarda-costas; uma vez fora do bar,
dobrei a esquina e parei. Lancei um olhar para um dos meus
amigos, estacionado por assim dizer junto de um dos bares da
Rua Araújo; ele olhou para os
dois monstros, percebeu, e veio em meu socorro.
[ Estavamos no meio da estrada, eramos dois contra dois; eu
embora não pareça, sou um bom lutador. Primeiro encaramos os
dois guarda-costas; eu tinha calhado com o mais baixinho,
percebi logo essa desvantagem, pedi aos guarda-costas para se
acalmarem um pouco e pedi ao meu amigo para trocarmos de
lugar, depois encarei-lhes e disse que podiam se enervar
novamente, isso fez eles ficarem mais furiosos, começamos a
luta. Fartei-me de esquivar os socos do meu inimigo, porém,
num momento infeliz, ele agarou-me e deu-me alguns pontapés no
pé; percebendo o seu truque levantei o pé, dei-lhe três
joelhadas na barriga, uma cotovelada nas costas, uma bundada
na cara e atirei-lhe para longe. Neste momento juntaram-se a
luta os três homens do bar, e o namorado da cigana foi directo
para mim e atingiu-me com uma chapada na cara, disse-lhe que
ele batia como uma menina e dei-lhe um gancho esquerdo, o meu
melhor. Os amigos do meu amigo e alguns conhecidos meus
vendo-nos em desvantagem, juntaram-se à nós. Estavamos a dar
uma boa sova aos cinco, nós eramos cerca de sete. Alguns
turistas (soube depois, eram suíços) que vinham certamente
desfrutar das nossas mulheres mas que também sabiam apreciar
uma boa luta, juntaram-se aos nossos inimigos. Levei
memoráveis ganchos daqueles suíços, um deles partiu-me um
dente que abanava há já dois dias. Estou-lhe muito grato por
isso e se tivesse sabido mais cedo a receita não teria exitado
em aplicá-la para me livrar daquele incómodo dente. Quando já
sem ele fiquei uma besta, bati a torto e a direito e todos
eles provaram as minhas bundadas. E tenho muito orgulho em
dizer-lhe caro cobrador, que este sangue na minha camisa é
mais dos meus inimigos do que meu.
Além de um pequenissimo ferimento no queixo, Gerson não tinha
nenhum aranhão.
As várias pessoas que nos assistiam resolveram também entrar
na luta, umas de bom grado e outras obrigadas, já não tinhamos
uma, mas várias lutas: era prostituta contra prostituta rival,
prostituta contra o cliente que aproveitou fugir, desconhecido
contra prostituta, desconhecido contra desconhecido, eu contra
quem me atacava, quase 100 metros de estrada cobertos de
pancadaria. Destraiu-me num breve instante a cigana que
assistia animada à esta luta, e que percebi, não tirava os
olhos de mim. O namorado perdido numa das batalhas, viu-me
olhar para ela e veio desvairado ao meu encontro. Quando ía
atingir-me em cheio, dois polícias pegaram-nos, eu despertei
da contemplação da cigana e apercebi-me de que a maioria dos
contendores pusera-se em debandada.
[Fui algemado, uma das minhas mãos com uma das mãos do Mamad,
assim se chamava o namorado da cigana. ]
- Puxas você causou toda essa confusão! - Admirou o cobrador
- E depois e depois - perguntaram os outros passageiros.
[ Bem, eramos primeiramente acompanhados por dois polícias,
mas um deles, com a alcunha de Florbela, foi chamado para
verificar uma ocorrência. Reparei que o Mamad estava muito
assustado, julguei-o um covarde; por acidente encostamo-nos e
eu senti a pistola, que ele levava no bolso esquerdo. Olhei
para ele e ele olhou para mim como se sugerisse que eu pegasse
a arma e ameaçasse o polícia para que ele nos soltasse,
disse-lhe que não e pedi-lhe para que não se preocupasse, por
gestos é claro.
[ - Desculpe-me oficial mas há uma coisa que eu queria lhe
dizer. - Principiei eu com certa autoridade - eu queria
fazer-lhe notar que as pessoas enganam-se quando dizem que
este país tem dono: na verdade este país tem donos. São os
ministros, os vice- -ministros, os deputados, os generais, a
polícia e as pessoas das relações de todos esses. Ora todas
essas pessoas reclamam para si mesmas o mesmo pedaço de terra.
Diga-me, não sente que este país é seu? Não sente que pode
usar da sua posição para benifício próprio ou dos seus, ainda
que de forma injusta ou criminosa? Pois bem, este país também
é meu caro oficial. Portanto este país é nosso, percebe. Só
que é mais meu do que seu. E como tal ambos temos direitos e
abusos sobre ele, com a única e significativa excepção de que
eu tenho sobre ele, mais direitos e abusos em relação à si.
Para ser mais claro peço que me confirme as seguintes
informações: o comandante da esquadra que pelos vistos nos
leva não se chama Comandante P..., confirma? Indivíduo
corpolento, escuro, com uma mulher muito mais nova em relação
à ele? Como sabe essa não é a sua primeira mulher e com a
anterior mulher já falecida ele teve um filho chamado Pedro
Emanuel que estuda Direito na UEM e que tem um teste em grupo
comigo hoje daqui a algumas horas. Esta última informação não
sabia é claro, e também não sabia que o filho do comandante
estuda comigo a quatro anos e que tem passado as minhas custas
[ - O Sr. Pedro vem às vezes aqui na esquadra e diz que tem um
jovem que faz trabalhos da escola para ele. - Disse o policial
um ouco confuso.
[ - Não sabia também, caro oficial, que eu custumo almoçar em
casa do seu comandante e que a estratégia do policiamento
desta zona foi-lhe sugerida por mim.
Estavamos a 100 metros da esquadra.
[ Porquê não disse logo chefe? - Disse amendrotado o polícia.
- Mas o que o oficial achava? - Terminei sem misercórdia - O
senhor achava mesmo que eu ando a estas horas no país dos
outros, o senhor achava mesmo que eu meto-me à pancada num
país que não é o meu. Na. Eu faço estas coisas porque sou dono
deste país!
[ O polícia quase mijando-se de medo soltou-nos, voltamo-nos
serenamente e dirigimo-nos ao bar onde tudo começou. Mamad
quase chorou ao agradecer-me; ofereceu-se a pagar-me alguns
copos, e perguntou se eu realmente conhecia o tal Pedro
Emanuel e o comandante da esquadra à que eramos levados, eu
respondi-lhe que o havia visto numa palestra, e que ele estava
numa universidade privada. Perguntou-me então como sabia tanto
sobe o comandante e o seu filho.
[ - É incrível a quantidade de coisas que se aprende
frequentando bares. - Respondi-lhe.
[ Ao chegar ao bar os guarda-costas e os amigos de Mamad
vieram para cima de mim e um deles apontou-me uma pistola.
