A casa dos grandes pensadores
 
 

STÉLIO INÁCIO

 

O Boêmio Universitário

Gerson despertou à entrada de um clube nocturno cujas portas estavam já fechadas. Pôs-se de pé. Apanhou a sua sacola de livros que servira-lhe de almofada e seguiu indeciso pela direita. À primeira pessoa que encontrou perguntou as horas e o dia da semana: era segunda-feira, sete horas e cinco minutos. Lembrou-se então que no dia anterior tinha levado os livros quando saiu para a noitada porque contava curtir até as tantas, dormir num quarto qualquer que ele alugaria e logo de manhã ir a faculdade.
A verdade é que o plano só deu certo até a parte da curtição.
Gerson era mulato, filho de pai branco e mãe negra. Actualmente vivia com a mãe, comerciante dona de várias lojas na capital. Filho único orfão de pai, desfrutava de todo amor que uma mãe de um filho só podia dar. O seu cabelo contrastava com o seu tom de pele muito claro. Vestia conforme a ocasião, era a sua teoria da camuflagem, e penteava sempre para trás, formando estrias na cabeleira.
Naquela manhã Gerson tinha a camisa um pouco ensaguentada, vestígios de uma madrugada (para ele rotineira) na zona quente.Tinha de chegar a faculdade de Direito as oito horas, decidiu-se a apanhar um chapa, só havia um problema que ele não cansava de confirmar metendo a mão em todos os bolsos e vasculhando a sua carteira: não tinha dinheiro para pagar a rota.
Dirigiu-se a paragem mais próxima entrou no primeiro chapa que apareceu com a maior das boas disposições, apesar do seu cabelo totalmente desalinhado e da cara esmagada pelo sono e pela ressaca. Sentou-se no primeiro banco e como se falasse a um velho amigo, dirigiu estas palavras ao cobrador:
- Não sabes o que me aconteceu hoje...!
Seguiu-se um momento de suspense e intorrogação, tanto no cobrador como no motorista.
[ - As zero e trinta, após um passado recente de faras e despedidas de solteiro de amigos e conhecidos que principiaram no sábado, encontrava-me eu num bar da zona quente onde fora com um amigo que ingratamente abandonou-me após ter recebido um telefonema da namorada que em uníssono com a sua consciência lembrou-lhe que eram horas de estar em casa a dormir, pois que logo pela manhã havia faculdade. Ele que por vezes tem repentinos surtos de responsabilidade, foi-se e eu fiquei abandonado, mas não só.
[ Pedi e degustei um copo de qualquer bebida para atiçar o ânimo, passei a vista em 360o pelo bar até que encontrei os olhos de uma linda mulata que economizava substancialmente no vestir, deixando assim a vista substâncias que me substanciaram os olhos, o coração e outras partes. Ela tem um qualquer coisa de cigana, permita-me o galicismo caro cobrador. ]
O cobrador e o motorista achavam muito estranha esta forma de falar, e se não desataram a rir foi porque perceberam que tratava-se de um universitário, enfim, estavam embebidos do religiosismo do povo em relação a universidade, temendo-a, respeitando-a mas sobretudo achando que ela é uma grande doença do espírito.
[ Aquela mulher ostenta uma beleza exótica ] Continuou Gerson, [ uma beleza politicamente incorrecta como diria o meu professor de Direito Constitucional se por acaso apreciasse mulheres e tivesse a vista esta mulher em particular. É certo que percebi que ela estava próxima a um grupo de três indivíduos mas como aquele é um local onde as mulheres estão a venda e são montras de si mesmas, eu não exitei em me aproximar e contornei com uma das minhas mãos toda a extensão da nádega esquerda dela enquanto lançava-lhe um olhar lascivo. O namorado que era um dos três homens ao lado dela, quedava-se incrédulo e eu percebi que a moça não era uma prostituta. Pus-me a correr seguido por dois homens de elevado porte muscular que estavam sentados um pouco próximos dos três e que soube depois, eram os seus guarda-costas; uma vez fora do bar, dobrei a esquina e parei. Lancei um olhar para um dos meus amigos, estacionado por assim dizer junto de um dos bares da Rua Araújo; ele olhou para os
 dois monstros, percebeu, e veio em meu socorro.
[ Estavamos no meio da estrada, eramos dois contra dois; eu embora não pareça, sou um bom lutador. Primeiro encaramos os dois guarda-costas; eu tinha calhado com o mais baixinho, percebi logo essa desvantagem, pedi aos guarda-costas para se acalmarem um pouco e pedi ao meu amigo para trocarmos de lugar, depois encarei-lhes e disse que podiam se enervar novamente, isso fez eles ficarem mais furiosos, começamos a luta. Fartei-me de esquivar os socos do meu inimigo, porém, num momento infeliz, ele agarou-me e deu-me alguns pontapés no pé; percebendo o seu truque levantei o pé, dei-lhe três joelhadas na barriga, uma cotovelada nas costas, uma bundada na cara e atirei-lhe para longe. Neste momento juntaram-se a luta os três homens do bar, e o namorado da cigana foi directo para mim e atingiu-me com uma chapada na cara, disse-lhe que ele batia como uma menina e dei-lhe um gancho esquerdo, o meu melhor. Os amigos do meu amigo e alguns conhecidos meus vendo-nos em desvantagem, juntaram-se à nós. Estavamos a dar uma boa sova aos cinco, nós eramos cerca de sete. Alguns turistas (soube depois, eram suíços) que vinham certamente desfrutar das nossas mulheres mas que também sabiam apreciar uma boa luta, juntaram-se aos nossos inimigos. Levei memoráveis ganchos daqueles suíços, um deles partiu-me um dente que abanava há já dois dias. Estou-lhe muito grato por isso e se tivesse sabido mais cedo a receita não teria exitado em aplicá-la para me livrar daquele incómodo dente. Quando já sem ele fiquei uma besta, bati a torto e a direito e todos eles provaram as minhas bundadas. E tenho muito orgulho em dizer-lhe caro cobrador, que este sangue na minha camisa é mais dos meus inimigos do que meu.
Além de um pequenissimo ferimento no queixo, Gerson não tinha nenhum aranhão.
As várias pessoas que nos assistiam resolveram também entrar na luta, umas de bom grado e outras obrigadas, já não tinhamos uma, mas várias lutas: era prostituta contra prostituta rival, prostituta contra o cliente que aproveitou fugir, desconhecido contra prostituta, desconhecido contra desconhecido, eu contra quem me atacava, quase 100 metros de estrada cobertos de pancadaria. Destraiu-me num breve instante a cigana que assistia animada à esta luta, e que percebi, não tirava os olhos de mim. O namorado perdido numa das batalhas, viu-me olhar para ela e veio desvairado ao meu encontro. Quando ía atingir-me em cheio, dois polícias pegaram-nos, eu despertei da contemplação da cigana e apercebi-me de que a maioria dos contendores pusera-se em debandada.
[Fui algemado, uma das minhas mãos com uma das mãos do Mamad, assim se chamava o namorado da cigana. ]
- Puxas você causou toda essa confusão! - Admirou o cobrador
- E depois e depois - perguntaram os outros passageiros.
