A casa dos grandes pensadores
 
 
 

VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

2007

Valdir Sodré

 

                   Em 2006 afirmara que, parafraseando Renato Russo, estamos num processo contínuo de celebração da estupidez humana e de todas as nações e que devemos aprender sempre, mesmo sem saber que o “p’ra sempre” sempre acaba. Nessa visão paradoxal, o devir vislumbra-se em desafios, em buscas e em caminhos ainda não percorridos.

                   Estou e estamos a poucos dias do término de um novo ciclo e a Terra girou quase completamente em torno do Sol em 365 dias e 6 horas e alguns segundos. Mais uma vez, o pensamento volta-se para uma nova reflexão em torno de nossas pegadas deixadas no caminho ao mesmo tempo em que sustentamos nosso mundo, questionando se nos desenvolvemos.

                   Para mim, 2007 foi fonte intensa de desafios. Percebi que aprender é muito mais profundo. Reaprender é um dos possíveis caminhos. Vi-me diante dos quatro pilares da Educação para o Século XXI, segundo a UNESCO: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver (a viver juntos).

                   Após anos de convivência incômoda com a depressão, fora diagnosticado com algo bem pior. Soubera, então, que a depressão sempre fora um dos sintomas de um transtorno neuro-bio-químico. Meu mundo caiu e tive que me levantar com mais força, visto que tivera inúmeras neuroses (auto-regulação do organismo) para combater tal comando cerebral por falta de uma substância. Criei algumas alternativas para manter-se vivo, mas criei inúmeros problemas. Senti-me de mãos atadas e sem uma solução por parte dos especialistas.

                   No silêncio, busquei a voz de Deus e recorri à conversa de Jesus com Nicodemos (Jo 3, 3.4), quando afirmara que “em verdade, em verdade te digo, quem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus”. Nicodemos perguntou-lhe: “Como pode um homem renascer, sendo velho?” Respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo, quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no reino de Deus (...) O vento sopra onde quer; ouves o ruído, mas não sabe donde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito”.

                   Portanto aprender é uma parte de todo ser completo, que é cognitivo, afetivo e psicomotor (Wallon). Descobri que antes do conhecimento, existe a sabedoria. Aprender a aprender se configura como uma das faces do auto-conhecimento e não de auto-ajuda. Precisamos nos respeitar primeiramente para respeitar os outros e o mundo. Somos eternamente carentes e que ser cognoscível não nos dá a capacidade holística de viver. Ser inteligível sobrepõe o ser inteligente. Temos um corpo que fala e reclama quando atingido e/ou não é respeitado. Figura-se assim o desafeto, o não-acolhimento, o rompimento entre o campo de forças que nos compõem.

                   Diante de tudo isso, percebo-me vitorioso e convidado a mergulhar mais fundo no infinito interior e aprender a ser melhor. Buscar qualidade de vida, sabendo agora que necessito equilibrar o corpo com a minha alma “ferida” e com a unção do Espírito Santo.

                   Todos nós carregamos cruzes e revivemos a Via Crucis cotidianamente (Boff). Descobri que alguns não só carregam cruzes, mas estão crucificados. Isso não é sacrifício, nem pessimismo. Isso é a verdade revestida pelos nossos imaginários radicais, que, segundo Castoriadis, é o nosso poder de criação. É o nosso imanente, nossa luz interior, e a confirmação que Deus está dentro da gente.

                   Consigo entender mais profundamente as palavras de Nietzsche, quando afirmara que “os homens de profunda tristeza se denunciam quando estão felizes: têm uma maneira de agarrar a felicidade, como se a quisessem esmagar e sufocar, por ciúme – eles sabem muito bem como ela escapa”! E “quem combate monstruosidades deve se cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha dentro de você”.

                   Mais uma vez abro o feixe paradoxal, unindo a divindade com o maior crítico ao moralismo (inclusive o cristão) de toda história humana e marco do pós-modernismo, tendo como referência a filosofia política.

                   Nos momentos mais difíceis que passei, tive a ajuda de um anjo chamado Hamintas, que com apenas 26 anos teve sabedoria e tempo para me ensinar, sendo meu “a-luno” (sem luz?). Com um senso de humanidade e fraternidade incomparável ainda teve tempo de me apontar a aprender a conviver. Hamintas faleceu em um acidente de carro, no início de uma tarde de primavera, dormindo ao volante a 160 km/h e colidindo na traseira de um caminhão... Dormira pelo cansaço de uma rotina pesada de um trabalhador brasileiro, que além de trabalhar, estava no último semestre do Curso de Matemática.

                   Disseram-me uma vez que meus textos são deprimidos. Entendo, respeitando o olhar de cada um. Mas não compreendo, porque não aprendi o suficiente para julgar esse fato como algo depressivo...

                   Anjos são entidades comuns a todas as religiões existentes. Anjos não aparecem batendo asas. São normalmente seres humanos que de alguma forma aparecem para nos ajudar. Todos nós podemos ser anjos um dia... Para isso, devemos criar um olhar com uma lente que não filtre o mundo físico.

                   Recorrendo ainda a Nietzsche: “maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar”...

                   Quem está mais feliz agora: eu ou Hamintas ou você?

                   Quem mais vive agora? Quem aprendeu com quem?

                   Em Esconderijos do Tempo, Mário Quintana nos ajuda a aprender sempre:

“Os poemas são pássaros que chegam

Não se sabe de onde e pousam

No livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo

Como de um alçapão.

Eles não tem pouso

Nem porto

Alimentam-se um instante em cada par de mãos

E partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

No maravilhado espanto de saberes

Que o alimento deles já estava em ti...”

 

                   Mas louco é quem me diz e não é feliz... Eu sou e estou feliz... Sei que ela pode escapar a qualquer momento, mas alimento a esperança em dias melhores de um ano novo terminado em 8, com 366 dias (a cada 4 anos, temos um novo dia, são 4 anos anteriores com 365 dias e 6 horas). Vejo ainda dois mundos num oito, mas vejo que no somatório dos algarismos de 2008 forma-se um 10, que num novo somatório cria-se um 1, que representa um novo início paradoxal e dialético, formando novos desafios para alimentar e pulsar nossos desejos de viver e de ser feliz.

                   Feliz 2008 a todos!

                   Obrigado por tudo, meu eterno amigo Hamintas!

Valdir Sodré dos Santos
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  30/12/2007