A DEMOCRACIA
TRAVESTIDA DE ANARQUIA
Ultimamente vários episódios, tão
veiculados na mídia, têm nos deixado perplexos e atordoados. São vômitos
diários na TV de corrupção, de desastres ambientais, de violência, enfim
de desumanização extrema.
Primeiramente, para construirmos a
reflexão necessária em torno dessa nossa realidade, precisamos fazer um
zoom cósmico: ao mesmo tempo que olharmos para o exterior, para o imenso
mundo que nos cerca, olhemos também para nosso interior, para dentro de
nós mesmos. Tal exercício pode ser expressado de uma maneira especial no
vídeo Zoom Cósmico, feito em 1968 no Canadá, que em apenas oito minutos e
sem nenhuma palavra nos mostra as dimensões micro e macro que nos
acompanham.
O “bullying”, que é uma situação onde
as vítimas são agredidas física e/ou psicologicamente, já é foco de
estudos nas escolas de todo o mundo. É uma relação de intimidação, através
de gestos hostis, de ameaças, de humilhações, de xingamentos, de agressões
e de difamações. Estudos apontam que tal comportamento se traduz no não
cumprimento de regras estabelecidas num ambiente escolar. Assim, a
violência se apresenta de forma simbólica e cultural, contaminando o
exercício do aprender.
Os aspectos mais graves desse
processo são a banalização e a naturalização, sem mecanismos
institucionais que impeçam.
Precisamos entender que todos esses
acontecimentos têm diversas formas de serem compreendidos, mas são
problemas comuns no mundo inteiro e não somente no Brasil. Esse jogo
brutal pode ser ilustrado na exposição de fotos de Sebastião Salgado
(Êxodos), que ao mesmo tempo que nos mostra o massacre de Eldorado dos
Carajás, apresenta-nos os mutilados no Afeganistão, os refugiados do
Sudão, a favela de Mahim na Índia, os curdos, as viúvas iraquianas, os
órfãos sul-vietnamitas, os refugiados da Bósnia, os refugiados de
Moçambique, enfim o mundo dos sem-pátrias. Aqueles que vivem um processo
de “assujeitamento”, sem uma identidade própria. Esse é o resultado da
proposta de mundo moderna e capitalista que temos.
Nesse sentido, a morte daquele menino
nas ruas suburbanas cariocas, assim como aqueles adolescentes de classe
alta que violentaram aquela trabalhadora doméstica na Barra da Tijuca,
assim como aqueles jovens que mataram o índio Galdino na capital federal,
são resultado igualmente compreendido no que acontece no Haiti, no Iraque,
na Faixa de Gaza, na Inglaterra e no mundo inteiro.
Historicamente, todos os impérios
caíram e todas revoluções ocorreram quando a classe média foi atingida.
Assim, possivelmente estamos vivendo e vivenciando uma transformação na
lógica de um nova ordem mundial, que ainda não está estabelecida, mas que
está sendo alicerçada nas dinâmicas sociais e conjunturais de diversos
países e blocos.
Para nós, simples seres humanos e
brasileiros, por incrível que pareça, temos uma responsabilidade muito
grande, pois estamos fazendo um enorme exemplo de exercício de democracia.
Passamos e ainda passamos por tempos difíceis, da ditadura militar à
corrupção política e institucional. O melhor de tudo isso é que estamos
aperfeiçoando a democracia brasileira. Hoje discutimos os problemas
nacionais com o garçom de um bar, com o gari de uma praia turística, com
as crianças, com doutores e pós-doutores, com gente brasileira. Nesse
sentido, percebemos que cada vez mais todos nós temos responsabilidade com
os rumos e destino de nossa Nação. Eis a democracia, mesmo sendo
representativa e capitalista, sendo consubstanciada pelos ditames de um
povo.
O conceito de democracia na visão
capitalista não se assemelha ao de democracia socialista. A democracia
grega pautava-se no exercício permanente do diálogo, da discussão, num
tempo e espaço extremamente diferente do de hoje. A democracia é o melhor
que temos e deve ser respeitada e defendida por todos nós.
Democracia é o regime político no
qual a soberania é exercida pelo povo. Democracia é sistêmica e portanto
tem leis e regras. Se não existirem regras, apontando-nos que podemos
fazer qualquer coisa, não é democracia. É anarquia, que não é sistêmica.
Anarquia é estado de uma sociedade não-organizada ou desorganizada,
desprovida de governo.
A anarquia tem seu lado positivo. Ela
foi fonte inspiradora do sindicalismo e os anarquistas não são contrários
a um estilo de vida organizado, mas sim ao uso indevido da coerção e da
força para mantê-lo.
Todos os últimos episódios que nos
deixaram perplexos demonstram um alto grau anárquico e, ainda pior,
desumano. Precisamos refletir com muita profundidade e discernimento sobre
cada atitude que tomamos com os nossos filhos. Somos diferentes dos outros
animais porque pensamos. Pensar é o começo. Como Marx afirmara: “Uma
aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais
de um arquiteto ao construir sua colméia; mas o que distingue o pior
arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes
de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um
resultado que já existia idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não
transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o
projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei
determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua
vontade”.
Enfim, a resposta de nossos jovens e
de toda sociedade oprimida é uma busca de um lugar, que deva existir,
“onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance”. Mesmo os
jovens da capital federal cartesiana do Plano Piloto quanto aqueles que
vivem entre grades de condomínios luxuosos da Barra da Tijuca são tão
escravos quanto qualquer favelado, suburbano ou morador de uma
cidade-satélite de Brasília.
O grande problema é a forma como
estão sendo dadas as respostas. Não acreditar na juventude é não acreditar
na vida e no futuro. Precisamos deixar um mundo melhor do que aquele que
recebemos para as futuras gerações. Os filhos e netos da geração hippie
não acreditam e não querem a mesma liberdade de paz e amor. Eles clamam
por regras que não foram dadas a eles nem na família, nem pelo Estado, que
sangra nas valas da corrupção. Lutamos para termos liberdade, para que os
jovens de hoje tivessem um mundo mais justo e fraterno. Agora lutamos pelo
mal uso dessa liberdade conquistada e buscamos uma reconstrução de
representações sociais para ela, sem apelarmos ao passado tenebroso de
discursos saudosos e autoritários da ditadura militar.
A melhor anarquia é acreditar no
diálogo, que, conforme preconizavam Sócrates e Platão, consiste na forma
de investigação filosófica da verdade através de uma discussão entre o
mestre e seus discípulos, cabendo ao mestre levá-los a descobrir um saber
que trazem em si mesmos mas que ignoram. Dessa forma, oportunizamos
oportunizando-se o exercício de uma consciência reflexiva coletiva e
humana, dando-nos a capacidade de discernir, focalizar e orientar nossos
pensamentos.
Torna-se imperativo um
comprometimento social alicerçado na família e nas diversas comunidades,
conscientes de que não damos conta de toda a complexidade do mundo
moderno, mas que cada um de nós faça a sua importante e necessária parte.
A resposta para “tudo isso” ainda precisamos construir. Afinal a lição
sabemos de cor, só nos resta aprender...
- Valdir Sodré dos Santos