Associativismo de resultados
* por Tom Coelho
"Nosso caráter é resultado de nossa conduta." (Aristóteles)
Desde 1996 atuo voluntariamente em associações e entidades.
Quer saber a verdade? Comecei nisso por mero interesse
pessoal.
Eu era fabricante de brinquedos metálicos para playground,
entre outros itens. Um dia, decidi certificar meus produtos
com o objetivo precípuo de ter um diferencial competitivo em
relação à concorrência. O raciocínio era simples: se meu
produto tivesse um selo de qualidade eu certamente poderia
atuar no mercado com um preço premium, o que me garantiria
maior rentabilidade.
Porém, para chegar lá, era necessário criar as normas que
regulamentariam o mercado. Procurei o Inmetro que instituiu
uma comissão de estudos formada por diversos fabricantes,
laboratórios técnicos de certificação e órgãos de defesa do
consumidor.
As primeiras reuniões foram terríveis, com um corporativismo
latente.
Fabricantes de brinquedos de madeira insinuavam que os
metálicos eram perigosos porque esquentavam sob o sol e
poderiam provocar queimaduras nas crianças. Os fabricantes
de produtos em aço, por sua vez, argumentavam que os
brinquedos de madeira soltavam farpas que também eram
ofensivas. Enquanto isso, os importadores de brinquedos de
plástico injetado assistiam a tudo de camarote. Detalhe, nos
anos de 1990 ainda não se falava em preocupações de cunho
ambiental.
O fato é que após alguns encontros, com intensas discussões
e constantes estudos das normas em vigor nos Estados Unidos
e na Europa, subitamente um senso de civismo (e civilidade)
tomou conta de todos os atores daquela comissão. A norma que
estávamos elaborando era especificamente voltada não à
qualidade, mas à segurança dos produtos fabricados e
comercializados. Foi quando adotamos um princípio básico: o
brinquedo pode ser até de cristal, desde que não comprometa
a integridade dos usuários - as crianças.
Assim nasceu a NBR-14350/1999 (segurança de brinquedos de
playground). Como secretário-geral daquela comissão que se
reuniu mensalmente ao longo de dois anos, tenho hoje a
alegria de saber que deixei um legado, mesmo não atuando
mais naquele segmento empresarial. Foi quando aprendi o
propósito e a força do associativismo.
Desde então, participei de várias iniciativas como a
salvaguarda contra brinquedos importados da China, a
supressão da CPMF e, mais recentemente, o Feirão do Imposto,
promovendo a conscientização da população com relação à
carga tributária embutida no preço dos produtos.
Toda esta experiência permitiu-me chegar a algumas
conclusões:
1. Você é voluntário até começar a participar. Integrar uma
associação ou entidade é uma decisão pessoal. Contudo, uma
vez assumido o compromisso, você se torna responsável pelo
cumprimento de um planejamento estratégico previamente
formulado e pela defesa dos propósitos que norteiam a missão
da organização. Esta é uma mensagem àqueles que atuam
diretamente na gestão.
2. Participar não se resume a pagar mensalidades. A
contribuição mensal é o bem menor que você pode legar. É
limitado e superficial acreditar que basta depositar alguns
reais por mês em favor da entidade e exigir que os outros
lutem por seus interesses. Você precisa participar
ativamente de reuniões, debates e eventos. Esta é uma
mensagem aos associados.
3. O interesse coletivo se sobrepõe ao individual. O nome do
jogo não é vencer, mas convencer. Isso significa ter
flexibilidade e nenhum compromisso com o erro. Em alguns
momentos seu argumento é mais fraco e você perde. Mas a
derrota de hoje pode ser a vitória de amanhã.
4. O inimigo deve ser eleito com critério. O adversário deve
ser nomeado coletivamente. Com rapidez você descobre que ele
não é o concorrente na sala ao lado, mas sim a estrutura
tributária paranoica, os entraves à competitividade, a
economia informal, o produto importado com câmbio favorável
e qualidade questionável.
5. As batalhas devem ser escolhidas com sabedoria. A questão
não é debater demandas específicas, de caráter conjuntural,
mas sim buscar a regulamentação de um setor ou mudanças
estruturais. É trocar o benefício de curto prazo,
transitório, por avanços de longo prazo, duradouros, capazes
de promover a geração de emprego e renda.
Muitas vezes temos o mau hábito de criticar sem oferecer
alternativas, praguejar sem dialogar, julgar sem refletir.
E, assim, terceirizamos a culpa como indulgência pessoal à
nossa própria negligência.
Tom Coelho
é educador, conferencista e escritor com artigos publicados
em 15 países. É autor de “Sete Vidas – Lições para construir
seu equilíbrio pessoal e profissional”, pela Editora
Saraiva, e coautor de outros quatro livros. Contatos através
do e-mail
tomcoelho@tomcoelho.com.br.
Visite:
www.tomcoelho.com.br
e
www.setevidas.com.br.
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
20/01/2012