[ Bem, eramos primeiramente acompanhados por dois polícias, mas um deles, com a alcunha de Florbela, foi chamado para verificar uma ocorrência. Reparei que o Mamad estava muito assustado, julguei-o um covarde; por acidente encostamo-nos e eu senti a pistola, que ele levava no bolso esquerdo. Olhei para ele e ele olhou para mim como se sugerisse que eu pegasse a arma e ameaçasse o polícia para que ele nos soltasse, disse-lhe que não e pedi-lhe para que não se preocupasse, por gestos é claro.
[ - Desculpe-me oficial mas há uma coisa que eu queria lhe dizer. - Principiei eu com certa autoridade - eu queria fazer-lhe notar que as pessoas enganam-se quando dizem que este país tem dono: na verdade este país tem donos. São os ministros, os vice- -ministros, os deputados, os generais, a polícia e as pessoas das relações de todos esses. Ora todas essas pessoas reclamam para si mesmas o mesmo pedaço de terra. Diga-me, não sente que este país é seu? Não sente que pode usar da sua posição para benifício próprio ou dos seus, ainda que de forma injusta ou criminosa? Pois bem, este país também é meu caro oficial. Portanto este país é nosso, percebe. Só que é mais meu do que seu. E como tal ambos temos direitos e abusos sobre ele, com a única e significativa excepção de que eu tenho sobre ele, mais direitos e abusos em relação à si. Para ser mais claro peço que me confirme as seguintes informações: o comandante da esquadra que pelos vistos nos leva não se chama Comandante P...,  confirma? Indivíduo corpolento, escuro, com uma mulher muito mais nova em relação à ele? Como sabe essa não é a sua primeira mulher e com a anterior mulher já falecida ele teve um filho chamado Pedro Emanuel que estuda Direito na UEM e que tem um teste em grupo comigo hoje daqui a algumas horas. Esta última informação não sabia é claro, e também não sabia que o filho do comandante estuda comigo a quatro anos e que tem passado as minhas custas
[ - O Sr. Pedro vem às vezes aqui na esquadra e diz que tem um jovem que faz trabalhos da escola para ele. - Disse o policial um ouco confuso.
[ - Não sabia também, caro oficial, que eu custumo almoçar em casa do seu comandante e que a estratégia do policiamento desta zona foi-lhe sugerida por mim.
Estavamos a 100 metros da esquadra.
[ Porquê não disse logo chefe? - Disse amendrotado o polícia.
- Mas o que o oficial achava? - Terminei sem misercórdia - O senhor achava mesmo que eu ando a estas horas no país dos outros, o senhor achava mesmo que eu meto-me à pancada num país que não é o meu. Na. Eu faço estas coisas porque sou dono deste país!
[ O polícia quase mijando-se de medo soltou-nos, voltamo-nos serenamente e dirigimo-nos ao bar onde tudo começou. Mamad quase chorou ao agradecer-me; ofereceu-se a pagar-me alguns copos, e perguntou se eu realmente conhecia o tal Pedro Emanuel e o comandante da esquadra à que eramos levados, eu respondi-lhe que o havia visto numa palestra, e que ele estava numa universidade privada. Perguntou-me então como sabia tanto sobe o comandante e o seu filho.
[ - É incrível a quantidade de coisas que se aprende frequentando bares. - Respondi-lhe.
[ Ao chegar ao bar os guarda-costas e os amigos de Mamad vieram para cima de mim e um deles apontou-me uma pistola. Mamad apazigoou-os, contou-lhes tudo e dez minutos depois estavamos na maior bebedeira e eu sentado ao lado da cigana que por sua vez estava ao lado do Mamad.
[ As minhas mãos desfilaram por aquelas pernas debaixo daquela mesa. Ao avançar da madrugada ela escreveu o número dela nas minhas calças, como podem ver. ]
O cobrador, os passageiros e o motorista que quase provocou um acidente, reclinaram-se e viram o número escrito com uma caligrafia feminina.
[ Pouco depois eles abandonaram o local, despedimo-nos como bons amigos.
Saí fora do bar para apanhar um ar, descansar um pouco do cheiro de mulher e de tabaco que paira sobre a atmosfera daquele lugar. Enquanto caminhava lentamente esvaziando a grandes tragos uma garafa de qualquer líquido alcóolico que trazia comigo, dei-me de cara com os suíços e a última coisa que lembro-me antes de acordar no chão, é o punho de um deles a vir em minha direcção. ]
- Não te levaram nada - perguntou o cobrador
- A minha carteira! - disse Gerson surpreso apalpando os bolsos.
Acabavam de chegar a sua paragem.
- Roubaram-te, desce lá, pagas para outra vez.
Gerson desceu.
A única parte que não é verídica na sua estória concerne os suíços. Logo depois que ele despediu-se da cigana e dos outros, encontrou efectivamente os suíços, mas estes já esquecidos da memorável batalha, foram os seus companheiros para o resto da madrugada. Conversaram porcamene, beberam e filosofaram, discutiram a condição do homem, a natureza de Deus, a liberdade e a felicidade, a fisica e a metafisica de Aristóteles, a política de Platão e tudo com um discurso de invejar qualquer doutor em filosofia embora estivessem todos eles no maior estado de embriaguez possível. Falavam principalmente em latim, Gerson aprendera a língua no seminário antes de abandonar a carreira de padre. Os três suíços faziam a sua licenciatura em História das Religiões.
Gerson estava em estado lastimável, como dissemos: esmagado pelo sono e pela ressaca, mas estranhamente lúcido. Chegou finalmente a faculdade onde afluíam vários alunos. Pediu emprestado 50 Mt ao primeiro colega que viu, este nem exitou, emprestou-lhe.
Numa das bancas exterior ao complexo universitário comprou uma pasta dentrífica, uma escova de dentes, uma caneta, uma aspirina, exactamente uma, quatro bolachas, exactamente quatro, e um saquinho de folha de chá. Tinha ainda a sua disposição na banca: piri-piri, temperos, preservativos e sei lá o que mais.
Dirigiu-se a casa de banho dos funcionários, lavou a cara, escovou os dentes, tomou a aspirina, penteou o cabelo, abriu a sacola e de lá tirou calças e camisa engomadas na véspera; vestiu-as, livrando-se da sua roupa ensaguentada, mas antes de guardar as calças que trazia consigo, copiou o número da cigana.
Dirigiu-se para a sala dos funcionários, entrou chamando todos pelos nomes, serviu-se do termo acumulador com água para o chá, tirou a folha de chá e as quatro bolachinhas do bolso, e teve o seu pequeno almoço em cinco minutos, conversando animadamente com os funcionários. Despediu-se e ofereceu a pasta dentrífica que comprara à um deles.
Dirigiu-se para a sua turma com cinco minutos de atraso, mais trinta segundos e teria chegado depois do professor de Direito Constitucional.
- Gerson, fizeste o trabalho da tese, aquele de um tema a escolha- Perguntou uma de suas colegas enquanto o professor se instalava.
- Não me consta que tivessemos ficado com nenhum trabalho de Direito Constitucional tanto mais que eu não participei na última aula estava na biblioteca e perdi a noção do ...
- Gerson - Interropeu-lhe o professor - já que estás disposto a falar, podes ler-nos o teu trabalho?