Mamad apazigoou-os, contou-lhes tudo e dez minutos depois
estavamos na maior bebedeira e eu sentado ao lado da cigana
que por sua vez estava ao lado do Mamad.
[ As minhas mãos desfilaram por aquelas pernas debaixo daquela
mesa. Ao avançar da madrugada ela escreveu o número dela nas
minhas calças, como podem ver. ]
O cobrador, os passageiros e o motorista que quase provocou um
acidente, reclinaram-se e viram o número escrito com uma
caligrafia feminina.
[ Pouco depois eles abandonaram o local, despedimo-nos como
bons amigos.
Saí fora do bar para apanhar um ar, descansar um pouco do
cheiro de mulher e de tabaco que paira sobre a atmosfera
daquele lugar. Enquanto caminhava lentamente esvaziando a
grandes tragos uma garafa de qualquer líquido alcóolico que
trazia comigo, dei-me de cara com os suíços e a última coisa
que lembro-me antes de acordar no chão, é o punho de um deles
a vir em minha direcção. ]
- Não te levaram nada - perguntou o cobrador
- A minha carteira! - disse Gerson surpreso apalpando os
bolsos.
Acabavam de chegar a sua paragem.
- Roubaram-te, desce lá, pagas para outra vez.
Gerson desceu.
A única parte que não é verídica na sua estória concerne os
suíços. Logo depois que ele despediu-se da cigana e dos
outros, encontrou efectivamente os suíços, mas estes já
esquecidos da memorável batalha, foram os seus companheiros
para o resto da madrugada. Conversaram porcamene, beberam e
filosofaram, discutiram a condição do homem, a natureza de
Deus, a liberdade e a felicidade, a fisica e a metafisica de
Aristóteles, a política de Platão e tudo com um discurso de
invejar qualquer doutor em filosofia embora estivessem todos
eles no maior estado de embriaguez possível. Falavam
principalmente em latim, Gerson aprendera a língua no
seminário antes de abandonar a carreira de padre. Os três
suíços faziam a sua licenciatura em História das Religiões.
Gerson estava em estado lastimável, como dissemos: esmagado
pelo sono e pela ressaca, mas estranhamente lúcido. Chegou
finalmente a faculdade onde afluíam vários alunos. Pediu
emprestado 50 Mt ao primeiro colega que viu, este nem exitou,
emprestou-lhe.
Numa das bancas exterior ao complexo universitário comprou uma
pasta dentrífica, uma escova de dentes, uma caneta, uma
aspirina, exactamente uma, quatro bolachas, exactamente
quatro, e um saquinho de folha de chá. Tinha ainda a sua
disposição na banca: piri-piri, temperos, preservativos e sei
lá o que mais.
Dirigiu-se a casa de banho dos funcionários, lavou a cara,
escovou os dentes, tomou a aspirina, penteou o cabelo, abriu a
sacola e de lá tirou calças e camisa engomadas na véspera;
vestiu-as, livrando-se da sua roupa ensaguentada, mas antes de
guardar as calças que trazia consigo, copiou o número da
cigana.
Dirigiu-se para a sala dos funcionários, entrou chamando todos
pelos nomes, serviu-se do termo acumulador com água para o
chá, tirou a folha de chá e as quatro bolachinhas do bolso, e
teve o seu pequeno almoço em cinco minutos, conversando
animadamente com os funcionários. Despediu-se e ofereceu a
pasta dentrífica que comprara à um deles.
Dirigiu-se para a sua turma com cinco minutos de atraso, mais
trinta segundos e teria chegado depois do professor de Direito
Constitucional.
- Gerson, fizeste o trabalho da tese, aquele de um tema a
escolha- Perguntou uma de suas colegas enquanto o professor se
instalava.
- Não me consta que tivessemos ficado com nenhum trabalho de
Direito Constitucional tanto mais que eu não participei na
última aula estava na biblioteca e perdi a noção do ...
- Gerson - Interropeu-lhe o professor - já que estás disposto
a falar, podes ler-nos o teu trabalho?
- Claro Professor.
Gerson como vimos, não tinha feito o trabalho, estivera na
biblioteca com uma de suas colegas e os dois, como bons
estudiosos, acabaram divertindo-se muito entre os livros.
Gerson levantou-se abriu uma página em branco de um dos seus
cadernos e começou a fingir ler:
- Eu vou defender a tese de que a lei e o crime não existem e
de que a justiça é uma fantasia comum a toda a sociedade.
Não pode haver um homem digno para julgar o homem, porque não
lhe será superior. Não pode portanto haver uma justiça digna
para conceder ou tirar a liberdade.
O homem não existe, é apenas um conceito. O homem é um animal
que persistiu no erro humano de se crer diferente de todas
outras criaturas animais. Crime é pensar, é viver para tudo
que não é geração de puro e passivo gozo de ignorante e
autêntico saber.
A legislação que é própria ao homem, é a da natureza, e nesta
não há crimes, há apenas equilíbrio.
Se a lei daqueles que não existem, os homens, fosse válida
para alguma coisa, então criminoso seria também um terramoto,
porque tira vidas humanas e destroi propriedades privadas,
crime seria não nascer principe ou filho de presidente, porque
tal gera uma desigualdade de oportunidades e direitos, crime
seria qualquer um ter uma desvantagem em relação ao seu
semelhante, porque isso também quebraria o inexistente
equilibrio social-humano das coisas.
Se o crime não é mais do que aquilo que a lei diz que ele é, e
a lei não é mais do que aquilo que os homens criaram ao longo
dos séculos enquanto íam deixando de ser animais, então todo o
sistema judicial é fruto de um erro primacial que corrompe
toda a sua estrutura. Enfim, a justiça não passa de um erro
persistente. De uma fantasia comum a toda a sociedade.
- Absurdo! - Disse chocado o professor. - Absurdo! a 4 anos
que tu estudas o "sistema judicial", como podes dinamitá-lo
assim. Absurdo!
Gerson brincava com os dedos na carteira como se tocasse um
piano.
- Como podes afirmar algo assim!
- O Professor pediu uma tese à minha escolha, acho que o
correcto seria o professor observar a estrutura do meu
discurso e não as ideias nele expressas. - Disse Gerson
olhando para as calças caidiças de uma sua colega que
monstravam dependendo da inclinação dela em relação ao eixo
plano da carteira, diferentes percetagens do seu traseiro.
- É que as ideias expressas no teu discurso são erradas! É
lógica a existência do crime e da lei, a justiça não é nenhuma
fantasia, são pessoas sérias e sabidas que estão a frente dos
tribunais, a lei é o suporte sobre qual toda a sociedade
ergue-se, isto é lógico, repara, se eu tiver uma caneta destas
mais outra caneta destas eu tirei duas canetas. Isso é a
lógica.
Disse isto o Professor empunhando a sua caneta.
- Com todo o respeito Sr. Professor uma caneta dessas mais uma
caneta dessas não são duas nádegas, ou melhor, não são duas
canetas.
