A casa dos grandes pensadores
 
 
 

VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

A PEDAGOGIA DO SOFRIMENTO

  A felicidade existe? A felicidade é permanente? É personalizada e/ou coletiva?
 Tais indagações nos levam a reflexões profundas, que justificam a história da humanidade na busca de compreensão da nossa existência. Nem a tragédia grega nem o existencialismo foram capazes de compreender a complexidade de ser feliz, admitindo a sua ausência e ao colocar a dor da alma humana como processo natural em vida.
  Faz-nos entender que sofrimento existe em qualquer ser, incluindo os seres humanos, que são racionais e se diferenciam dos demais seres. Para ampliar tal perspectiva, Marx afirmara que trabalhar é um ato exclusivamente humano e por ele o homem se diferencia dos animais, pois
Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia; mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade.
 Tal sofrimento humano e ontológico está presente na planta da sala de jantar de um apartamento, que busca a luz da janela no lado oposto do ambiente. Está na venda da força do trabalho humano para o seu sustento, reduzindo seu produto a algumas notas de dinheiro.
 Porém, mesmo sofrendo, o homem tem uma extraordinária capacidade de adaptação aos diferentes ambientes nos quais está inserido. Mesmo diante de obstáculos, que parecem impossíveis de transpô-los, o homem sonha e transforma um sonho em possibilidade real a partir do uso de sua perfeita máquina de pensar.
 Compreender o sofrimento pela lógica racional nos capacita para a Criação e o Criador. Ficamos perplexos diante das injustiças, que muitas vezes não são determinadas pela racionalidade humana. Assim, julgamos, mesmo que inconscientemente, que exista uma força superior e que nossa racionalidade não consegue decodificar em atributos reais.
 Portanto, mesmo seres humanos infelizes são capazes de fazer outros felizes. Ser feliz e tornar outros seres felizes são a plenitude. A felicidade não se justifica na dimensão do imediatismo nem na lógica temporal de calendários e de aniversários.
 Ser infeliz e não tornar outros felizes é a escravidão crua e nua, que alimenta o lamento dos que sofrem. Sofrer também é necessário. É alimento para alma e nos transforma em guerreiros da vida.
 Quando um ser humano infeliz, conscientemente percebe que a pedagogia do sofrimento é um resgate das injustiças humanas, compreende que o mal é produto de nossa arrogância, de nossa ambição e de nossa sede de poder.
 Entender essa lógica pedagógica é resgatar o paidagogo, que, na Grécia Antiga, era o escravo condutor de crianças e transformá-lo conscientemente em um ser especial, que mesmo sofrendo acreditara e hoje deva acreditar que criança é a nossa esperança para que o mundo precise continuar.
 A construção de uma felicidade verdadeira começa compreendendo a proposta apocalíptica de mundo “moderno”. Todas as mães e todos os pais são pedagogos e preferem sofrer a ver um filho sofrendo. Sofrimento é crescimento humano.

Valdir Sodré dos Santos

Publicação: www.paralerepensar.com.br  15/08/2008