- Claro Professor.
Gerson como vimos, não tinha feito o trabalho, estivera na biblioteca com uma de suas colegas e os dois, como bons estudiosos, acabaram divertindo-se muito entre os livros.
Gerson levantou-se abriu uma página em branco de um dos seus cadernos e começou a fingir ler:
- Eu vou defender a tese de que a lei e o crime não existem e de que a justiça é uma fantasia comum a toda a sociedade.

Não pode haver um homem digno para julgar o homem, porque não lhe será superior. Não pode portanto haver uma justiça digna para conceder ou tirar a liberdade.
O homem não existe, é apenas um conceito. O homem é um animal que persistiu no erro humano de se crer diferente de todas outras criaturas animais. Crime é pensar, é viver para tudo que não é geração de puro e passivo gozo de ignorante e autêntico saber.
A legislação que é própria ao homem, é a da natureza, e nesta não há crimes, há apenas equilíbrio.
Se a lei daqueles que não existem, os homens, fosse válida para alguma coisa, então criminoso seria também um terramoto, porque tira vidas humanas e destroi propriedades privadas, crime seria não nascer principe ou filho de presidente, porque tal gera uma desigualdade de oportunidades e direitos, crime seria qualquer um ter uma desvantagem em relação ao seu semelhante, porque isso também quebraria o inexistente equilibrio social-humano das coisas.
Se o crime não é mais do que aquilo que a lei diz que ele é, e a lei não é mais do que aquilo que os homens criaram ao longo dos séculos enquanto íam deixando de ser animais, então todo o sistema judicial é fruto de um erro primacial que corrompe toda a sua estrutura. Enfim, a justiça não passa de um erro persistente. De uma fantasia comum a toda a sociedade.

- Absurdo! - Disse chocado o professor. - Absurdo! a 4 anos que tu estudas o "sistema judicial", como podes dinamitá-lo assim. Absurdo!
Gerson brincava com os dedos na carteira como se tocasse um piano.
- Como podes afirmar algo assim!
- O Professor pediu uma tese à minha escolha, acho que o correcto seria o professor observar a estrutura do meu discurso e não as ideias nele expressas. - Disse Gerson olhando para as calças caidiças de uma sua colega que monstravam dependendo da inclinação dela em relação ao eixo plano da carteira, diferentes percetagens do seu traseiro.
- É que as ideias expressas no teu discurso são erradas! É lógica a existência do crime e da lei, a justiça não é nenhuma fantasia, são pessoas sérias e sabidas que estão a frente dos tribunais, a lei é o suporte sobre qual toda a sociedade ergue-se, isto é lógico, repara, se eu tiver uma caneta destas mais outra caneta destas eu tirei duas canetas. Isso é a lógica.
Disse isto o Professor empunhando a sua caneta.
- Com todo o respeito Sr. Professor uma caneta dessas mais uma caneta dessas não são duas nádegas, ou melhor, não são duas canetas.
A turma achou interessante e o professor não quis acreditar
- O quê???? Está a afirmar que 1 + 1 não é igual a 2 ???
- Com todo o respeito Sr. Professor 1 + 1 metafisicamente falando não é igual a 2.
- O quê????
- Segundo John Locke e o senso comum, não há duas coisas exactamente iguais, e mesmo que contestassemos este princípio, bastava dizer que ainda que fosse possível existirem duas coisas exactamente iguais, elas não teriam as mesmas coordenadas espaço-temporais, não ocupariam o mesmo espaço e teriam talvez diferentes tempos de existência em relação a diferentes referenciais. Ora, segundo estas premissas é impossível a existência de duas canetas como essa que o Sr. Professor tem na mão, na verdade, no universo absoluto não existe um valor absoluto, não existe o número dois ou três, só o 1. Portanto não existe uma quantidade 2 de nada, uma caneta mais outra caneta como essa seria, se forçassemos a matemática igual a bem, deixa-me fazer os cálculos a 1,987 canetas dessas aproximadamente. Logo 1 + 1 nunca é igual a 2.
- Isso é mais do que absurdo! - Disse o Professor mais do que chocado. - Toda a gente sabe que 1 + 1 é igual a 2.
Houve silêncio total por uns 15 segundos, durante os quais só ouvia-se o arfar do professor. Gerson bocejava.
- Está bem, vamos fazer o seguinte, se conseguires provar que 1 + 1 é igual a 2 e que a lei, o crime e a justiça existem, ficas despensado de fazer o teste que teremos na aula a seguir.
- Temos teste? - Admirou a turma.
- Sim, teste surpresa. E ouve Gerson, não fazes o teste e dou-te nota máxima. - Disse exaltado o Professor.
- Fisica e metafisicamente falando, - Não perdeu tempo Gerson. - eu nunca disse que 1 + 1 é igual a 2; apenas dei a expressão matemática para o enunciado de John Locke segundo o qual não há duas coisas exactamente iguais. É claro que podem haver quantas canetas em números naturais que o professor quiser, só não podem haver nem sequer duas canetas exactamente iguais a essa que o professor tem na mão. E filosófica e sociologicamente falando, eu nunca disse que num estado de direito não ocorrem crimes, não existem leis e que a justiça constitui nele uma ilusão ou fantasia, apenas glosei as teorias do bom selvagem de Jean Jacques Rousseau misturando com outras teorias naturalistas e emprestando-lhe a minha filosofia pessoal. É claro que num estado de direito existem crimes, mas num estado natural, caso existisse, não seria possível o crime porque o legislador e o criminoso coincidiriam num só: a natureza.
A turma permaneceu calada, o professor abaixou a cabeça derrotado enquanto guardava a caneta no bolso donde ela nunca devia ter saído, quando levantou a cabeça, Viu Gerson abandonar a sala.
- Mas devo dizer-lhe Professor, que mesmo no estado de direito, o legislador e o criminoso também coincidem. Creio que isso prova alguma coisa, pense nisso. - Acrescentou Gerson quando já estava na porta.
Fechou a porta e saiu relaxadamente.
- Isso é a alimentação! - Disse o professor com um olhar lunático - É a alimentação. Vocês alimentam-se muito mal.
E continoou a dizer isto ao longo de toda a aula enquanto os alunos conversavam, copiavam e consultavam-se mutuamente durante o teste. Coitado do pobre velho, tinha elouquecido.
Gerson dirigiu-se a sala dos funcionários e lá dormiu sonhando com a cigana os dois tempos que fora dispensado.
O fiel celular despertou-lhe cerca de duas horas depois para a aula de Direito Penal, aula de teste.
Voltou a lavar a cara, limpou-se, dirigiu-se a sala de aulas e foi recebido como um herói; os colegas chamavam-lhe César e felicitavam-no por finalmente ter conquistado a terra que eles chamavam Direito Constitucional, e visto que todos os outros reis de todas outras disciplinas prestavam-lhe tributo, era justo que Roma - como chamavam a turma - o elegesse como seu digno e imerecido imperador.
A coroa era de papel, um dos colegas recitou qualquer coisa em latim e o nomeou imperador. Gerson afectando nobreza pediu que um dos seus colegas lhe limpasse o sapato, foi logo atendido.
Calem-se. - Gritou subindo numa cadeira. - Convoco o senado.