A turma achou interessante e o professor não quis acreditar
- O quê???? Está a afirmar que 1 + 1 não é igual a 2 ???
- Com todo o respeito Sr. Professor 1 + 1 metafisicamente
falando não é igual a 2.
- O quê????
- Segundo John Locke e o senso comum, não há duas coisas
exactamente iguais, e mesmo que contestassemos este princípio,
bastava dizer que ainda que fosse possível existirem duas
coisas exactamente iguais, elas não teriam as mesmas
coordenadas espaço-temporais, não ocupariam o mesmo espaço e
teriam talvez diferentes tempos de existência em relação a
diferentes referenciais. Ora, segundo estas premissas é
impossível a existência de duas canetas como essa que o Sr.
Professor tem na mão, na verdade, no universo absoluto não
existe um valor absoluto, não existe o número dois ou três, só
o 1. Portanto não existe uma quantidade 2 de nada, uma caneta
mais outra caneta como essa seria, se forçassemos a matemática
igual a bem, deixa-me fazer os cálculos a 1,987 canetas dessas
aproximadamente. Logo 1 + 1 nunca é igual a 2.
- Isso é mais do que absurdo! - Disse o Professor mais do que
chocado. - Toda a gente sabe que 1 + 1 é igual a 2.
Houve silêncio total por uns 15 segundos, durante os quais só
ouvia-se o arfar do professor. Gerson bocejava.
- Está bem, vamos fazer o seguinte, se conseguires provar que
1 + 1 é igual a 2 e que a lei, o crime e a justiça existem,
ficas despensado de fazer o teste que teremos na aula a
seguir.
- Temos teste? - Admirou a turma.
- Sim, teste surpresa. E ouve Gerson, não fazes o teste e
dou-te nota máxima. - Disse exaltado o Professor.
- Fisica e metafisicamente falando, - Não perdeu tempo Gerson.
- eu nunca disse que 1 + 1 é igual a 2; apenas dei a expressão
matemática para o enunciado de John Locke segundo o qual não
há duas coisas exactamente iguais. É claro que podem haver
quantas canetas em números naturais que o professor quiser, só
não podem haver nem sequer duas canetas exactamente iguais a
essa que o professor tem na mão. E filosófica e
sociologicamente falando, eu nunca disse que num estado de
direito não ocorrem crimes, não existem leis e que a justiça
constitui nele uma ilusão ou fantasia, apenas glosei as
teorias do bom selvagem de Jean Jacques Rousseau misturando
com outras teorias naturalistas e emprestando-lhe a minha
filosofia pessoal. É claro que num estado de direito existem
crimes, mas num estado natural, caso existisse, não seria
possível o crime porque o legislador e o criminoso
coincidiriam num só: a natureza.
A turma permaneceu calada, o professor abaixou a cabeça
derrotado enquanto guardava a caneta no bolso donde ela nunca
devia ter saído, quando levantou a cabeça, Viu Gerson
abandonar a sala.
- Mas devo dizer-lhe Professor, que mesmo no estado de
direito, o legislador e o criminoso também coincidem. Creio
que isso prova alguma coisa, pense nisso. - Acrescentou Gerson
quando já estava na porta.
Fechou a porta e saiu relaxadamente.
- Isso é a alimentação! - Disse o professor com um olhar
lunático - É a alimentação. Vocês alimentam-se muito mal.
E continoou a dizer isto ao longo de toda a aula enquanto os
alunos conversavam, copiavam e consultavam-se mutuamente
durante o teste. Coitado do pobre velho, tinha elouquecido.
Gerson dirigiu-se a sala dos funcionários e lá dormiu sonhando
com a cigana os dois tempos que fora dispensado.
O fiel celular despertou-lhe cerca de duas horas depois para a
aula de Direito Penal, aula de teste.
Voltou a lavar a cara, limpou-se, dirigiu-se a sala de aulas e
foi recebido como um herói; os colegas chamavam-lhe César e
felicitavam-no por finalmente ter conquistado a terra que eles
chamavam Direito Constitucional, e visto que todos os outros
reis de todas outras disciplinas prestavam-lhe tributo, era
justo que Roma - como chamavam a turma - o elegesse como seu
digno e imerecido imperador.
A coroa era de papel, um dos colegas recitou qualquer coisa em
latim e o nomeou imperador. Gerson afectando nobreza pediu que
um dos seus colegas lhe limpasse o sapato, foi logo atendido.
Calem-se. - Gritou subindo numa cadeira. - Convoco o senado.
Um grupo de jovens reuniu-se em volta dele sobre o riso dos
demais colegas.
- Proponho ao senado a primeira lei. - Disse Gerson com a
coroa na cabeça. - O cidadão Romano que fizer algo por Roma
terá como recompensa se for homem, o beijo de uma de nossas
colegas a escolha dele, e se for mulher o beijo de um dos
colegas a escolha dela.
- E se for gay? - Perguntou um curioso.
- O beijo de um colega a escolhe dele, à excepção claro do
imperador.
Risos ecoaram.
- Pois bem, peço ao senado que delibere. - acrescentou Gerson.
O senado abraçou-se e 1 minuto depois a lei estava aprovada.
Gerson recordou ao senado que tinha conquistado o Direito
Constitucional e pediu que a lei a pouco aprovada fosse
executada de imediato; adquiriu claro a aprovação do Senado,
escolheu uma de suas colegas, que fez várias apelações ao
senado alegando inconstitucionalidade da lei. O senado claro
recusou todas, e ameaçou medidas correccionais em caso de
desobediência, sendo a pena máxima para o crime, nada menos
que o ostracismo.
Enfim, a indigitada teve que ceder e fechou os olhos, Gerson
beijou-a, virou-se para o senado, lambeu os beiços, tocou o
céu da boca, fez estalidos com a língua, e anunciou:
- É doce.
A turma foi ao delírio.
Entrou o professor de Direito Penal.
- Bom dia, aos seus lugares. Hei Gerson, que é isso que tens
na cabeça?
- Nada Professor, uma brincadeira. - Disse Gerson tirando a
coroa.
- Hoje teremos como teste um caso que vocês vão tentar
resolver. O que será avaliado não é a opinião certa ou errada,
mas os fundamentos dessa opinião, tanto mais que este caso
ainda não foi resolvido. Trata-se de um caso de homicídio que
aconteceu há dois anos atrás numa vivenda em Maputo. O corpo
da vítima encontra-se desaparecido até hoje. Sabe-se que a
vítima foi morta dentro da sua casa quando acabava de
regressar da biblioteca; foram encontradas na carteira da
vítima dinheiro, brincos, um maço de cigaros, um livro,
espelho e baton. Foi morta a tiro no centro da sala de estar.
