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2008
Valdir Sodré
Ao me propor mais um
exercício filosófico de leitura, releitura e análise crítica-construtiva,
que sempre realizo ao findar mais um ano, sinto um nó na garganta e uma
certeza vindoura: a força do silêncio frente aos momentos de crise.
2008 foi um ano de crises e de busca de
novos olhares, de novas possibilidades e de autoconhecimento, seja de uma
forma político-social seja no plano pessoal subjetivo.
Na cadência do meu tempo em espiral,
remonto 2006 como o ano do aprender e 2007 como o ano dos desafios, para
justificar 2008 como o ano da força do silêncio, em face de todas as
crises mundiais, econômicas, políticas, religiosas, culturais,
governamentais e pessoais que vivemos e vivenciamos.
Particularmente vivi momentos de crises
profundas, que desencadearam necessidades de novos olhares, de novos
possíveis caminhos, de novas incertezas, de novos sentimentos e de novas
formas de esperança.
Descobri, a partir desses momentos
difíceis, externos e internos, a força do silêncio do meu mundo infinito
que me habita e a força do silêncio que habitam meus pares. Percebi na
melodia da oração verdadeira a opção de luz em meio às trevas, na presença
poderosa inconsciente de Deus onipresente e fidedigno.
Ao aprender e ao ser desafiado pelo
conhecimento, sincronizei o ruído comunicativo interno das crises ao
diálogo com si mesmo. Compreendi que, ao comungar com Leonardo Boff no
livro O Despertar da Águia, o símbolo nos une e o diabólico nos
separa. Que ao perceber que somos águias, necessitamos de maior cuidado e
de mais ainda de uns aos outros. Quem supostamente aprende mais, tem mais
conhecimento e sofre muito mais. Quem supostamente aprende mais, porém
transforma tal novo conhecimento em saber, sofre menos. Ao potencializar a
inteligência, que pode ser também desenvolvida, potencializamos a razão e
a explicação dos fatos, nem sempre explicáveis racionalmente, sob a ótica
de uma pretensão de que podemos dominar nossos mundos internos e nosso
mundo terreno.
Numa dinâmica ainda mais acentuada pela
informação e pela tecnologia de ponta, criamos possibilidades dialógicas
num mundo virtual, que não consegue nos aproximar de fato, pois não
estamos preparados para entrar nesse feixe se nem mesmo conseguimos ouvir
nossas vozes internas e nossos silêncios.
A força do silêncio é capaz de nos dar a
paz ou a ilusão da guerra. Não seremos nós mesmos evolutivamente se não
dominamos nossos mundos internos, que são infinitamente maiores que nosso
mundo externo ora diminuto, injusto, capitalista, selvagem e desumano.
A educação dos sentidos, tão bem proposta
por Rubem Alves, nos convida para a simplicidade, que a meu ver é a
resposta para essa enorme teia da complexidade humana.
Certamente toda crise, seja ela
histórico-cultural seja ela comportamental e particular, aponta novos
horizontes. Reabita o universo dos sonhos humanos e exige novas
construções lógico-sociais transformadoras e possíveis.
O medo do novo não nos conforta e
parecemos cegos no meio de um tiroteio. Faz-me utilizar um artifício
filosófico... “A arte da guerra implica cinco fatores principais, que
devem ser objeto de nossa contínua meditação e de todo o nosso cuidado,
como fazem os grandes artistas ao iniciarem uma obra-prima. (...) Se
quisermos que a glória e o sucesso acompanhem nossas armas, jamais devemos
perder de vista os seguintes fatores: a doutrina, o tempo, o
espaço, o comando, a disciplina” (In: A Arte da
Guerra, Sun Tzu). Tal escrito foi publicado a mais de 2.500 anos, na
China, ultrapassando o tempo cristão e ancorando na contemporaneidade,
como se não tivéssemos ainda aprendido tal sabedoria.
Vale ressaltar que a arte da guerra não
exige destruição, pois “a melhor política guerreira é tomar um Estado
intacto; uma política inferior consiste em arruiná-lo”.
Afinal, em meio a tantas crises, será que
no nosso combate intrapessoal estamos destruindo nosso Estado?
Remeto a música Baader-Meinhof Blues,
do Legião Urbana, nos versos em entoa que “a violência é tão fascinante e
nossas vidas são tão normais”. “Não estatize meus sentimentos, p’ra seu
governo o meu estado é independente”. Ou ainda: “afinal, amar ao próximo é
tão demodê”.
Baader-Meinhof é um grupo terrorista
alemão e demodê é fora de moda. Qual é o terrorismo que nos deixa
infelizes? Qual é a moda do século XXI?
Estamos a poucas horas do início de um ano
que findará a primeira década do século XXI... 2009 já se apresenta como
um momento diacrônico oportuno e necessariamente carente de um novo pensar
mais humano, ecológico e fraterno.
Apesar de todas as crises que tive, ainda
acredito no ser humano, nos sonhos coletivos e num mundo mais justo,
solidário e fraterno. A força do silêncio não silencia meus sonhos e muito
menos o pulsar sincrônico da história e da vida.
Feliz 2009!
Valdir
Sodré
30/12/2008
Valdir
Sodré dos Santos
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
05/01/2009
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