Um grupo de jovens reuniu-se em volta dele sobre o riso dos demais colegas.
- Proponho ao senado a primeira lei. - Disse Gerson com a coroa na cabeça. - O cidadão Romano que fizer algo por Roma terá como recompensa se for homem, o beijo de uma de nossas colegas a escolha dele, e se for mulher o beijo de um dos colegas a escolha dela.
- E se for gay? - Perguntou um curioso.
- O beijo de um colega a escolhe dele, à excepção claro do imperador.
Risos ecoaram.
- Pois bem, peço ao senado que delibere. - acrescentou Gerson.
O senado abraçou-se e 1 minuto depois a lei estava aprovada.
Gerson recordou ao senado que tinha conquistado o Direito Constitucional e pediu que a lei a pouco aprovada fosse executada de imediato; adquiriu claro a aprovação do Senado, escolheu uma de suas colegas, que fez várias apelações ao senado alegando inconstitucionalidade da lei. O senado claro recusou todas, e ameaçou medidas correccionais em caso de desobediência, sendo a pena máxima para o crime, nada menos que o ostracismo.
Enfim, a indigitada teve que ceder e fechou os olhos, Gerson beijou-a, virou-se para o senado, lambeu os beiços, tocou o céu da boca, fez estalidos com a língua, e anunciou:
- É doce.
A turma foi ao delírio.
Entrou o professor de Direito Penal.
- Bom dia, aos seus lugares. Hei Gerson, que é isso que tens na cabeça?
- Nada Professor, uma brincadeira. - Disse Gerson tirando a coroa.
- Hoje teremos como teste um caso que vocês vão tentar resolver. O que será avaliado não é a opinião certa ou errada, mas os fundamentos dessa opinião, tanto mais que este caso ainda não foi resolvido. Trata-se de um caso de homicídio que aconteceu há dois anos atrás numa vivenda em Maputo. O corpo da vítima encontra-se desaparecido até hoje. Sabe-se que a vítima foi morta dentro da sua casa quando acabava de regressar da biblioteca; foram encontradas na carteira da vítima dinheiro, brincos, um maço de cigaros, um livro, espelho e baton. Foi morta a tiro no centro da sala de estar. O principal suspeito é o marido da vítima que teve uma discussão com esta logo de manhã e que não foi trabalhar nesse dia, tendo estado num bar ao lado da sua casa. O dono do bar afirma que ele terá ido para casa, o local do crime, buscar dinheiro as 08 e 30, que é mais ou menos a hora do crime. O marido diz que entrou na sua casa levou o dinheiro, mas que não viu nem falou com ninguém. Outro suspeito é o homem dos jornais que tinha acesso a casa e que foi visto a rondar o local do crime mais ou menos pela hora do crime. O terceiro suspeito é um vizinho à quem o marido da vítima devia dinheiro e que no dia anterior ao crime tinha ameaçado a vítima e a sua família de morte, foi visto também a rondar o local do crime mais ou menos a hora em que a vítima foi morta. Ninguém mais esteve em casa nesse dia visto que a filha saiu as sete horas para passar um dia numa vivenda na Matola que a família possui. O marido da vítima, principal suspeito, suícidou-se uma semana depois. Todos os outros suspeitos foram intorrogados, todos negam e até agora não se conseguiu provar nada.
Concluiu o Professor de Direito Penal após ter acabado de distribuir os ingressos.
- Tem noventa minutos.
Silêncio total na sala de aulas. Os alunos começam a resolver o teste, 20 minutos depois Gerson entregava o seu e saía da sala calmamente. Era típico dele.
Eram agora 10 horas e 30 minutos. Gerson não tinha mais aulas. Descendo as escadas que levam a saída da Faculdade, Gerson pensava na cigana. Tirou um papelinho do bolso onde estava anotado o número dela e resolveu telefoná-la:
- Alô - Atendeu uma voz suave.
- Olá
- Quem fala
- Lembras-te do louco de ontem.
- Tu! Tudo bem?
- Ficarei melhor se aceitares sair comigo.
- Desculpa-me. Ontem eu estava um pouco bêbada, na verdade eu sou uma mulher comprometida e acho que tu reparaste nisso. Desculpa, tenho de desligar.
- Espera, espera! Eu sei que tu és uma mulher comprometida com o amor.
- Quiseste dizer com o Mamad?
- Vês, tu também achas que o Mamad não é sinónimo de amor.
- Bem...
- Eu sei também que o Mamad é um homem comprometido com o trabalho e com os amigos dele.
- M...!!
- E sei também que estás em casa, aborrecida e sozinha, e é por isso que vais me dizer onde moras.
- Eu..., acho que não tem mal nenhum dizer, Morro na Ronil.
- Excelente, eu morro no edifício do Ministério do Trabalho. A que horas é o nosso encontro?
- O nosso encontro! Ahhh!! Está bem... Pode ser as... As 14.
- O.K, antecipações ate lá.
- Beijinhos.
Gerson tinha ganho o dia. Apanhou um chapa para casa, desta vez tinha dinheiro.
Chegou em casa as 11 e dormiu até as 13 e 30. Acordou ainda com sono. Tomou um banho de 10 minutos, ajeitou o quarto e pouco tempo depois recebia uma sms da cigana que dizia para ele ir buscá-la em baixo do prédio.
Gerson desceu feliz da vida e voltou a subir com ela, levou-a ao quarto, tirou a camisa, precipitou-se para cima dela e o telefone tocou.
Extremamente contrariado Gerson atendeu:
- Alô!
- Alô Gerson, daqui Dr. Alfredo.
- Boa tarde Sr Professor.
Era o Professor de Direito Penal.
- É sobre o teu teste de hoje
- Sim.
- Creio que estás certo. Estás incrivelmente certo. Como foste o primeiro a acabar o teste e eu não tendo nada para fazer, pus-me a lê-lo e vi que as teses por ti apresentadas tinham grande chance de ser verdadeiras.
- Ah!
Gerson olhava dolorosamente para a cigana e tinha vontade de desligar o telefone.
- Pois, no teste tu dizias que ninguém e nada garantem que a filha da Sra. Ana saiu antes da hora do crime, e que foi ela que provavelmente matou a Sra. Ana, tendo depois encenado o local do crime e de alguma forma a hora. Depois a filha teria levado o corpo, talvez com a ajuda de alguém, para algum sítio enquanto ía para a Matola ou quem sabe para a própria Matola.
A cigana lançava um olhar felino para Gerson enquanto despia-se, este quase desligava o telefone na cara do Professor.
- Eu fui ver pessoalmente o processo e encontrei algumas declarações contraditórias da filha da Sra. Ana, e no testemunho da empregada doméstica havia uma passagem em que ela dizia que depois de ter ido a padaria foi a farmácia onde encontrou a Senhorita Laylita, certamente diminuitivo de Sheila, a quem mais ela chamaria Senhorita senão a filha da Sra. Ana. Ora a farmácia abre as 08 e 30, o que ela ainda fazia em Maputo a essa hora, se tinha saído as sete.
A cigana ficou só com a roupa interior, vermelha, cheia de rendas. Uma lágrima despontou nos olhos de Gerson.
- Que beleza.