O principal suspeito é o marido da vítima que teve uma
discussão com esta logo de manhã e que não foi trabalhar nesse
dia, tendo estado num bar ao lado da sua casa. O dono do bar
afirma que ele terá ido para casa, o local do crime, buscar
dinheiro as 08 e 30, que é mais ou menos a hora do crime. O
marido diz que entrou na sua casa levou o dinheiro, mas que
não viu nem falou com ninguém. Outro suspeito é o homem dos
jornais que tinha acesso a casa e que foi visto a rondar o
local do crime mais ou menos pela hora do crime. O terceiro
suspeito é um vizinho à quem o marido da vítima devia dinheiro
e que no dia anterior ao crime tinha ameaçado a vítima e a sua
família de morte, foi visto também a rondar o local do crime
mais ou menos a hora em que a vítima foi morta. Ninguém mais
esteve em casa nesse dia visto que a filha saiu as sete horas
para passar um dia numa vivenda na Matola que a família
possui. O marido da vítima, principal suspeito, suícidou-se
uma semana depois. Todos os outros suspeitos foram
intorrogados, todos negam e até agora não se conseguiu provar
nada.
Concluiu o Professor de Direito Penal após ter acabado de
distribuir os ingressos.
- Tem noventa minutos.
Silêncio total na sala de aulas. Os alunos começam a resolver
o teste, 20 minutos depois Gerson entregava o seu e saía da
sala calmamente. Era típico dele.
Eram agora 10 horas e 30 minutos. Gerson não tinha mais aulas.
Descendo as escadas que levam a saída da Faculdade, Gerson
pensava na cigana. Tirou um papelinho do bolso onde estava
anotado o número dela e resolveu telefoná-la:
- Alô - Atendeu uma voz suave.
- Olá
- Quem fala
- Lembras-te do louco de ontem.
- Tu! Tudo bem?
- Ficarei melhor se aceitares sair comigo.
- Desculpa-me. Ontem eu estava um pouco bêbada, na verdade eu
sou uma mulher comprometida e acho que tu reparaste nisso.
Desculpa, tenho de desligar.
- Espera, espera! Eu sei que tu és uma mulher comprometida com
o amor.
- Quiseste dizer com o Mamad?
- Vês, tu também achas que o Mamad não é sinónimo de amor.
- Bem...
- Eu sei também que o Mamad é um homem comprometido com o
trabalho e com os amigos dele.
- M...!!
- E sei também que estás em casa, aborrecida e sozinha, e é
por isso que vais me dizer onde moras.
- Eu..., acho que não tem mal nenhum dizer, Morro na Ronil.
- Excelente, eu morro no edifício do Ministério do Trabalho. A
que horas é o nosso encontro?
- O nosso encontro! Ahhh!! Está bem... Pode ser as... As 14.
- O.K, antecipações ate lá.
- Beijinhos.
Gerson tinha ganho o dia. Apanhou um chapa para casa, desta
vez tinha dinheiro.
Chegou em casa as 11 e dormiu até as 13 e 30. Acordou ainda
com sono. Tomou um banho de 10 minutos, ajeitou o quarto e
pouco tempo depois recebia uma sms da cigana que dizia para
ele ir buscá-la em baixo do prédio.
Gerson desceu feliz da vida e voltou a subir com ela, levou-a
ao quarto, tirou a camisa, precipitou-se para cima dela e o
telefone tocou.
Extremamente contrariado Gerson atendeu:
- Alô!
- Alô Gerson, daqui Dr. Alfredo.
- Boa tarde Sr Professor.
Era o Professor de Direito Penal.
- É sobre o teu teste de hoje
- Sim.
- Creio que estás certo. Estás incrivelmente certo. Como foste
o primeiro a acabar o teste e eu não tendo nada para fazer,
pus-me a lê-lo e vi que as teses por ti apresentadas tinham
grande chance de ser verdadeiras.
- Ah!
Gerson olhava dolorosamente para a cigana e tinha vontade de
desligar o telefone.
- Pois, no teste tu dizias que ninguém e nada garantem que a
filha da Sra. Ana saiu antes da hora do crime, e que foi ela
que provavelmente matou a Sra. Ana, tendo depois encenado o
local do crime e de alguma forma a hora. Depois a filha teria
levado o corpo, talvez com a ajuda de alguém, para algum sítio
enquanto ía para a Matola ou quem sabe para a própria Matola.
A cigana lançava um olhar felino para Gerson enquanto
despia-se, este quase desligava o telefone na cara do
Professor.
- Eu fui ver pessoalmente o processo e encontrei algumas
declarações contraditórias da filha da Sra. Ana, e no
testemunho da empregada doméstica havia uma passagem em que
ela dizia que depois de ter ido a padaria foi a farmácia onde
encontrou a Senhorita Laylita, certamente diminuitivo de
Sheila, a quem mais ela chamaria Senhorita senão a filha da
Sra. Ana. Ora a farmácia abre as 08 e 30, o que ela ainda
fazia em Maputo a essa hora, se tinha saído as sete.
A cigana ficou só com a roupa interior, vermelha, cheia de
rendas. Uma lágrima despontou nos olhos de Gerson.
- Que beleza.
- Sim filho, é uma beleza de ideia que tu tiveste. Repara que
tu dizias que o motivo para a filha ter morto a Sra. Ana devia
ser algo precioso que ela tinha, e como entre os pertences não
se fala do cartão de membro da biblioteca, tu afirmas que tal
coisa preciosa devia estar escrita no cartão de membro da
biblioteca ou em última análise ser o próprio cartão de membro
da biblioteca..
A cigana tirou a parte de cima.
- Não...!!!
- Sim. Informei-me e soube que a dita filha hoje com 22 anos
de idade, é rica e vive justamente na tal casa na Matola. Fui
a PIC e falei com um agente, meu amigo de longa data e fiz com
que ele se interessasse pela investigação. Ele levou um agente
auxiliar e estamos os três a tua espera para irmos a casa da
jovem na Matola.
A cigana esfregava o seu peito nu nas costas de Gerson.
- Daqui a 30 minutos.
- Não, daqui a 5 minutos. Nós estamos aqui em baixo do teu
prédio. Depressa.
Gerson vestiu a camisa. Contemplava a cigana enquanto esta
também vestia-se e amaldiçoou-se. Prometeu-lhe que
continuariam mais tarde, desceu com ela, despediu-se dela e
entrou no automóvel onde estava o seu Professor, um agente da
PIC de certa idade, e outro agente da PIC estágiario e com
cara de estágiario.
Quem conduzia era o estágiario, os outros três conversavam.
Gerson explicou como chegou as suas conclusões, discutiram a
riqueza da Sra. Ana, Gerson falava de uma herança. O agente da
PIC afirmou que não era o primeiro caso de matricídio que ele
investigava.
45 minutos depois chegaram.
Primeiro rondaram o quintal. Descobriram uma parte do quintal
onde tinha um pedestal rectangular em pedra negra. Quando a
dona da casa viu-lhes.
- Quem está aí? - Perguntou ela.
- Desculpe-nos, estavamos a apreciar o seu jardim. - Disse o
agente da PIC.
