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2006
Mais um ano se finda e o nosso pensamento se volta para o tempo
cronológico, criando uma atmosfera avaliativa sobre a vida no nosso
espaço.
Segundo Immanuel Kant (1724 - 1804), a partir de uma ótica
transcendental e crítica da razão prática, o espaço e o tempo são
subjetivos, pois não são dados pela experiência, mas pertence ao ser
cognoscente: são formas a priori da sensibilidade. E que toda impressão
é subjetiva (JUPIASSÚ, 2001). A subjetividade é característica do
sujeito; é pessoal, individual, única e incomunicável. Mas somos seres
criados para e pela comunicação. Portanto, nessa perspectiva, a vida é
essencialmente conflituosa. A vida é dialética.
Filosoficamente, experiência significa arriscar-se... Viver é correr o
risco permanentemente. Viver em paz e harmonia é buscar o equilíbrio
entre essas forças. É assumir o papel permanente de aprendiz...
Para mim, 2006 foi um ano maravilhoso, porque foi fonte intensa de
aprendizagem, num tempo e espaço redimensionados.
Aprendi que, com a morte de meu pai, pude extrair um extraordinário
feixe de perdão e compreensão da vida. Nunca tive tão bem com o meu pai,
mesmo sabendo que ele não pertence mais ao espaço e tempo reais.
Aprendi que ter filhos é uma necessidade vital e que eles não
necessariamente precisam ser biológicos e que estejamos constantemente
juntos. Toda criação, assim como os filhos, pertence ao mundo. Adotar
alguém é caridade e compromisso com a vida, pois é um tesouro que
multiplica dividindo-se. Você mesmo pode ser filho de você mesmo. Ter
filhos é ser filho... É a partir da ótica de pai e mãe que entendemos
que não somos tão
importantes. Ser filho é ter filhos...
Aprendi, quando deixei de chorar, que chorar faz muito bem para a alma.
Que toda lágrima expressa um oceano de desejos, segredos,
incompreensões, de falta de humildade e carinho, e, sobretudo, de
ausência de aprendizagem.
Toda lágrima é uma gota que cai no mundo e provoca uma pequena onda, mas
que se transforma em tsunamis. Nessa visão cósmica, percebemos que somos
parte de um todo e que se algo nos atinge, atinge também o nosso mundo,
num tempo e espaço imperceptíveis. Enfim, somos muito importantes.
Somos e não somos importantes...
Aprendi, com o meu casamento, que deixar de ser possessivo é adquirir
paciência, que é uma arte e caminho saudável na construção da sabedoria.
Reafirmei, a partir da experiência amorosa, que a sabedoria é nosso Deus
feminino. Vivo com duas mulheres maravilhosas, dividindo um espaço
físico de cerca de 100 m². Que morar num apartamento não é tão ruim
assim.
Aprendi que é possível gostar de cachorros e que eles podem ser o melhor
amigo do homem, pois, segundo a filosofia milenar chinesa,a imagem do
cachorro se associa à família.
Percebi que a ciência está mais próxima de Deus, aprendendo com os
discursos notoriamente intimistas e religiosos de doutores e
pós-doutores. Que é possível fazer ciência falando de Deus. Que sendo
homem da ciência, não sou nada sem a presença de Deus. Que temos sempre
uma permissão para realizar algo. Que ter mais conhecimento e/ou bens
materiais significa que precisamos cada vez mais ter mais humildade.
Reafirmei meu discurso sabendo que o melhor verbo é oportunizar.
Oportunizar oportunizando-se. Descobri que fazemos ciência diferente da
Academia e que a Universidade é reprodutora de modelo cartesiano de
sociedade moderna.
Redescobri o caminho da pós-modernidade.
Reafirmei, reconstruindo e interligando aprendizagens, que nossos
problemas existem para vivermos e não para deixarmos de viver. São eles
que nos impulsionam para frente.
Enxerguei na maiêutica socrática que a metacognição (pensar sobre o
pensar) é mais importante que conscientizar. Que ser mediador do
conhecimento é oferecer subsídios para o parto de idéias.
Reaprendi, sob a ótica sócio-interacionista, que a aprendizagem é uma
digital, sendo que cada ser a tem de forma única. Somos diferentes para
sermos um só. Que a racionalidade é apenas um artifício de poder. Que
nenhuma palavra ou texto, assim como este, é capaz de transformar
alguém.
Que este texto é apenas uma contribuição pessoal, que serve de movimento
externo para uma provocação interna, que só pertence a si. Que a melhor
fórmula da vida é ser um eterno aprendiz, reafirmando o pensamento grego
que "só sei que nada sei".
Aprendi que o Natal é tão importante quanto o dia do nosso aniversário.
O Natal é um renascer e um aniversário coletivo, a 7 dias de um ano
novo, considerando que o mundo foi feito em 7 dias, que configuram a
nossa semana de feiras. Feiras modernas. Que podemos ter, então, 7
sentidos. Que nunca vi o sétimo filho do sétimo filho. Que o número 7
representa a perfeição, parafraseando Renato Russo, num processo
contínuo de celebração da estupidez humana e da estupidez de todas as
nações.
Natal é um dia para aprender a aprender... Aprender sempre, mesmo sem
saber que o sempre sempre acaba...
- Feliz Natal!
Feliz 2007!
Fraternalmente,
Valdir Sodré dos Santos(e Carla A. Sodré e Ana Carolina)
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
22/12/2006

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