- Sim filho, é uma beleza de ideia que tu tiveste. Repara que tu dizias que o motivo para a filha ter morto a Sra. Ana devia ser algo precioso que ela tinha, e como entre os pertences não se fala do cartão de membro da biblioteca, tu afirmas que tal coisa preciosa devia estar escrita no cartão de membro da biblioteca ou em última análise ser o próprio cartão de membro da biblioteca..
A cigana tirou a parte de cima.
- Não...!!!
- Sim. Informei-me e soube que a dita filha hoje com 22 anos de idade, é rica e vive justamente na tal casa na Matola. Fui a PIC e falei com um agente, meu amigo de longa data e fiz com que ele se interessasse pela investigação. Ele levou um agente auxiliar e estamos os três a tua espera para irmos a casa da jovem na Matola.
A cigana esfregava o seu peito nu nas costas de Gerson.
- Daqui a 30 minutos.
- Não, daqui a 5 minutos. Nós estamos aqui em baixo do teu prédio. Depressa.
Gerson vestiu a camisa. Contemplava a cigana enquanto esta também vestia-se e amaldiçoou-se. Prometeu-lhe que continuariam mais tarde, desceu com ela, despediu-se dela e entrou no automóvel onde estava o seu Professor, um agente da PIC de certa idade, e outro agente da PIC estágiario e com cara de estágiario.
Quem conduzia era o estágiario, os outros três conversavam. Gerson explicou como chegou as suas conclusões, discutiram a riqueza da Sra. Ana, Gerson falava de uma herança. O agente da PIC afirmou que não era o primeiro caso de matricídio que ele investigava.
45 minutos depois chegaram.
Primeiro rondaram o quintal. Descobriram uma parte do quintal onde tinha um pedestal rectangular em pedra negra. Quando a dona da casa viu-lhes.
- Quem está aí? - Perguntou ela.
- Desculpe-nos, estavamos a apreciar o seu jardim. - Disse o agente da PIC.
- Podem entrar.
Era uma casa realmente luxuosa.
O agente explicou porque estavam ali. Recordou o caso e disse que eles tinham novas provas. Sheila estava cada vez menos confortável com o assunto.
- Cara Srta. - Disse de repente Gerson que não aguentava mais as voltas que o agente da PIC estava a dar - Nós achamos que matou a sua mãe e de certa forma terá participado do suícidio do seu pai e temos como prová-lo.
Sheila ficou furiosa. Começou a berrar com todos e disse que os queria fora da casa dela.
O estagiário mostrou o mandato de busca forjado por si e assinado por seu próprio punho duas horas antes.
Gerson levantou-se, olhou a volta, dirigiu-se ao quarto da vítima e viu um cofre.
- Voltou a sala e ordenou que Sheila o abrisse.
Ela ficou assustada, o Agente repetiu a ordem. Sheila seguida pelos 4 abriu o cofre.
- Tire as coisas daí. - Ordenou o Agente.
Primeiro ela tirou vários maços de dolares americanos, depois o cartão de biblioteca onde estava realmenente apontado um número.
Gerson ao ver o cartão da biblioteca e os números gritou triunfalmente:
- Aqui está a prova do hediondo crime.
Sheila tirou do fundo do cofre uma pistola e deu a Gerson um tiro certeiro no coração.
O tempo parou.
- Aí está o cartão, vês agente, estes números são de uma conta bancária.
- Agente! Porque ninguém se mexe. Professor Dr. Alfredo. O que se passa. Hei! Não me ouvem?Morri! Morri? Estou morto. Esta paricida matou-me. Eu vou...
E a alma de Gerson tentava bater sem sucessos a Sheila, que estava congelada como todos os outros.
- Espera aí, que som é este.
Gerson olhou pela janela e viu um anjo a descer do céu numa nuvem.
- Vem me buscar. - Disse Gerson afastando-se da janela. - Ele vai saber que tem de levar a mim porque eu sou o único que sou dois. Já sei vou me deitar no meu corpo, ele vai chegar, vai procurar-me, não vai encontrar-me e eu vou continuar vivo.
Gerson deitou-se em cima do seu corpo.
O anjo chegou.
- De novo brincar as escondidas! Será que a vida na terra é tão boa assim! - Disse o Anjo irritado. - Não há como te esconderes de mim Gerson. Queres fazer o favor de levantar-te do chão.
Gerson levantou-se.
- Caro Sr. Anjo, - Disse. - eu não estou morto, há aqui cinco pessoas porquê tenho de ser eu a morrer.
- Porque foste tu que foste morto, e além do mais eu só vejo uma alma. Relaxa, vais para o paraíso. Dá-me a mão.
A Alma de Gerson quando voltou a si ouviu uma voz que dizia numa língua que ele estranhamente compreendia:
- Bem vindo ao Paraíso, por favor dirijam-se ao primeiro andar.
A Alma de Gerson olhou para si mesma, poderia ver através de si mesma, tinha dois braços e duas mãos, um vázio enorme dentro do corpo e em vez de pernas o prolongamento da cintura para baixo era afunilado, como uma sereia, tinha uma espécie de rabo de cavalo que a fazia voar.
As suas narinas sentiam um cheiro agradável que lhe fazia lembrar tempos felizes, esse era o cheiro da fumaça sobre os seus pés que o fazia levitar, os seus ouvidos ouviam uma música continuada que lhe causava extremo gozo, e lhe trazia igualmente recordações felizes, quando olhou para a fumaça Gerson via a sua vida a passar como se tivessem feito dela um filme, via cenas inteiras da sua vida. Sobre as suas mãos e a superfície transparente de si mesma, a alma de Gerson sentia o contorno do corpo feminino, nada lhe dava mais prazer.
A Alma de Gerson olhou a sua volta e reparou que não se podiam destinguir os sexos. E que as almas não tinham cabelo, nem pelos.
- Olá - disse-lhe uma alma - Eu sou Ana Malhungane, a alma que graças a si é livre, ao resolver o meu caso trouxe-me a maior felicidade que eu podia ter no paraíso. Devo-lhe mais do que a vida, devo-lhe a alma, eu não podia descansar porque a pessoa que me matou gozava do bom e do melhor, enquanto o meu corpo esteve este tempo todo enterrado no quintal dela.
- Espero que agora possa descansar em paz.
- Muito obrigado. Eu sou recepcionista aqui na porta do paraíso, para mim tem sido uma eternidade e na terra só passaram dois anos. Conheço todo o pessoal aqui, vou finalmente fazer a minha triunfal entrada no reino de Deus.
- É estranho aqui.
- Já reparou! o paraíso é uma extraordinária ilusão criada pela poderosa supermente de Deus. Por enquanto todas estas almas vêem, ouvem e sentem coisas diferentes, quando estiverem dentro do paraíso estarão banhadas pela luz divina que é a maior sensação de bem estar. A única forma de te explicar isto é dizer-te que é como se fosses um notebook e quando chegasses a um lugar, que neste caso é o céu, fosses ligado a net. A felicidade de Deus circula a Yottabytes na luz de Deus, indefinidamente provoca em cada criatura a quintessência do ser. Mas apesar de tudo és livre. É como se fosses ao McDonalds e te deixassem preparar por ti mesmo o hamburguer perfeito, neste caso o hamburguer é a felicidade. Não há limites, é como se te atirasses de um arranha-céus só para sentir o gozo da queda e parasses exactamente a dois centimetros do solo, é pura adrenalina.