- Podem entrar.
Era uma casa realmente luxuosa.
O agente explicou porque estavam ali. Recordou o caso e disse
que eles tinham novas provas. Sheila estava cada vez menos
confortável com o assunto.
- Cara Srta. - Disse de repente Gerson que não aguentava mais
as voltas que o agente da PIC estava a dar - Nós achamos que
matou a sua mãe e de certa forma terá participado do suícidio
do seu pai e temos como prová-lo.
Sheila ficou furiosa. Começou a berrar com todos e disse que
os queria fora da casa dela.
O estagiário mostrou o mandato de busca forjado por si e
assinado por seu próprio punho duas horas antes.
Gerson levantou-se, olhou a volta, dirigiu-se ao quarto da
vítima e viu um cofre.
- Voltou a sala e ordenou que Sheila o abrisse.
Ela ficou assustada, o Agente repetiu a ordem. Sheila seguida
pelos 4 abriu o cofre.
- Tire as coisas daí. - Ordenou o Agente.
Primeiro ela tirou vários maços de dolares americanos, depois
o cartão de biblioteca onde estava realmenente apontado um
número.
Gerson ao ver o cartão da biblioteca e os números gritou
triunfalmente:
- Aqui está a prova do hediondo crime.
Sheila tirou do fundo do cofre uma pistola e deu a Gerson um
tiro certeiro no coração.
O tempo parou.
- Aí está o cartão, vês agente, estes números são de uma conta
bancária.
- Agente! Porque ninguém se mexe. Professor Dr. Alfredo. O que
se passa. Hei! Não me ouvem?Morri! Morri? Estou morto. Esta
paricida matou-me. Eu vou...
E a alma de Gerson tentava bater sem sucessos a Sheila, que
estava congelada como todos os outros.
- Espera aí, que som é este.
Gerson olhou pela janela e viu um anjo a descer do céu numa
nuvem.
- Vem me buscar. - Disse Gerson afastando-se da janela. - Ele
vai saber que tem de levar a mim porque eu sou o único que sou
dois. Já sei vou me deitar no meu corpo, ele vai chegar, vai
procurar-me, não vai encontrar-me e eu vou continuar vivo.
Gerson deitou-se em cima do seu corpo.
O anjo chegou.
- De novo brincar as escondidas! Será que a vida na terra é
tão boa assim! - Disse o Anjo irritado. - Não há como te
esconderes de mim Gerson. Queres fazer o favor de levantar-te
do chão.
Gerson levantou-se.
- Caro Sr. Anjo, - Disse. - eu não estou morto, há aqui cinco
pessoas porquê tenho de ser eu a morrer.
- Porque foste tu que foste morto, e além do mais eu só vejo
uma alma. Relaxa, vais para o paraíso. Dá-me a mão.
A Alma de Gerson quando voltou a si ouviu uma voz que dizia
numa língua que ele estranhamente compreendia:
- Bem vindo ao Paraíso, por favor dirijam-se ao primeiro
andar.
A Alma de Gerson olhou para si mesma, poderia ver através de
si mesma, tinha dois braços e duas mãos, um vázio enorme
dentro do corpo e em vez de pernas o prolongamento da cintura
para baixo era afunilado, como uma sereia, tinha uma espécie
de rabo de cavalo que a fazia voar.
As suas narinas sentiam um cheiro agradável que lhe fazia
lembrar tempos felizes, esse era o cheiro da fumaça sobre os
seus pés que o fazia levitar, os seus ouvidos ouviam uma
música continuada que lhe causava extremo gozo, e lhe trazia
igualmente recordações felizes, quando olhou para a fumaça
Gerson via a sua vida a passar como se tivessem feito dela um
filme, via cenas inteiras da sua vida. Sobre as suas mãos e a
superfície transparente de si mesma, a alma de Gerson sentia o
contorno do corpo feminino, nada lhe dava mais prazer.
A Alma de Gerson olhou a sua volta e reparou que não se podiam
destinguir os sexos. E que as almas não tinham cabelo, nem
pelos.
- Olá - disse-lhe uma alma - Eu sou Ana Malhungane, a alma que
graças a si é livre, ao resolver o meu caso trouxe-me a maior
felicidade que eu podia ter no paraíso. Devo-lhe mais do que a
vida, devo-lhe a alma, eu não podia descansar porque a pessoa
que me matou gozava do bom e do melhor, enquanto o meu corpo
esteve este tempo todo enterrado no quintal dela.
- Espero que agora possa descansar em paz.
- Muito obrigado. Eu sou recepcionista aqui na porta do
paraíso, para mim tem sido uma eternidade e na terra só
passaram dois anos. Conheço todo o pessoal aqui, vou
finalmente fazer a minha triunfal entrada no reino de Deus.
- É estranho aqui.
- Já reparou! o paraíso é uma extraordinária ilusão criada
pela poderosa supermente de Deus. Por enquanto todas estas
almas vêem, ouvem e sentem coisas diferentes, quando estiverem
dentro do paraíso estarão banhadas pela luz divina que é a
maior sensação de bem estar. A única forma de te explicar isto
é dizer-te que é como se fosses um notebook e quando chegasses
a um lugar, que neste caso é o céu, fosses ligado a net. A
felicidade de Deus circula a Yottabytes na luz de Deus,
indefinidamente provoca em cada criatura a quintessência do
ser. Mas apesar de tudo és livre. É como se fosses ao
McDonalds e te deixassem preparar por ti mesmo o hamburguer
perfeito, neste caso o hamburguer é a felicidade. Não há
limites, é como se te atirasses de um arranha-céus só para
sentir o gozo da queda e parasses exactamente a dois
centimetros do solo, é pura adrenalina.
- Uau, isso parece íncrivel, mas como é que sabes se ainda não
estiveste lá. - Perguntou Gerson.
- Bem, essas são as explicações que São Pedro nos deu para
darmos aos Ocidentais. Segundo ele, não há nada tão bom para
os ocidentais como computador ligado a net, hamburguer e
adrenalina; segundo ele, um pode falhar mas os três não.
- Segundo essa linha de raciocinio porque não tentas esta: é
como viver num mundo, em que as mulheres querem ter sexo
contigo só por ter sexo, e em que gostam de futebol e mandam
shots no bar.
- O.K, Vou propor à São Pedro. Agora vamos.
- Para onde.
- Para a bicha.
- Tem bicha
- Bem, segundo São Pedro é a prioridade acumulada, ou seja a
prioridade de quem chegou primeiro, mais a prioridade de quem
chegou depois do primeiro, mais...
- Entendi. Vocês são divertidos aqui no paraíso.
- A Gerência agradece.
A espera no céu, interessante tema, é pena que alguém não o
tenha abordado, teria...
Espero que não tenhas excluído o que eu disse em cima.
Chegaram finalmente ao longo corridor que vai dar a porta do
paraíso. Este corridor é tão curto que só podem nele formar-se
quatro bichas lado a lado, mas extremamente longo.
A Alma de Gerson e a Alma de Ana chegaram, Ana pôs-lhe atrás
da última alma da bicha e disse-lhe:
- Bem, há duas portas no paraíso, uma para as almas eleitas e
outra para questões administrativas. Eu vou entrar pela porta
administrativa é um direito que nós funcionários temos.
- Vemo-nos lá dentro.
- Até lá.
A Alma de Gerson, foi se deixando prender pela felicidade do
paraíso, olhava para baixo e via a cigana no seu dia-a-dia,
num salão de cabelereiro.
- Pôs-te a ferver e deixou-te e tu ainda queres voltar a
vê-lo.
- Não sei, eu gostei dele, não sei explicar, ele fez toda uma
confusão por mim, foi tão romântico! E tem algo que me chateia
e que eu gosto nele.
- Uh! isso é amor!
- Amor! Talvez, vocês sabem como eu sou, quando gosto
entrego-me logo, foi assim que me envolvi com o bandido do
Mamad.
- Desculpa incomodar-te. - Disse Ana despertando a Alma de
Gerson da felicidade de se saber amado. - Tem aqui alguém que
quer falar contigo.
- Desculpa-me carissimo Gerson, chamo-me Aniel. - disse um
anjo, ou seja uma alma mais alta, com asas e vestindo um
tecido. - Preciso que me prestes um favor.
- Sim?
- Preciso que me defendas.
- Olha Gerson, cabe a ti aceitar ou não, - Disse Ana. - o
Aniel tem tentado ser ouvido por Deus desde há muito tempo, eu
tenho testemunhado no tempo em que estive aqui na recepção,
contei-lhe como resolveste o meu caso, e ele e eu também
achamos que podes resolver o caso dele, não sei de que se
trata, mas é um anjo, dele não pode vir nada de mau. Até logo.
Disse Ana despedindo-se.
Aniel explicou a Alma de Gerson o seu caso e pediu ajuda. A
Alma de Gerson fez muitas perguntas, e disse que o defenderia.
- Então vamos, a audiência é em momentos.
- Vamos.
Enquanto dirigiam-se a porta administrativa, a Alma de Gerson
viu alguém.
- Desculpe-me Aniel, vai andando eu vou já ter contigo.
- Ei! Que fazes aqui, estás louco, queres forçar a entrada no
paraíso? - Disse a Alma de Gerson a uma alma distraída pela
felicidade.
- Gerson! Estou feliz por te ver, eras o que faltava para o
paraíso ser perfeito. Não vais acreditar, enquanto esperava
aqui, veio alguém, um recepcionista que disse-me que o paraíso
é como viver num mundo, em que as mulheres querem ter sexo
contigo só por ter sexo, e em que gostam de futebol e mandam
shots no bar. Não é íncrivel.
- Espantoso. Tu eras depois de mim é claro, o maior pecador de
Maputo.
- Coisas da terra.
- Como vai aquele borracho da outra noite, a Teresa.
- Na verdade a Teresa é uma dessas mulheres que eu conquistava
para que o grupo não as conquistasse, para lhes advertir do
perigo de andarem embriagadas com homens como nós, insensíveis
que nunca ligaram ao sentimento de uma mulher. E embora as
noitadas de sábado acabassem no Domingo as 6 eu ía a missa as
7 do mesmo dia, e quando saía muitàs vezes via-te chegar a
missa das 10, claro que escondia-me, guardava o meu e o teu
segredo, nunca foi por vergonha, a boémia é ciumenta, para que
ela nos amasse tinhamos de ser só boémios. Acho que isso
explica o paraíso.
- Felizmente, mas Mário, preciso da tua ajuda, diz-me uma
coisa: o filho que foi injustamente castigado pelo Pai e lhe
vai pedir perdão por uma falta que não cometeu, ama-o ou
odeia-o?
Mário respondeu-lhe.
- Obrigado, ajudaste-me a resolver um caso. Estaremos juntos
sempre e isso faz--me extremamente feliz. He! E mais uma
coisa, sentes na mão as curvas do corpo feminino.
- Ya.
- É íncrivel né?
E a Alma de Gerson foi atrás de Aniel.
Chegou na porta administrativa e entrou.
Aniel conversava com São Pedro, um anjo vestido como Aniel.
Deixo-vos aqui.
Quando São Pedro ía a fechar o aposento onde deixava Aniel e a
alma de Gerson, esta disse-lhe:
- Desculpe-me São Pedro, posso falar-lhe?
Aniel olhou para a Alma de Gerson com um olhar intorrogador.
- É pela nossa causa.
São Pedro e a Alma de Gerson falaram a sós num outro
compartimento durante um bom tempo.
A alma de Gerson voltou para o aposento onde estava Aniel e
esperaram. Não trocaram nem uma palavra. Durante todo o tempo
a Alma de Gerson observava Aniel, este tão angustiado nem
sequer percebeu.
Finalmente veio São Pedro e ordenou-lhes que lhe seguissem.
Entraram no paraíso. É uma terra plana infinita, cheia de luz.
No paraíso realmente existe céu, aquilo que fica em cima das
incontáveia almas felizes que habitam ao relento dessa imensa
planura. O céu é composto por nuvens e anjos, uma Capela
Sistina viva. Os ajos que pairam sobre as pessoas são os anjos
da felicidade. As nuvens são belíssimas, navegam no céu. Delas
chove a tempos o maná celestial.
A Alma de Gerson e Aniel voaram atrás de São Pedro até
chegarem a uma nuvem enorme. Quando chegaram em cima dela,
começaram como que a levitar sobre ela, o mesmo que acontecia
no solo do paraíso.
Legiões de anjos vindos de todas as partes do céu apareceram
em cima da nuvem para assistir ao julgamento. Formavam o teto
mais íncrivel de se descrever. Os anjos eram as únicas
criaturas com asas e vestimentas. Eram criaturas menos
transparentes que as outras. As cores das suas vestimentas e
asas tinham todas as cores possíveis e formavam um teto
extremamente colorido. O mais íncrivel de tudo é que eles
estavam exactamente a mesma altura da nuvem e o tecido com o
qual cobriam-se movimentava-se para todas as direcções
possíveis.
São Pedro pediu que os dois o seguissem, e foram mais para o
interior da nuvem. No momento em que chegaram ao interior dela
o teto dos anjos reorganizou-se, dobrando-se e formando
primeiro uma parábola e finalmente um semi-circulo. Os olhos
dos anjos fixavam-se neles. De repente ergueram-se várias
personagens da nuvem, entre as quais estavam as personagens e
figuras mais famosas da biblia, a elite do céu. A alma de
Gerson não queria acreditar, reconhecia a maioria dos que
estavam ali.
É importante realçar que Deus está em toda a parte, e no
pensamento de todos, mas desconhece os pensamentos daqueles
que estão no céu com ele. A melhor explicação é que ele não
pode ver a sua cara ou que não pode pensar dentro do seu
cerébro. É no céu que fica a cara e o cerébro de Deus.