- Uau, isso parece íncrivel, mas como é que sabes se ainda não estiveste lá. - Perguntou Gerson.
- Bem, essas são as explicações que São Pedro nos deu para darmos aos Ocidentais. Segundo ele, não há nada tão bom para os ocidentais como computador ligado a net, hamburguer e adrenalina; segundo ele, um pode falhar mas os três não.
- Segundo essa linha de raciocinio porque não tentas esta: é como viver num mundo, em que as mulheres querem ter sexo contigo só por ter sexo, e em que gostam de futebol e mandam shots no bar.
- O.K, Vou propor à São Pedro. Agora vamos.
- Para onde.
- Para a bicha.
- Tem bicha
- Bem, segundo São Pedro é a prioridade acumulada, ou seja a prioridade de quem chegou primeiro, mais a prioridade de quem chegou depois do primeiro, mais...
- Entendi. Vocês são divertidos aqui no paraíso.
- A Gerência agradece.
A espera no céu, interessante tema, é pena que alguém não o tenha abordado, teria...
Espero que não tenhas excluído o que eu disse em cima.
Chegaram finalmente ao longo corridor que vai dar a porta do paraíso. Este corridor é tão curto que só podem nele formar-se quatro bichas lado a lado, mas extremamente longo.
A Alma de Gerson e a Alma de Ana chegaram, Ana pôs-lhe atrás da última alma da bicha e disse-lhe:
- Bem, há duas portas no paraíso, uma para as almas eleitas e outra para questões administrativas. Eu vou entrar pela porta administrativa é um direito que nós funcionários temos.
- Vemo-nos lá dentro.
- Até lá.
A Alma de Gerson, foi se deixando prender pela felicidade do paraíso, olhava para baixo e via a cigana no seu dia-a-dia, num salão de cabelereiro.
- Pôs-te a ferver e deixou-te e tu ainda queres voltar a vê-lo.
- Não sei, eu gostei dele, não sei explicar, ele fez toda uma confusão por mim, foi tão romântico! E tem algo que me chateia e que eu gosto nele.
- Uh! isso é amor!
- Amor! Talvez, vocês sabem como eu sou, quando gosto entrego-me logo, foi assim que me envolvi com o bandido do Mamad.
- Desculpa incomodar-te. - Disse Ana despertando a Alma de Gerson da felicidade de se saber amado. - Tem aqui alguém que quer falar contigo.
- Desculpa-me carissimo Gerson, chamo-me Aniel. - disse um anjo, ou seja uma alma mais alta, com asas e vestindo um tecido. - Preciso que me prestes um favor.
- Sim?
- Preciso que me defendas.
- Olha Gerson, cabe a ti aceitar ou não, - Disse Ana. - o Aniel tem tentado ser ouvido por Deus desde há muito tempo, eu tenho testemunhado no tempo em que estive aqui na recepção, contei-lhe como resolveste o meu caso, e ele e eu também achamos que podes resolver o caso dele, não sei de que se trata, mas é um anjo, dele não pode vir nada de mau. Até logo.
Disse Ana despedindo-se.
Aniel explicou a Alma de Gerson o seu caso e pediu ajuda. A Alma de Gerson fez muitas perguntas, e disse que o defenderia.
- Então vamos, a audiência é em momentos.
- Vamos.
Enquanto dirigiam-se a porta administrativa, a Alma de Gerson viu alguém.
- Desculpe-me Aniel, vai andando eu vou já ter contigo.
- Ei! Que fazes aqui, estás louco, queres forçar a entrada no paraíso? - Disse a Alma de Gerson a uma alma distraída pela felicidade.
- Gerson! Estou feliz por te ver, eras o que faltava para o paraíso ser perfeito. Não vais acreditar, enquanto esperava aqui, veio alguém, um recepcionista que disse-me que o paraíso é como viver num mundo, em que as mulheres querem ter sexo contigo só por ter sexo, e em que gostam de futebol e mandam shots no bar. Não é íncrivel.
- Espantoso. Tu eras depois de mim é claro, o maior pecador de Maputo.
- Coisas da terra.
- Como vai aquele borracho da outra noite, a Teresa.
- Na verdade a Teresa é uma dessas mulheres que eu conquistava para que o grupo não as conquistasse, para lhes advertir do perigo de andarem embriagadas com homens como nós, insensíveis que nunca ligaram ao sentimento de uma mulher. E embora as noitadas de sábado acabassem no Domingo as 6 eu ía a missa as 7 do mesmo dia, e quando saía muitàs vezes via-te chegar a missa das 10, claro que escondia-me, guardava o meu e o teu segredo, nunca foi por vergonha, a boémia é ciumenta, para que ela nos amasse tinhamos de ser só boémios. Acho que isso explica o paraíso.
- Felizmente, mas Mário, preciso da tua ajuda, diz-me uma coisa: o filho que foi injustamente castigado pelo Pai e lhe vai pedir perdão por uma falta que não cometeu, ama-o ou odeia-o?
Mário respondeu-lhe.
- Obrigado, ajudaste-me a resolver um caso. Estaremos juntos sempre e isso faz--me extremamente feliz. He! E mais uma coisa, sentes na mão as curvas do corpo feminino.
- Ya.
- É íncrivel né?
E a Alma de Gerson foi atrás de Aniel.
Chegou na porta administrativa e entrou.
Aniel conversava com São Pedro, um anjo vestido como Aniel.
Deixo-vos aqui.
Quando São Pedro ía a fechar o aposento onde deixava Aniel e a alma de Gerson, esta disse-lhe:
- Desculpe-me São Pedro, posso falar-lhe?
Aniel olhou para a Alma de Gerson com um olhar intorrogador.
- É pela nossa causa.
São Pedro e a Alma de Gerson falaram a sós num outro compartimento durante um bom tempo.
A alma de Gerson voltou para o aposento onde estava Aniel e esperaram. Não trocaram nem uma palavra. Durante todo o tempo a Alma de Gerson observava Aniel, este tão angustiado nem sequer percebeu.
Finalmente veio São Pedro e ordenou-lhes que lhe seguissem.
Entraram no paraíso. É uma terra plana infinita, cheia de luz.
No paraíso realmente existe céu, aquilo que fica em cima das incontáveia almas felizes que habitam ao relento dessa imensa planura. O céu é composto por nuvens e anjos, uma Capela Sistina viva. Os ajos que pairam sobre as pessoas são os anjos da felicidade. As nuvens são belíssimas, navegam no céu. Delas chove a tempos o maná celestial.
A Alma de Gerson e Aniel voaram atrás de São Pedro até chegarem a uma nuvem enorme. Quando chegaram em cima dela, começaram como que a levitar sobre ela, o mesmo que acontecia no solo do paraíso.
Legiões de anjos vindos de todas as partes do céu apareceram em cima da nuvem para assistir ao julgamento. Formavam o teto mais íncrivel de se descrever. Os anjos eram as únicas criaturas com asas e vestimentas. Eram criaturas menos transparentes que as outras. As cores das suas vestimentas e asas tinham todas as cores possíveis e formavam um teto extremamente colorido. O mais íncrivel de tudo é que eles estavam exactamente a mesma altura da nuvem e o tecido com o qual cobriam-se movimentava-se para todas as direcções possíveis.
São Pedro pediu que os dois o seguissem, e foram mais para o interior da nuvem. No momento em que chegaram ao interior dela o teto dos anjos reorganizou-se, dobrando-se e formando primeiro uma parábola e finalmente um semi-circulo. Os olhos dos anjos fixavam-se neles. De repente ergueram-se várias personagens da nuvem, entre as quais estavam as personagens e figuras mais famosas da biblia, a elite do céu. A alma de Gerson não queria acreditar, reconhecia a maioria dos que estavam ali.
É importante realçar que Deus está em toda a parte, e no pensamento de todos, mas desconhece os pensamentos daqueles que estão no céu com ele. A melhor explicação é que ele não pode ver a sua cara ou que não pode pensar dentro do seu cerébro. É no céu que fica a cara e o cerébro de Deus.
São Pedro juntou-se aos seus onze companheiros.
- Aniel não tem chances - Comentou um dos ilustres
- Gabriel, não digas isso, tu disseste o mesmo quando eu estava na barriga da baleia mas Deus perdoou-me
- Eh! E lembras quando eu estava pregado na cruz, quando nem eu acreditava no pai, ele também perdoou a mim e a toda a humanidade
- E eu, e eu, todos vocês sabem quanto eu sofri para ser admitido entre os meus onze companheiros. Tive que provar que eu realmente me arrependi da traição a 2000 anos atrás da terra.
- Aniel merece uma chance.
- Eu só espero que este miúdo saiba defendê-lo.
- O Pai é muito duro às vezes
- Silêncio!
Gritou de todo o lado, quem ninguém podia ver.
- Aniel, o que me queres?
- Ser admitido no céu, Senhor. Posso provar a minha inocência.
- Gerson, o que me queres?
- Nada Senhor. - Respondeu Gerson admirado.
- Ele vem defender-me Senhor. - Corrigiu Aniel.
- Sim, vim defendê-lo. - Confirmou Gerson.
- Que comece.
A Alma de Gerson procurou a Deus com os olhos, não o viu e começou olhando para cima, onde estavam os anjos.
- Desculpai-me Senhor, preciso colocar-vos algumas questões.
- Pode ser.
- Vós tendes alguma legislação, código penal, ordens divinas, ou algo que com isso se pareça?
- Temos uma lei.
- Poderia ter acesso aos manuais?
- É só uma lei.
- Uma?
- Uma.
- Uma lei mantém o paraíso e determina quem vai ao inferno?
- Exactamente.
- Pois bem, qual é essa lei?
- Eu sou vosso criador e vocês devem-me obediência.
- Perfeito. Permiti-me perguntar Senhor se poderiamos enunciar esta lei da seguinte maneira: A desobediência será punida.
- Claro.
- O que entendereis exactamente por desobediência?
- É a não-obediência.
- A não-pactuação?
- A não-obediência.
- O não-conformismo?
- A não-obediência.
- A não-obediência?
- A não-obediência.
- Portanto todos nós aqui presentes sabemos o que é a não-obediência?
- Exactamente.
- E principalmente Vós Senhor?
- Sei-o melhor que vós.
- Mas tem havido uma clara tendência para a desobediência entre nós.
- Exactamente.
- Ainda que saibamos o que é a obediência por sabermos o que é a não-obediência?
- Estás no caminho certo, meu filho.
- Vós Senhor, dissestes há pouco que sabeis melhor do que nós o que é a não-obediência e portanto também a obediência devidas a Vós.?
- Claro.
- Claro que a hipotese é remota, visto Vós Senhor serdes Deus. Mas e se Vós fosséis desobediente a Vós mesmo, o que aconteceria admitindo a hipotese?
- Não se pode admitir essa hipotese, mas se isso acontecesse...
- Se isso acontecesse daríeis azo a desobediência das Vossas criaturas. Analisemos o caso de Aniel.
A Alma de Gerson fez silêncio enquanto encarava os seus circunstantes.
- Aniel era um anjo da confiança de Deus como todos vós - E disse isto apontando o teto - O Senhor mandou-o a uma pequena cidade da terra para chamar as pessoas para o bem, a harmonia e a paz. Aniel conseguiu convencer 15 das 800 pessoas em famílias diferentes. Quando o prazo acabou, o Senhor disse para que Aniel ordenasse que estas 15 pessoas abandonassem a cidade e o fez regressar ao céu. Aniel tentou, mas essas 15 pessoas não queriam abandonar as suas familias. Quando Aniel chegou ao céu e viu que Deus preparava-se para destruir a pequena cidade renegou-o e amaldiçoou-o. Por isso tem desde então vivido no inferno. Quanto a cidade soube de alguém que Deus nem chegou a destruí-la. - Todos olharam para São Pedro - Não a destruiu talvez porque sentiu alguns remorsos de ter feito aquilo que ele achava ser um sacrifício para o equilibrio do paraíso. Aniel, mostre-nos a cidade!
Aniel fez com que a cidade aparecesse na superície da nuvem, e todos poderam ver uma sociedade justa e feliz.
- Aquelas 15 pessoas mudaram a cidade, Aniel estava certo e pagou por isso. ""Pai, porquê me abandonaste?", há pouco Aniel dizia isto enquanto delirava, esquecido da minha presença ali, quantàs vezes ele deve ter repetido a si mesmo esta pergunta, um de Vós aqui compreende a sua dor, porque a 2000 anos terrestres atrás fez a mesma pergunta.
Deus materializou-se, ou melhor transparentalizou-se na forma de um belo e brilhante anjo.
A Alma de Gerson aproximou-se dele e disse-lhe:
- Senhor fostes desobediente, desobedecestes a justiça e graça devina, e a Vossa desobediência a Vós mesmos, fez com que Aniel Vos desobedesse por terdes desobedecido a Vós mesmos, querendo resgatar a Vossa dignidade roubada por Vós mesmo no curso da Vossa auto-desobediência.
- Aniel é inocente, obrigado por teres tanta razão Gerson. Peço-te que me perdoes Aniel.
- Não, Aniel não é inocente.
E ouviu-se um Ohh! De espanto e reprovação tão gracioso como as eminentes figuras celestiais podem dá-lo. A alma de Gerson virou-se para Aniel que baixou os olhos".
- Aniel não deixando de Vos amar Senhor, odiou-o, foi também desobediente.
- Eu amo-te Pai. - Disse Aniel aproximando-se de Deus. - Eu sempre te amei, mesmo quando te amaldiçoava, mesmo quando procurei vingar-me de ti, mesmo quando fui falar com o diabo.
E aqui ouviu-se um outro Ohh! Celestial.
- Aniel foi falar com o diabo e fez um acordo com ele. - Disse a alma de Gerson. - Certamente ele carrega na sua asa esquerda algo que compromete a segurança no paraíso, pois reparei que essa asa está defeituosa. A príncipio pensei que podia ser um defeito mas observando mais de perto enquanto ele delirava reparei que não era uma asa. Tem apenas o formato e a cor.
- É a pena do diabo. - disse Aniel.