São Pedro juntou-se aos seus onze companheiros.
- Aniel não tem chances - Comentou um dos ilustres
- Gabriel, não digas isso, tu disseste o mesmo quando eu
estava na barriga da baleia mas Deus perdoou-me
- Eh! E lembras quando eu estava pregado na cruz, quando nem
eu acreditava no pai, ele também perdoou a mim e a toda a
humanidade
- E eu, e eu, todos vocês sabem quanto eu sofri para ser
admitido entre os meus onze companheiros. Tive que provar que
eu realmente me arrependi da traição a 2000 anos atrás da
terra.
- Aniel merece uma chance.
- Eu só espero que este miúdo saiba defendê-lo.
- O Pai é muito duro às vezes
- Silêncio!
Gritou de todo o lado, quem ninguém podia ver.
- Aniel, o que me queres?
- Ser admitido no céu, Senhor. Posso provar a minha inocência.
- Gerson, o que me queres?
- Nada Senhor. - Respondeu Gerson admirado.
- Ele vem defender-me Senhor. - Corrigiu Aniel.
- Sim, vim defendê-lo. - Confirmou Gerson.
- Que comece.
A Alma de Gerson procurou a Deus com os olhos, não o viu e
começou olhando para cima, onde estavam os anjos.
- Desculpai-me Senhor, preciso colocar-vos algumas questões.
- Pode ser.
- Vós tendes alguma legislação, código penal, ordens divinas,
ou algo que com isso se pareça?
- Temos uma lei.
- Poderia ter acesso aos manuais?
- É só uma lei.
- Uma?
- Uma.
- Uma lei mantém o paraíso e determina quem vai ao inferno?
- Exactamente.
- Pois bem, qual é essa lei?
- Eu sou vosso criador e vocês devem-me obediência.
- Perfeito. Permiti-me perguntar Senhor se poderiamos enunciar
esta lei da seguinte maneira: A desobediência será punida.
- Claro.
- O que entendereis exactamente por desobediência?
- É a não-obediência.
- A não-pactuação?
- A não-obediência.
- O não-conformismo?
- A não-obediência.
- A não-obediência?
- A não-obediência.
- Portanto todos nós aqui presentes sabemos o que é a
não-obediência?
- Exactamente.
- E principalmente Vós Senhor?
- Sei-o melhor que vós.
- Mas tem havido uma clara tendência para a desobediência
entre nós.
- Exactamente.
- Ainda que saibamos o que é a obediência por sabermos o que é
a não-obediência?
- Estás no caminho certo, meu filho.
- Vós Senhor, dissestes há pouco que sabeis melhor do que nós
o que é a não-obediência e portanto também a obediência
devidas a Vós.?
- Claro.
- Claro que a hipotese é remota, visto Vós Senhor serdes Deus.
Mas e se Vós fosséis desobediente a Vós mesmo, o que
aconteceria admitindo a hipotese?
- Não se pode admitir essa hipotese, mas se isso
acontecesse...
- Se isso acontecesse daríeis azo a desobediência das Vossas
criaturas. Analisemos o caso de Aniel.
A Alma de Gerson fez silêncio enquanto encarava os seus
circunstantes.
- Aniel era um anjo da confiança de Deus como todos vós - E
disse isto apontando o teto - O Senhor mandou-o a uma pequena
cidade da terra para chamar as pessoas para o bem, a harmonia
e a paz. Aniel conseguiu convencer 15 das 800 pessoas em
famílias diferentes. Quando o prazo acabou, o Senhor disse
para que Aniel ordenasse que estas 15 pessoas abandonassem a
cidade e o fez regressar ao céu. Aniel tentou, mas essas 15
pessoas não queriam abandonar as suas familias. Quando Aniel
chegou ao céu e viu que Deus preparava-se para destruir a
pequena cidade renegou-o e amaldiçoou-o. Por isso tem desde
então vivido no inferno. Quanto a cidade soube de alguém que
Deus nem chegou a destruí-la. - Todos olharam para São Pedro -
Não a destruiu talvez porque sentiu alguns remorsos de ter
feito aquilo que ele achava ser um sacrifício para o
equilibrio do paraíso. Aniel, mostre-nos a cidade!
Aniel fez com que a cidade aparecesse na superície da nuvem, e
todos poderam ver uma sociedade justa e feliz.
- Aquelas 15 pessoas mudaram a cidade, Aniel estava certo e
pagou por isso. ""Pai, porquê me abandonaste?", há pouco Aniel
dizia isto enquanto delirava, esquecido da minha presença ali,
quantàs vezes ele deve ter repetido a si mesmo esta pergunta,
um de Vós aqui compreende a sua dor, porque a 2000 anos
terrestres atrás fez a mesma pergunta.
Deus materializou-se, ou melhor transparentalizou-se na forma
de um belo e brilhante anjo.
A Alma de Gerson aproximou-se dele e disse-lhe:
- Senhor fostes desobediente, desobedecestes a justiça e graça
devina, e a Vossa desobediência a Vós mesmos, fez com que
Aniel Vos desobedesse por terdes desobedecido a Vós mesmos,
querendo resgatar a Vossa dignidade roubada por Vós mesmo no
curso da Vossa auto-desobediência.
- Aniel é inocente, obrigado por teres tanta razão Gerson.
Peço-te que me perdoes Aniel.
- Não, Aniel não é inocente.
E ouviu-se um Ohh! De espanto e reprovação tão gracioso como
as eminentes figuras celestiais podem dá-lo. A alma de Gerson
virou-se para Aniel que baixou os olhos".
- Aniel não deixando de Vos amar Senhor, odiou-o, foi também
desobediente.
- Eu amo-te Pai. - Disse Aniel aproximando-se de Deus. - Eu
sempre te amei, mesmo quando te amaldiçoava, mesmo quando
procurei vingar-me de ti, mesmo quando fui falar com o diabo.
E aqui ouviu-se um outro Ohh! Celestial.
- Aniel foi falar com o diabo e fez um acordo com ele. - Disse
a alma de Gerson. - Certamente ele carrega na sua asa esquerda
algo que compromete a segurança no paraíso, pois reparei que
essa asa está defeituosa. A príncipio pensei que podia ser um
defeito mas observando mais de perto enquanto ele delirava
reparei que não era uma asa. Tem apenas o formato e a cor.
- É a pena do diabo. - disse Aniel.
- Ohhh! - Fizeram todos, é excelente este Ohhh! Simplesmente
magnífico. Aniel afastou-se de Deus, abraçou-se e as duas asas
que ele tinha, a verdadeira e a falsa consumiram-se num fogo
ardente até sumirem.
Ficou um anjo sem asas. Essa é a morte dos anjos, toda a vida
deles está nas asas.
- Dei uma asa ao Diabo para destruir o paraíso, agora dou a
outra para salvá-lo.