- Ohhh! - Fizeram todos, é excelente este Ohhh! Simplesmente magnífico. Aniel afastou-se de Deus, abraçou-se e as duas asas que ele tinha, a verdadeira e a falsa consumiram-se num fogo ardente até sumirem.
Ficou um anjo sem asas. Essa é a morte dos anjos, toda a vida deles está nas asas.
- Dei uma asa ao Diabo para destruir o paraíso, agora dou a outra para salvá-lo.
Todos tinham os olhos em Aniel. E a Alma de Gerson falou:
- Claro que eu fiquei preocupado com a segurança do Paraíso e principalmente com Aniel cujo sofrimento por ter sido afastado pelo pai é indiscritível.
A audiência neste ponto e o próprio Aniel esqueceram o Aniel (O Aniel esqueceu a si mesmo) e se concetraram nos lábios da Alma de Gerson, cujas palavras todos, até o próprio Deus achavam divinais.
- Pois bem, eu falei com São Pedro e pedi que ele fizesse voto de silêncio e confiasse em mim, expliquei as minhas descobertas em relação a asa de Aniel e São Pedro disse-me que ele provavelmente trazia a pena do diabo e que a solução era eu esfregar uma de suas penas na pena do diabo, assim a asa do anjo venceria a pena do diabo pela diferença de uma pena. Quando nos despedimos São Pedro arrancou uma pena da sua asa que eu esfreguei na pena do diabo. Assim quando Aniel esfregasse a asa do diabo em sua asa, ele não morreria.
Todos olharam para Aniel e viram que ele realmente tinha ficado com uma pequena pena.
- Viva. - Disseram todos.
- Espera aí, - Disse um anjo no meio do teto. - como é que tu sabias que Aniel não usaria a asa para nos destruir.
- Consultei um sábio.
- A ti mesmo?
- Não, agradeço a lisonja filho nascido de mãe virgem, um dia vamos conversar sobre isso, mas consultei o Mário, e perguntei: o filho que foi injustamente castigado pelo Pai e lhe vai pedir perdão por uma falta que não cometeu, ama-o ou odeia-o?
"bem, odeia-o enquanto ainda não tiver sido perdoado, mas depois de perdoado justamente, ama-lo-á mais do que o amava antes ". Foi nestas palavras que eu baseei-me.
- Bravo! - Disseram todos, os anjos batiam palmas.
- Mas no entanto...
Silêncio total, todas as eminentes figuras e o teto de anjos viraram-se para a Alma de Gerson.
- Brincadeira, já não há nada mais a dizer, apenas agradecer a ilustre colaboração de São Pedro e de Mário.
- Pede-me o que quiseres. - Disse Deus.
- Que é isso Senhor, não se deixe levar pela emoção, alguns dos meus pedidos poderiam ser desobedientes.
- Eu lembro do dia em que foste criado, lembro dos teus genitores.
- Meus pais?
- Não, o óvulo e o espermatozoide.
- Ahh!
- O teu genitor espermatozoide estava quase para ser alcançado, então ele atacou os globulos vermelhos e passou a frente. Esses globulos atacaram os espermatozoides que vinham atrás e o teu genitor espermatozoide foi ao encontro do óvulo e uniu-se a ele; a esperteza está-te nos genes. E certamente não te lembras mais quando estavamos na barriga da tua mãe...
- Estais mesmo em toda a parte!
- Tu costumavas bater a barriga da tua mãe até ela adivinhar o que querias. Ela perguntava frutas, tu batias, yogurte tu batias, até que ela dizia o item que tu querias e ficavas quieto a espera da tua parte. O teu pai fartava-se de rir quando via a tua mãe comunicar-se assim contigo na barriga.
- O meu pai...
- Foi um bom homem, a sua alma está entre nós. Vai, pede-me filho.
- Bem, tem alguém lá na terra. Eu preciso de concluir algumas coisas.
- A cigana
- Puxas, até aí estavas! Quer dizer, Perdoai-me, até aí manifestastes a Vossa Omnipresença Senhor!
- Podes tratar-me por tu.
- Fixe. Ai, A cigana!
- Linda criatura.
- Caprichaste! Ela é um amontoado de carnes com o volume perfeito, lembra-me uma certa atriz Italiana.
- A Bellucci
- Urgh! A Diva. Bela italiana. Já viste o meu quarto? Tenho um enorme poster dela.
- Prefiro contemplar a escultura viva.
- Yeaaaaah! Se não fosses Deus pedia que me desses cinco.
- Que é isso toca aqui. - E tocaram cinco - O.K, o mundo precisa de ti, salvarás muita gente injustamente condenada. Passaram-se dois minutos na terra.
- Só? Importas-te de responderes-me quando eu falar contigo lá da terra.
- Responder sobrecarrega o meu sistema, não te prometo nada.
- E tem mais uma coisa, peço que me deixes voltar com o Mário, a bondade dele tem sido a minha inspiração.
E Deus tocou-lhe.
Gerson levantou-se do chão. Estava sozinho no quarto, viu dinheiro em cima da cama, maços de Dolares, levou três maços, cerca de 50.000.00 $ dolares. Escondeu-os nos largos bolsos que trazia.
Enquanto saía dizia olhando para o céu:
- Eu posso provar que este dinheiro vai para o bolso dos nossos policias corruptos.
Quando saiu da casa, os agentes e o seu professor que metiam a Sheila no carro não queriam acreditar.
- Estás vivo.

Gerson chegou a cidade e foi até as bombas da Ronil, telefonou para a Cigana.
- Gerson!!!
- Eu mesmo, directo do paraíso para os teus braços.
- Convencido. Sabes que é isso que mais me chateia em ti.
- E que adoras também.
- Adormeci há pouco e sonhei com um anjo que disse...
- Que deveriamos ficar juntos para sempre.
- Sim.
- Já agora como é que te chamas?
- Monica.
- Monica! Tu não tens antepassados Italianos?
- Porquê?
- Além do nome, tens o corpo da Monica Bellucci?
- Nunca reparei.
- Se ela tivesse uma irmã Moçambicana, serias tu.
- Como é que uma Italiana há-de ter uma irmã moçambicana?
E blá, blá, blá, blá, blá.
Gerson e a cigana, ou seja a Monica, tiveram uma noite de sexo e amor e logo pela manhã começaram com a discussão que duraria anos: é que os retratos da irmã Italiana dela estavam espalhados por tudo que pertencia a Gerson, até na escova de dentes. Gerson explicou o seu amor pela Italiana dizendo que quanto mais amava a Italiana, mais amava a Moçambicana e vice-versa. Com o dinheiro Gerson comprou uma casa e foi viver com a(s) Monica(s). Cedo conseguiu formar juntamente com Mário um dos melhores escritórios de advogados do país. Deus às vezes lhe respondia, salvou várias vidas e advogou causas nobres. Embora casado, continoou boémio e espero que Deus não tenha tido nada a ver com isso, mas a Bellucci veio filmar no país, ele foi admitido para o casting, contracenou com ela e conseguiu convencê-la a dormir com ele. Ficou menos boémio depois disso, como tinha prometido a Deus, e fui um bom, fiel e devotado marido.

Stélio Inácio
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 02/05/2008