Todos tinham os olhos em Aniel. E a Alma de Gerson falou:
- Claro que eu fiquei preocupado com a segurança do Paraíso e
principalmente com Aniel cujo sofrimento por ter sido afastado
pelo pai é indiscritível.
A audiência neste ponto e o próprio Aniel esqueceram o Aniel
(O Aniel esqueceu a si mesmo) e se concetraram nos lábios da
Alma de Gerson, cujas palavras todos, até o próprio Deus
achavam divinais.
- Pois bem, eu falei com São Pedro e pedi que ele fizesse voto
de silêncio e confiasse em mim, expliquei as minhas
descobertas em relação a asa de Aniel e São Pedro disse-me que
ele provavelmente trazia a pena do diabo e que a solução era
eu esfregar uma de suas penas na pena do diabo, assim a asa do
anjo venceria a pena do diabo pela diferença de uma pena.
Quando nos despedimos São Pedro arrancou uma pena da sua asa
que eu esfreguei na pena do diabo. Assim quando Aniel
esfregasse a asa do diabo em sua asa, ele não morreria.
Todos olharam para Aniel e viram que ele realmente tinha
ficado com uma pequena pena.
- Viva. - Disseram todos.
- Espera aí, - Disse um anjo no meio do teto. - como é que tu
sabias que Aniel não usaria a asa para nos destruir.
- Consultei um sábio.
- A ti mesmo?
- Não, agradeço a lisonja filho nascido de mãe virgem, um dia
vamos conversar sobre isso, mas consultei o Mário, e
perguntei: o filho que foi injustamente castigado pelo Pai e
lhe vai pedir perdão por uma falta que não cometeu, ama-o ou
odeia-o?
"bem, odeia-o enquanto ainda não tiver sido perdoado, mas
depois de perdoado justamente, ama-lo-á mais do que o amava
antes ". Foi nestas palavras que eu baseei-me.
- Bravo! - Disseram todos, os anjos batiam palmas.
- Mas no entanto...
Silêncio total, todas as eminentes figuras e o teto de anjos
viraram-se para a Alma de Gerson.
- Brincadeira, já não há nada mais a dizer, apenas agradecer a
ilustre colaboração de São Pedro e de Mário.
- Pede-me o que quiseres. - Disse Deus.
- Que é isso Senhor, não se deixe levar pela emoção, alguns
dos meus pedidos poderiam ser desobedientes.
- Eu lembro do dia em que foste criado, lembro dos teus
genitores.
- Meus pais?
- Não, o óvulo e o espermatozoide.
- Ahh!
- O teu genitor espermatozoide estava quase para ser
alcançado, então ele atacou os globulos vermelhos e passou a
frente. Esses globulos atacaram os espermatozoides que vinham
atrás e o teu genitor espermatozoide foi ao encontro do óvulo
e uniu-se a ele; a esperteza está-te nos genes. E certamente
não te lembras mais quando estavamos na barriga da tua mãe...
- Estais mesmo em toda a parte!
- Tu costumavas bater a barriga da tua mãe até ela adivinhar o
que querias. Ela perguntava frutas, tu batias, yogurte tu
batias, até que ela dizia o item que tu querias e ficavas
quieto a espera da tua parte. O teu pai fartava-se de rir
quando via a tua mãe comunicar-se assim contigo na barriga.
- O meu pai...
- Foi um bom homem, a sua alma está entre nós. Vai, pede-me
filho.
- Bem, tem alguém lá na terra. Eu preciso de concluir algumas
coisas.
- A cigana
- Puxas, até aí estavas! Quer dizer, Perdoai-me, até aí
manifestastes a Vossa Omnipresença Senhor!
- Podes tratar-me por tu.
- Fixe. Ai, A cigana!
- Linda criatura.
- Caprichaste! Ela é um amontoado de carnes com o volume
perfeito, lembra-me uma certa atriz Italiana.
- A Bellucci
- Urgh! A Diva. Bela italiana. Já viste o meu quarto? Tenho um
enorme poster dela.
- Prefiro contemplar a escultura viva.
- Yeaaaaah! Se não fosses Deus pedia que me desses cinco.
- Que é isso toca aqui. - E tocaram cinco - O.K, o mundo
precisa de ti, salvarás muita gente injustamente condenada.
Passaram-se dois minutos na terra.
- Só? Importas-te de responderes-me quando eu falar contigo lá
da terra.
- Responder sobrecarrega o meu sistema, não te prometo nada.
- E tem mais uma coisa, peço que me deixes voltar com o Mário,
a bondade dele tem sido a minha inspiração.
E Deus tocou-lhe.
Gerson levantou-se do chão. Estava sozinho no quarto, viu
dinheiro em cima da cama, maços de Dolares, levou três maços,
cerca de 50.000.00 $ dolares. Escondeu-os nos largos bolsos
que trazia.
Enquanto saía dizia olhando para o céu:
- Eu posso provar que este dinheiro vai para o bolso dos
nossos policias corruptos.
Quando saiu da casa, os agentes e o seu professor que metiam a
Sheila no carro não queriam acreditar.
- Estás vivo.
Gerson chegou a cidade e foi até as bombas da Ronil, telefonou
para a Cigana.
- Gerson!!!
- Eu mesmo, directo do paraíso para os teus braços.
- Convencido. Sabes que é isso que mais me chateia em ti.
- E que adoras também.
- Adormeci há pouco e sonhei com um anjo que disse...
- Que deveriamos ficar juntos para sempre.
- Sim.
- Já agora como é que te chamas?
- Monica.
- Monica! Tu não tens antepassados Italianos?
- Porquê?
- Além do nome, tens o corpo da Monica Bellucci?
- Nunca reparei.
- Se ela tivesse uma irmã Moçambicana, serias tu.
- Como é que uma Italiana há-de ter uma irmã moçambicana?
E blá, blá, blá, blá, blá.
Gerson e a cigana, ou seja a Monica, tiveram uma noite de sexo
e amor e logo pela manhã começaram com a discussão que duraria
anos: é que os retratos da irmã Italiana dela estavam
espalhados por tudo que pertencia a Gerson, até na escova de
dentes. Gerson explicou o seu amor pela Italiana dizendo que
quanto mais amava a Italiana, mais amava a Moçambicana e
vice-versa. Com o dinheiro Gerson comprou uma casa e foi viver
com a(s) Monica(s). Cedo conseguiu formar juntamente com Mário
um dos melhores escritórios de advogados do país. Deus às
vezes lhe respondia, salvou várias vidas e advogou causas
nobres. Embora casado, continoou boémio e espero que Deus não
tenha tido nada a ver com isso, mas a Bellucci veio filmar no
país, ele foi admitido para o casting, contracenou com ela e
conseguiu convencê-la a dormir com ele. Ficou menos boémio
depois disso, como tinha prometido a Deus, e fui um bom, fiel
e devotado marido.
Stélio Inácio
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